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13/05/2008 - 13h23

Faculdade leva umbanda para sala de aula

Da Redação
Em São Paulo
De segunda a sexta-feira, por volta das 19h30, eles atravessam o pátio arborizado em direção ao templo. Bolsas, livros e sapatos enfileirados esperam do lado de fora, enquanto reverenciam o altar com flores, velas e oferendas aos guias espirituais. O ritual diário, para equilibrar energias positivas e negativas, antecede as aulas na FTU (Faculdade de Teologia Umbandista), na zona sul de São Paulo.

Autorizada em 2003 pelo então ministro da Educação, Cristovam Buarque, a instituição é a primeira no país que leva a umbanda, religião afro-brasileira para os bancos universitários. E são destes bancos que, no final do ano passado, saíram os primeiros 35 teólogos umbandistas diplomados do Brasil.

Renato Stockler/Na Lata/UOL
No início da aula, alunos fazem saudações em frente ao altar dos templos da faculdade
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QUIZ: UMBANDA
Os canudos desta turma, que iniciou a graduação em 2004, serão entregues em novembro deste ano. A princípio, a colação de grau poderia ser já no primeiro semestre. A prorrogação da festa em longo prazo tem motivo: coincidir com a comemoração do centenário da umbanda em terras brasileiras, marcada para o dia 15 daquele mês. Novembro marca ainda outra efeméride importante, o Dia da Consciência Negra.

Além destes já bacharéis em teologia umbandista, outros 150 estudantes também querem se especializar na umbanda, doutrina que mescla crenças e rituais africanos, indígenas e europeus. Eles freqüentam as aulas -- ministradas somente no período noturno -- de filosofia, inglês, metodologia científica, ciências políticas, antropologia, entre outras.

"São disciplinas convencionais de um curso superior, com a diferença de terem um viés espiritual", explica a professora Maria Elise G. B. M. Rivas, que também atende pelo nome iniciático de sacerdotisa Aramaracyê.

No último ano da graduação -- são quatro anos, no total --, a grade curricular se afunila em matérias mais específicas, como hermenêutica (interpretação de livros sagrados), botânica umbandista, medicina espiritual e administração templária. Além disso, os alunos têm duas aulas práticas quinzenais que envolvem ritos e liturgia.

Preconceito no terreiro
Apesar dos ritos, que são abertos ao público e chegam a reunir 400 pessoas por sessão, a faculdade não ensina os estudantes a incorporar espíritos. "Isso não se aprende, é destino cármico. Nosso objetivo não é formar pais-de-santo, mas pessoas capazes de promover a religião da forma correta e acabar com o preconceito cultural que existe em torno da umbanda", diz Aramaracyê.

ENTENDA AS DIFERENÇAS
Umbanda: religião brasileira de miscigenação, estruturada em três princípios - fraternidade, caridade e respeito ao próximo. Mescla práticas do candomblé, do catolicismo e do espiritismo.
Candomblé: religião importada da África e estabelecida no Brasil no início do século 19. Faz culto dos orixás e tem como base a alma da natureza.
Macumba: antigo instrumento musical de percussão. Popularmente, o termo é usado pejorativamente para designar genericamente os cultos afro-brasileiros.
Segundo ela, a legitimidade da faculdade é um grande passo para colocar o credo afro-brasileiro no centro das atenções. "Falta conhecimento sobre o que é a umbanda, porque a religião passou por um processo de demonização. É tida como uma cultura de periferia e é até mesmo estigmatizada como idolatria pagã, confundida com coisas do mal. É essa imagem negativa que queremos quebrar".

A fé na educação e o empenho em divulgar a crença são evidentes: todos os 18 professores da instituição, que já têm uma graduação em algum curso convencional (há desde pedagogos a médicos e advogados), são voluntários e não recebem salário para estar em sala de aula.

Além disso, 60% dos alunos têm uma bolsa que ajuda a pagar a mensalidade de R$ 350. O sistema que seleciona bolsistas é interno, feito através de uma análise pessoal da renda familiar. "Ainda não podemos contar com programas do governo, como o ProUni (Programa Universidade Para Todos), porque a FTU ainda não formou efetivamente sua primeira turma", explica Aramaracyê.

Uma das ações incentivadas pela faculdade é a adoção de aluno. "Uma pessoa voluntária, de qualquer lugar ou credo, escolhe um aluno para pagar a mensalidade e proporcionar à ele a continuação dos estudos. Por enquanto, só temos um estudante nessa condição, mas queremos ampliar essa prática", diz a professora.

A meta dos dirigentes da FTU é tornar público o ensino da umbanda. "Estamos buscando isso, mas é um plano a longo prazo, que precisa ser processado junto ao MEC (Ministério da Educação). Ainda vai levar um tempo porque estamos só começando".
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