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Reforma Ortográfica

Acordo não invalida dicionário, dizem acadêmicos lusos

O acordo ortográfico não afeta a validade dos grandes dicionários da língua portuguesa e o processo de adaptação deve ser encarado com naturalidade, defendem membros da Academia das Ciências de Lisboa.

João Malaca Casteleiro, que coordenou o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, editado em 2001, após cerca de 13 anos de trabalho, afirmou à Agência Lusa que a obra, composta por dois volumes, continua válida.

"O Dicionário Língua Portuguesa Contemporânea continua perfeitamente válido e, mesmo sem a atualização ortográfica, continua a prestar um enorme serviço, porque contém não apenas informação semântica sobres palavras mas também sobre a gramática das palavras e ainda citações de autores de língua portuguesa - portugueses, brasileiros, africanos - pelo que é um dicionário muito rico do ponto de vista lexicográfico", declarou.

Escrito segundo a ortografia de 1945 com os ajustes de 1973, a obra continua sendo uma "referência da língua portuguesa contemporânea e do português em geral", ressaltou Malaca Casteleiro, acrescentando que "a revisão de um dicionário daquela dimensão e com aquela projeção deve ser feita aos dez anos".

Como foi publicado em 2001, "ainda falta algum tempo" e nem mesmo faz sentido "fazer uma nova edição só para atualizar a ortografia", disse Malaca Casteleiro, que integra a seção de Estudos Literários e Linguísticos da Classe de Letras da Academia das Ciências de Lisboa.

Professor e pesquisador, o acadêmico chegou a trabalhar com a sua equipe em uma segunda edição do dicionário, atualmente com os trabalhos suspensos. A adaptação à ortografia do novo acordo vai implicar apenas "pequenas alterações, que se conseguem fazer com um corretor ortográfico".

"Há uma diferença entre grandes dicionários da língua e dicionários escolares. Estes últimos têm um tempo de vida mais curto e necessitam de uma atualização mais regular, enquanto os dicionários de referência, como o da Academia, têm um tempo de vida mais longo", explicou.

Alterações

Artur Anselmo, presidente do Instituto de Lexicologia e Lexicografia da Língua Portuguesa da Academia das Ciências, disse estar tranquilo com as alterações impostas pelo acordo, pois os países dispõem de seis anos para a adaptação.

"Lendo o acordo ortográfico, não vejo nada que seja grave, que obrigue a grandes alterações, e há tempo para fazer as que são necessárias", além de que "os problemas de atualização são ínfimos" e "qualquer programa de computador pode prever as variantes ortográficas dos vários lexemas", declarou.

Será sempre preciso "apresentar as variantes de pronúncia que determinam variantes ortográficas, mas isso qualquer dicionarista faz e faz bem, podendo até indicá-las através de uma localização geográfica entre parênteses", declarou.

Até mesmo as duplas grafias, "que até podiam ser triplas, se entrássemos em consideração com as áreas dialetais portuguesas", são um problema de menor importância, disse Anselmo.

"A língua é um corpo vivo e, como todos os corpos vivos, evolui no sentido em que os falantes entendem que deve evoluir", ressaltou, acrescentando que às vezes até evolui a partir de erros que se repetem e generalizam.

"Não devíamos dizer 'estrela' mas 'estela', pois em latim é 'stella'. De onde vem aquele 'r'? Segundo os linguistas, o que aconteceu foi uma forma de contaminação de 'astro'.

"É um fenômeno fonético, algo que ocorre em todas as línguas", explicou, apontando outro exemplo. "Também não devíamos dizer 'floresta' mas sim 'foresta', como os franceses dizem 'forêt'", disse.

Segundo o filólogo, não há nisto motivo de preocupação, "pois as línguas evoluírem é sinal de que estão vivas. Só não evoluem as línguas mortas - por isso tanto faz consultar um dicionário de latim publicado hoje como um publicado no século 16 ou 17".

Afirmando que é importante "desdramatizar" a questão, Artur Anselmo afirmou que a Academia vê o acordo ortográfico "com muita naturalidade" e "colaborará com todos os governos no sentido de se encontrar a melhor solução", embora, em matéria linguística, "não existam soluções eternas, duráveis para além de um certo tempo".

Obra

A primeira edição do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea teve financiamento da Fundação Calouste Gulbenkian e a participação de professores cujos vencimentos estavam a cargo do Ministério da Educação.

Além da definição e explicação das palavras, a obra refere a sua etimologia, a transcrição fonética, apresenta exemplos da palavra em vários contextos que espelham as suas múltiplas utilizações (textos literários, científicos etc), indicando sinônimos puros ou aproximados.

A obra inclui brasileirismos, africanismos e asiaticismos, assumindo os estrangeirismos de uso corrente (copyright, franchising, know-how, leasing, marketing, takeaway) e procurando normalizar outros (como ateliê, croissã, lóbi, estresse).

Os dois volumes acolhem cerca de 270 mil vocábulos, 70 mil entradas lexicais, 170 mil acepções, mais de 100 mil sinônimos e antónimos e mais de 33 mil abonações de autores de língua portuguesa de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste e recolhidas na imprensa.

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