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Épica

Ilíada e Odisseia influenciam a prosa moderna

Jorge Viana de Moraes*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
A épica é um gênero muito antigo, tão antigo quanto a própria literatura ocidental: ambas surgem no ocidente com a Ilíada e a Odisseia, de Homero . A épica foi cultivada pelos renascentistas, dentre eles Camões, que nos legou a maior epopeia moderna, Os Lusíadas, cujas páginas narram a viagem de Vasco da Gama às Índias, mas que tem como motivo principal um canto de louvor ao povo português, o verdadeiro herói dessa magnífica obra.

Importância da leitura

Mas, antes de nos aprofundarmos na questão da épica e de sua influência na prosa moderna, precisamos falar sobre a leitura, uma prática, um hábito de extrema e vital importância no processo de aquisição das técnicas de escrita.

Quando lemos, internalizamos alguns esquemas estruturais que nos ajudam a escrever. Não é nova, por exemplo, a tese de que não se aprende (e apreende) ortografia meramente por meio de regras ortográficas - as regras de acentuação são uma delas. A leitura, como prática, nos facilita a aprendizagem da escrita nos seus variados gêneros.

Escrever não é somente traçar algumas más linhas no papel. É, antes de tudo, saber fazer uso das várias formas de comunicação com desenvoltura. É como se quem escrevesse soubesse não apenas grafar, acentuar e pontuar corretamente. Mas, sobretudo, desenvolver seu discurso passando a impressão de que é "senhor" no assunto, conhecedor da matéria. E, para isso, regras gramaticais, por exemplo, não são suficientes, embora sejam importantes.

Manter contato com os diversos gêneros discursivos (neste caso, literários) é uma forma de nos apropriarmos de suas estruturas, linguagem, estilo, etc. Ou seja, é uma forma de nos tornamos "senhores" no assunto. Este é um dos motivos da importância da leitura dos clássicos. Sem mencionar os incontáveis mundos que adentramos quando lemos, por exemplo, histórias como a da guerra de Troia e o cavalo de pau (presente de grego), ou o retorno de um dos heróicos guerreiros - Ulisses - à sua pátria: a ilha de Ítaca, depois da queda da cidade de Troia, cuja resistência aos gregos durou dez longos anos. Essas duas histórias podem ser lidas nas páginas dos épicos Ilíada e Odisseia.

Definições de épica

A épica (ou epopeia), de acordo com Angélica Soares, é "uma longa narrativa literária de caráter heróico, grandioso e de interesse nacional e social [...] que apresenta, juntamente com todos os elementos narrativos (o narrador, o narratário, personagens, tema, enredo, espaço e tempo), uma atmosfera maravilhosa que, em torno de acontecimentos históricos passados, reúne mitos, heróis e deuses, podendo-se apresentar em prosa (como as canções de gesta medievais) ou em verso (como Os Lusíadas)".

Mas há algumas diferenças quanto aos termos, pois, para alguns teóricos, "épica" é usada no sentido técnico, na acepção de gênero narrativo, enquanto que o termo "epopeia" é utilizado como uma espécie pertencente ao gênero épico.

Para Anatol Rosenfelf, "a epopeia, o grande poema heróico", um termo que, na língua portuguesa, geralmente é empregado como sinônimo de "épico", é apenas uma espécie do gênero épico, "ao qual pertencem outras espécies, tais como o romance, a novela, o conto e outros escritos de teor narrativo".

Épica e gêneros modernos

Como se sabe, os gêneros modernos em prosa, tais como a novela, o romance, o conto e a crônica, não têm relações genéticas com a epopeia, mas pode-se dizer que a ela se equivalem nos tempos modernos, com algumas ressalvas, é claro.

Já a epopeia (a épica) corresponde, segundo Lukács, a um tempo anterior ao da consciência individual, e que por tal motivo volta-se para o destino de uma coletividade, enquanto que os gêneros narrativos modernos, como o romance, estão ligados ao individualismo, tão caro à característica da nossa sociedade moderna (contemporânea).

Diz Lukács: "[...] os homens modernos, ao contrário dos homens do mundo antigo, separam-se com suas finalidades e relações 'pessoais', das finalidades da totalidade: aquilo que o indivíduo faz com suas próprias forças o faz só para si e é por isso que ele responde apenas pelo seu próprio agir e não pelos atos da totalidade substancial à qual pertence".

É por isso que ler os épicos - verdadeiros clássicos - é uma forma de entendermos as contradições da nossa sociedade contemporânea, muitas vezes representadas nas páginas de um romance ou de um conto modernos. Apropriamo-nos, também, como já se disse, de novas formas de escrita, além de alargarmos nossos conhecimentos literários, cujas fronteiras tornam-se transponíveis na medida em que associamos o que lemos ao que, por nós, já foi lido. A isso chamam alguns teóricos intertextualidade. Uma espécie de diálogo estabelecido entre os textos.

Só o conhecimento dessas obras - dos épicos - poderia nos oferecer uma maior legibilidade dos mais variados textos que a elas, direta ou indiretamente, fazem alusão.

Referências bibliográficas

  • LUKÁCS, Georg. "O romance como epopeia burguesa". Trad. Letízia Zini Antunes. In Ad hominen I: Revista de Filosofia, Política, Ciência da História. Tomo II Música e Literatura. São Paulo: Ad Hominem, 1999.
  • ROSENFELD, Anatol. O teatro épico. São Paulo: Perspectiva, 2004.
  • SOARES, Angélica. Gêneros literários. 6ª ed. São Paulo: Ática, 2001.
  • *Jorge Viana de Moraes é professor universitário em cursos de graduação e pós-graduação na área de Letras. Atualmente, mestrando em Língua Portuguesa e Filologia pela Universidade de São Paulo.
    Os textos publicados antes de 1º de janeiro de 2009 não seguem o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. A grafia vigente até então e a da reforma ortográfica serão aceitas até 2012

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