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São Bernardo

Graciliano Ramos narra com primor trajeto existencial

Oscar D'Ambrosio*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Divulgação

Othon Bastos fez o coronel Paulo Honório, na adaptação de São Bernardo, de Graciliano Ramos

O que mais impressiona no romance "São Bernardo" (1934), de Graciliano Ramos (1892-1953), é a forma como o protagonista, Paulo Honório, narra a sua caminhada, desde a progressiva ascensão até a decadência. Isso é contado numa linguagem que não se perde na melancolia ou nos adjetivos, mas se caracteriza por uma extrema concisão.

A sua história é marcada pela solidão. Abandonado pelos pais e criado por uma negra doceira, trabalhou na roça e, em busca de seu objetivo, o poder econômico, com uma arma na mão e a mentalidade de enriquecer de qualquer modo na cabeça, conseguiu adquirir a fazenda São Bernardo, em Viçosa, Estado de Alagoas, onde fora empregado.

Fingindo-se amigo de Luís Padilha, o dono da fazenda, emprestando dinheiro e dando propositalmente maus conselhos, ele logo torna-se o novo proprietário. Isso, no entanto, não lhe basta. Com pequenas e grandes violências e trapaças, consegue reunir uma equipe de comparsas que o ajuda a conquistar o que deseja. São estabelecidos elos entre o capanga Casimiro Lopes, o jornalista Gondim, o Padre Silvestre e políticos locais para atingir a riqueza.

Oposição de visões de mundo

Ao alcançar o poder almejado, vem a necessidade de ter um filho, que será o herdeiro de seus bens. Essa é a principal razão para o casamento com Madalena, professora da vila. Intelectual e com um pensamento de esquerda, ela ajuda os empregados no que pode e ainda tenta melhorar a escola, onde o ex-proprietário da fazenda, Luis Padilha, é agora dono.

A oposição de visões de mundo e de temperamento evidencia-se gradativamente. Ele se impõe pela violência e pelas ordens autoritárias; ela tenta ser suave e solidária com os funcionários e coerente com seu ideal de educação. Paulo Honório vai perdendo o controle da situação e o ato de duvidar da fidelidade dela pode ser considerado apenas o resultado de sua própria insegurança.

A espiral de decadência se instaura. Madalena não encontra meios de combater a agressividade e o desejo de posse do marido. Cada vez mais triste e fraca, praticamente ignora o filho que tem com o dono de São Bernardo, e acaba por cometer suicídio. O marido sente o baque e começa a duvidar da própria possibilidade de reação perante o mundo.

Derrocada econômica e emocional

O marco econômico da derrocada, paralelo ao emocional da perda da esposa, é a Revolução de 1930, em que a indústria surge como alternativa ao trabalho agrícola. Sozinho, sem alguns de seus asseclas, Paulo mergulha em profunda solidão.

Longe das pessoas, sem nenhum envolvimento com o filho de três anos, e cada vez com menos bens materiais, consumidos pela crise em que afundara, ele busca ajustar as contas com si mesmo. A forma escolhida é a redação de um romance.

A obra, por um lado, pode ser vista como regionalista, pela maneira como realiza uma crítica à vida agreste do sertão; por outro, há nela uma autêntica aula de escrita ao conseguir mostrar como Paulo Honório vai se "humanizando" pelo próprio ato de construir seu romance, refletindo sobre os erros que cometeu em sua busca desmedida pelo poder.

*Oscar D'Ambrosio, jornalista, mestre em artes pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp), é crítico de arte e integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica - Seção Brasil).
Os textos publicados antes de 1º de janeiro de 2009 não seguem o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. A grafia vigente até então e a da reforma ortográfica serão aceitas até 2012

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