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PI: Borracheiro usa as paredes de oficina para estudar enquanto trabalha

Borracheiro Vladimir Brito usa as paredes de sua oficia em Teresina (PI) para revisar o conteúdo da faculdade de educação física - Divulgação
Borracheiro Vladimir Brito usa as paredes de sua oficia em Teresina (PI) para revisar o conteúdo da faculdade de educação física Imagem: Divulgação

Ed Rodrigues

Colaboração para o UOL, de Recife (PE)

21/07/2021 04h00

Trabalhando desde criança, o borracheiro Vladimir Brito, de 34 anos, não viu outra alternativa para conciliar o trabalho e a faculdade de Educação Física. Para estudar enquanto calibra pneus, ele escreveu resumos dos assuntos de aulas como fisiologia, bioquímica e biomecânica nas paredes de sua borracharia em Teresina (PI).

Estudando nos intervalos entre um cliente e outro, ele conseguiu chegar ao 8º período do curso e deve se formar no final deste ano. Ele também arranjou um estágio em uma academia após um empresário entrar na borracharia e ficar encantado com sua dedicação.

Escrevo os assuntos daquele determinado período. Quando concluo, pinto tudo para poder fazer novos mapas mentais. Cada período tem assuntos específicos que tomam todas as paredes. Não fica espaço para pendurar um quadro sequer."
Vladimir Brito, borracheiro e estudante de Educação Física

Ao UOL ele explicou que começou a trabalhar aos 12 anos. O pai tinha uma loja próxima, mas, em vez de ajudá-lo, Brito ia bater ponto em uma borracharia vizinha.

"Meu pai fazia pré-moldados e do lado tinha essa borracharia. Nas horas vagas, eu ia ajudar de graça, só para aprender. Meu pai até brigava, porque não ganhava nada. Mas valeu a perna. Depois, o rapaz me chamou para trabalhar com ele de verdade", lembra.

Depois disso, ele até chegou a trabalhar como jardineiro e ensaiou uma carreira como modelo de roupas, mas acabou retomando as atividades na borracharia.

Como a oficina operava 24 horas por dia, os estudos começaram a ficar em segundo plano, visto que Vladimir precisava do dinheiro da borracharia para sobreviver.

"Parei de estudar no segundo ano do ensino médio com 18 anos. O trabalho me tomava muito tempo", disse.

Com o tempo, ele abriu a própria borracharia. Na oficina de cerca de 10 m², localizada no bairro Morada do Sol, Brito faz remendos, troca pneus e faz vulcanizações. Ele atende entre 15 e 20 clientes por dia e cobra de R$ 15 a R$ 50, a depender da complexidade do serviço.

Atualmente, com a esposa sem trabalhar por estar grávida do primeiro filho dos dois, ele é a única fonte de renda do casal.

Mapas mentais na parede

Prestes a completar 30 anos, ele resolveu mudar de vida e voltar a estudar com 29 anos. Não gostaria de passar o resto da vida na borracharia e, como gosta muito de futebol, tinha atração pela área de Educação Física.

borracheiro - Divulgação - Divulgação
Borracheiro Vladimir Brito usa as paredes de sua oficia em Teresina (PI) para revisar o conteúdo da faculdade de educação física
Imagem: Divulgação

"Está dando certo, porque já estou perto de concluir a faculdade", disse.

A volta aos estudos contou com uma bolsa de 70% fornecida pela Aespi (Associação de Ensino Superior do Piauí), onde estuda. Os 30% restantes, cerca de R$ 270, são pagos com o trabalho na borracharia.

Assim que voltou para as carteiras escolares, Brito aprendeu com os professores a usar mapas mentais que o auxiliam principalmente quando se aproxima das avaliações.

A matéria fica na minha frente. Por exemplo: se terei prova de biomecânica e sei o que tenho que estudar, pego esse assunto e eu mesmo desenho em pontos estratégicos que ficam dentro do meu campo de visão. Então, vou fazendo meus serviços e sempre fico de olho na matéria. Reviso e repasso ao longo do dia. Minha dedicação aos estudos é 100% dentro da borracharia, mas com todo o cuidado. Nunca me acidentei ou deixei de entregar o serviço direito."
Vladimir Brito, estudante de educação física e borracheiro

O também borracheiro Pedro Augusto de Oliveira, que trabalha na oficina, recorda como eram os estudos antes.

"No caderno, não dava para ele escrever porque sujava fácil com graxa e óleo. Aí começou a escrever nas paredes. Quando não tem cliente ou quando ele bota algum pneu na máquina, fica sempre revisando os assuntos. Ele é um exemplo", ressaltou.

Oliveira não diz isso da boca para fora. Ele se inspirou no amigo de infância para voltar a estudar e atualmente está no 5º período de educação física.

Eu vi o esforço de Vladimir desde o começo. Ele sempre foi muito esforçado. Quando vi aquelas anotações na parede pensei: o esforço dele está valendo a pena. Ele me incentivou e me ajudou a conseguir uma bolsa na mesma faculdade que ele estuda."
Pedro Augusto de Oliveira. amigo de Vladimir

Depois de passar de companheiro de profissão a colega de curso, Oliveira tem ajudado Brito a levar os estudos adiante. Ele assume a borracharia no período da tarde, quando o amigo estudante vai para o estágio.

História reconhecida

A oportunidade foi dada pelo proprietário de uma academia do bairro, que viu o esforço do borracheiro. Depois de abrir um processo seletivo, o empresário Marcelo Bezerra tomou conhecimento das paredes de Brito por meio de alguns amigos. No começo, não deu muita bola.

"Estava fazendo seleção de estágio aqui no meu estúdio, e ele já havia mandado currículo, mas eu não tinha visto o documento. Falaram que ele rabiscava a parede para estudar, mas aquilo não tinha chamado a minha atenção", diz.

Só depois de precisar ir à borracharia é que Bezerra percebeu que aquilo era mais do que meras anotações aleatórias.

Quando vi a parede, notei que era um aluno de alto nível. Ali tem reações complexas. Nem todo mundo consegue entender ou tem atração por esse conteúdo."
Marcelo Bezerra, empresário

O resultado do encontro foi o convite para estagiar no estúdio do empresário. "Tenho o critério de escolher alunos que realmente queriam aprender. Ele é uma pessoa diferenciada", afirma.