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Cultura

Entenda o que essa palavra significa

Lílian Campos*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Definir cultura não é uma tarefa simples. Várias noções têm perpassado os tempos e, ainda hoje, podemos dizer que o termo cultura encontra-se num processo de ajuste constante de sua definição.

Um dos seus significados originais aponta para "cultivo agrícola", referindo-se ao que cresce naturalmente. Inicialmente, a cultura estava associada a algo que era material e, a partir de um desdobramento histórico (a passagem da civilização de uma vida rural para a vida concentrada em centros urbanos), o termo assumiu sentido no âmbito intelectual.

Da raiz latina colere, cultura pode significar desde cultivar e habitar a adorar e proteger, levando ao termo "culto", utilizado no sentido religioso. Assim, a cultura estende-se para o domínio das artes sagradas, além de significar as tradições de um povo, a serem protegidas e veneradas.

Cultura e civilização

Assim, ao se aproximar da definição que nos interessa neste artigo, o termo se afasta do seu sentido original. A cultura, agora marcada pela sua identidade com o espaço urbano, dota aqueles que aí vivem de certos atributos: ser culto significa compreender regras que determinam um refinamento presente nas relações sociais. Isto aparece em oposição ao campo, que seria um espaço de não-cultura.

Raymond Williams dedicou-se a estudar a noção de cultura em toda a sua complexidade. Em uma proposta de definição, este autor sugere que, a partir do século 18, cultura seria sinônimo de "civilização", integrando-se a um processo geral de progresso intelectual, espiritual e material. Neste terreno, costumes e moral fazem parte do amplo sentido aí atribuído, levando em conta que ser civilizado compreende "não cuspir no tapete, assim como não decapitar seus prisioneiros de guerra" (EAGLETON, 2000).

Desse modo, cultura e civilização confundem-se, gerando uma ambiguidade que se manteria até finais do século 19, quando suas noções vão se tornando distintas e, em certa medida, antagônicas.

Civilização adquire um sentido de caráter sociável, cordialidade e maneiras agradáveis, apresentando-se como um utilitário nas relações sociais; cultura, por sua vez, torna-se algo que diz respeito ao espiritual, ao crítico, ao sensível, enfatizando os altos princípios humanos.

Essa rivalidade mantinha-se ainda como um jogo de oposição política e ideológica criada entre aristocracia e burguesia, respectivamente, entre tradição e modernidade.

Conjunto de manifestações

Em princípios do século 20, a noção de cultura vai tomando contornos de pluralidade: fala-se nas culturas de diferentes nações e períodos, bem como de diferentes culturas dentro de uma mesma nação, em um mesmo período.

Há um progressivo despontar da cultura como um conjunto de elementos caracterizadores de grupos específicos enquanto "políticas de identidade", incluindo os movimentos de minorias.

No entanto, quando o conceito de cultura vê-se pluralizado, torna-se difícil manter seu caráter positivo; ao falarmos em pluralidade cultural, assumimos que podemos nos referir à "cultura da máfia" ou à "cultura dos serial killers" enquanto grupos detentores de uma identidade coesa. Porém, a aceitação destas formas de cultura está comprometida, pois se incompatibiliza com os valores da sociedade vigente.

Por outro lado, este alargamento da noção de cultura permite contribuições importantes, uma vez que ela passa a ser entendida enquanto um todo de manifestações compartilhadas nos diferentes domínios de um grupo (artístico, linguístico, econômico, social etc.). E, tal como o foi em outros períodos, a noção de cultura segue seu percurso, sendo redefinida de acordo com as ênfases econômicas, políticas e ideológicas particulares a um momento histórico.

Por fim, a definição de cultura conhece em nossos dias uma amplitude de seu significado. Falamos em cultura de massas e cultura de minorias; compreendemos que não há culturas melhores que outras, mas sim uma diversidade delas; e podemos identificá-la ainda como um complexo conjunto de valores e práticas que os indivíduos constroem e mantém como identidade de um dado grupo.

Sugestão de leitura

EAGLETON, Terry. A ideia de cultura São Paulo: Unesp, 2000.
*Lílian Campos é formada em Letras. É professora de língua francesa na PUC-PR e na UFPR, com atuação também no ensino de língua portuguesa.
Os textos publicados antes de 1º de janeiro de 2009 não seguem o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. A grafia vigente até então e a da reforma ortográfica serão aceitas até 2012

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