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Com vaquinha e ajuda de moradores, professora reforma casa de aluno no Rio

Sala da casa de aluno da professora Elisângela Pereira no Complexo do Alemão após reforma promovida pela educadora - Arquivo Pessoal/Elisângela Pereira
Sala da casa de aluno da professora Elisângela Pereira no Complexo do Alemão após reforma promovida pela educadora Imagem: Arquivo Pessoal/Elisângela Pereira

Waleska Borges

Colaboração para o UOL, do Rio

18/01/2021 04h00

"Agora eles têm um lugar para chamar de lar. Antes, não tinham nem casa e nem lar", diz a professora Elisângela Pereira, 47, sobre a residência reformada para um casal e suas cinco crianças autistas no Complexo do Alemão, na zona norte do Rio.

Em setembro do ano passado, a educadora iniciou uma vaquinha online para juntar dinheiro e reformar o imóvel. O resultado do esforço começa a ser concluído.

A casa de três cômodos, que antes estava cheia de infiltrações, com o banheiro sem piso nem azulejos, paredes úmidas e um vaso sanitário quebrado, precisou quase ser colocada abaixo. Apenas o pequeno banheiro ficou de pé.

Muito emocionada, a professora, que atua como auxiliar de creche, conheceu o caçula da família em 2019, quando ele se tornou um de seus alunos. Durante a pandemia do novo coronavírus, ela visitou a família do menino, de 4 anos, e se sensibilizou com a situação crítica da casa. O UOL contou a história em reportagem publicada no mês passado.

Recebi a ajuda de muita gente. Não fiz nada sozinha. O Flávio [comerciante da região] foi nosso grande anjo. Outras pessoas ajudaram com móveis e demais necessidades. Teve um senhor também da comunidade, que viu a reportagem do UOL, e doou todo piso. Até hoje, me emociono muito ao ver as fotos do antes e do depois.
Elisângela Pereira, professora

Atualmente, a casa tem dois quartos, sala, cozinha e banheiro. O telhado ainda precisa de forros de PVC. Além disso, a professora pretende arrecadar dinheiro para comprar um ar-condicionado, pagar dívida de R$ 2.300 na loja de material de construção e fazer de um pequeno cômodo do lado de fora uma sala de atividades para as crianças. Antes era onde elas dormiam.

A casa de aluno do Complexo do Alemão reformada pela professora Elisângela Pereira

"Até a sexta-feira, as crianças ainda estavam dormindo no chão em edredom. Ganhei três camas, faltam duas. Também vamos colocar um pula-pula e um escorregador no quintal, onde bate muito sol e precisa de uma cobertura", disse Elisângela.

A família vive no local há sete anos. O casal Cleyton de Albuquerque, 41, e Ysis Spinelli, 33, tem cinco filhos com idades entre 4 e 13 anos. Todos têm algum grau de autismo —duas crianças vivem com a avó materna.

Até a publicação desta reportagem, a vaquinha online havia arrecadado R$ 13.499,56. A meta colocada pela professora é de R$ 20 mil. No entanto, Flávio Ribeiro, 39, dono de uma oficina mecânica e também morador do Alemão, doou do próprio bolso cerca de R$ 18 mil.

Quando o pedreiro foi quebrar as paredes, ele viu que elas eram de madeira com barro. Já estavam podres. O pedreiro empurrou com as mãos e elas caíram. Acredito que, [se passasse] mais duas semanas sem a obra, elas teriam desabado em cima da família. Me dediquei muito a essa causa, fiquei afastado do meu negócio, tive coronavírus em dezembro, acompanhei tudo por telefone, mas faria tudo de novo.
Flávio Ribeiro, dono de uma oficina mecânica

O comerciante que, no ano passado, viu a sua filha de seis anos vencer um tumor no pescoço, pretende com Elisângela criar um projeto já batizado de "Jardim Elay" para ajudar outras famílias da comunidade com filhos autistas.

"Não vamos conseguir fazer o mesmo que fizemos por essa família, reformando uma casa toda. Mas a nossa intenção é ajudar cada família um pouquinho", conta Ribeiro.

Natal foi com casa reformada

O Natal da família na casa nova foi de alegria. Elisângela deu R$ 500 da vaquinha online para que o casal comprasse bolos, pudim, refrigerante e outros desejos que tivessem. Como a ceia foi na casa de uma irmã de Cleyton, só desfrutaram dos produtos natalinos quando voltaram ao lar.

Elisângela - Arquivo Pessoal/Elisângela Pereira - Arquivo Pessoal/Elisângela Pereira
Elisângela Pereira, professora que levantou dinheiro para reformar a casa no Complexo do Alemão de um aluno, filho de Cleyton de Albuquerque (à dir.); no processo, ela contou com a ajuda de Flávio Ribeiro, dono de uma oficina mecânica na comunidade.
Imagem: Arquivo Pessoal/Elisângela Pereira

Ainda com o dinheiro da vaquinha, a educadora comprou uma TV de 32 polegadas, dois guarda-roupas, uma cama box e utensílios para cozinha.

"Eles não tinham televisão e ficaram maravilhados. Algumas pessoas também ajudaram doando roupas de cama e até toalhas que eles não tinham. Continuo lá ajudando a família. A mãe tem uma dificuldade mental e o pai tem um grau leve de autismo. Precisam de orientação. Eles têm medo de serem abandonados novamente."

Muito feliz com o que aconteceu com sua família, Cleyton, que recebe cerca de um salário mínimo com manutenção de eletrônicos, diz que sonha em poder retribuir Elisângela e Ribeiro. Preocupado com o fim do auxílio emergencial do governo federal, ele quer adaptar um espaço no imóvel para montar uma oficina própria.

A casa mudou muito. O banheiro foi da água para o vinho. É meu cômodo favorito. As crianças ficaram muito felizes. Fico muito grato a todos que ajudaram.
Cleyton de Albuquerque