Fundamento da realidade





Autor Josué Cândido da Silva




Objetivos

  • Discutir os conceitos de fundamento, filosofia, ciência, religião.
  • Trabalhar as habilidades de raciocínio, interpretação de texto e formação de conceitos.

Introdução

Dê uma aula expositiva sobre o tema ou peça aos alunos que leiam o texto Teoria do conhecimento: o princípio - fundamento da realidade. Na seqüência estabeleça uma conexão entre este tema e o da aula anterior. Você poderá checar a compreensão dos alunos sobre o tema através das sugestões que se seguem.

Plano de discussão

Existe um fundamento para tudo? Os primeiros filósofos estavam preocupados em encontrar um fundamento primordial de todas as coisas. Mas será que tudo tem um princípio? Peça aos alunos que marquem com um X entre os termos abaixo quais necessariamente precisariam ter um fundamento e quais não. Depois que terminarem de marcar, discuta com a classe quais as razões que os levaram a achar que determinadas coisas precisam ter um princípio ou fundamento e quais não e por quê?

Não tem fundamento ou princípio

  Tem um fundamento ou princípio  
O Universo    
A matemática    
A paixão    
As variações dos preços.    
As preferências pessoais por determinadas coisas.    
A seqüência dos fatos históricos.    
As diferenças sociais.    
Os preconceitos    
A imaginação    
O esporte    

Trabalhando com o texto

Peça para os alunos que leiam o texto abaixo e tentem identificar os seguintes elementos:

1) Quais as razões que Nietzsche enumera para levar a proposição de Tales a sério?

2) O que diferencia a filosofia da religião e da ciência?

3) O que faz com que a filosofia vá mais longe que a ciência?

4) Qual a relação entre o filósofo e o sábio?

5) Segundo Nietzsche, qual o limite não superado no filosofar de Tales?

A filosofia grega parece começar com uma idéia absurda, com a proposição: a água é a origem e a matriz de todas as coisas. Será mesmo necessário deter-nos nela e levá-la a sério? Sim, e por três razões: em primeiro lugar, porque essa proposição enuncia algo sobre a origem das coisas; em segundo lugar, porque o faz sem imagem e fabulação; e enfim, em terceiro lugar, porque nela, embora apenas em estado de crisálida, está contido o pensamento: “Tudo é um”. A razão citada em primeiro lugar deixa Tales ainda em comunidade com os religiosos e supersticiosos, a segunda o tira dessa sociedade e no-lo mostra como investigador da natureza, mas, em virtude da terceira, Tales se torna o primeiro filósofo grego. Se tivesse dito: “Da água provém a terra”, teríamos apenas uma hipótese científica, falsa, mas dificilmente refutável. Mas ele foi além do científico. Ao expor essa representação de unidade através da hipótese da água, Tales não superou o estágio inferior das noções físicas da época, mas, no máximo, saltou por sobre ele. As parcas e desordenadas observações da natureza empírica que Tales havia feito sobre a presença e as transformações da água ou, mais exatamente, do úmido, seriam o que menos permitiria ou mesmo aconselharia tão monstruosa generalização; o que o impeliu a esta foi um postulado metafísico, uma crença que tem sua origem em uma intuição mística e que encontramos em todos os filósofos, ao lado dos esforços sempre renovados para exprimi-la melhor – a proposição: “Tudo é um”. (...) Quando Tales diz: “Tudo é água”, o homem estremece e se ergue do tatear e rastejar vermiformes das ciências isoladas, pressente a solução última das coisas e vence, com esse pressentimento, o acanhamento dos graus inferiores do conhecimento. O filósofo busca ressoar em si mesmo o clangor total do mundo e, de si mesmo, expô-lo em conceitos; enquanto é contemplativo como o artista plástico, compassivo como o religioso, à espreita de fins e causalidades como o homem de ciência, enquanto sente dilatar-se até a dimensão do macrocosmo, conserva a lucidez para considerar-se friamente como o reflexo do mundo, essa lucidez que tem o artista dramático quando se transforma em outros corpos, fala a partir destes e, contudo sabe projetar essa transformação para o exterior, em versos escritos. O que é o verso para o poeta, aqui, é para o filósofo o pensar dialético: é deste que ele lança mão para fixar-se em seu enfeitiçamento, para petrificá-lo. E assim como, para o dramaturgo, palavra e verso são apenas o balbucio em uma língua estrangeira, para dizer nela o que viveu e contemplou e que, diretamente, só poderia anunciar pelos gestos e a música, assim a expressão daquela intuição filosófica profunda pela dialética e a reflexão científica é, decerto, por um lado, o único meio de comunicar o contemplado, mas um meio raquítico, no fundo uma transposição metafórica, totalmente infiel, em uma esfera e língua diferentes. Assim contemplou Tales a unidade de tudo o que é: e quando quis comunicar-se falou da água!

(Nietzsche, Friedrich. A Filosofia na época trágica dos gregos, § 3. Tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho. In: Os Pré-socráticos, São Paulo: Nova Cultural, 1989, Coleção “Os Pensadores”, pp. 10-12)

 

 

Josué Cândido da Silva
é professor de filosofia da Universidade Estadual de Santa Cruz em Ilhéus (BA).

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