Grupos sanguíneos: Conheça a determinação genética dos grupos do sistema ABO

Maria Graciete Carramate Lopes

Chamamos de alelos às versões diferentes de genes que surgem através de mutações. Para algumas características, podem existir, numa determinada população, três ou quatro versões de um gene, fenômeno para o qual damos o nome de alelos múltiplos. É bom lembrar que, mesmo existindo três ou quatro alelos na população (para uma determinada característica), cada indivíduo possui em suas células apenas um par de genes alelos localizados em regiões correspondentes de seus cromossomos homólogos.

Um exemplo de alelos múltiplos são os genes envolvidos na determinação dos grupos sanguíneos do sistema ABO nos seres humanos. Os tipos sanguíneos do sistema ABO relacionam-se a características do sangue que envolvem a presença ou ausência de dois tipos de substâncias: uma delas localiza-se nas hemácias e é chamada de aglutinogênio e a outra localiza-se no plasma sanguíneo e é chamada de aglutinina.

Existem dois tipos de aglutinogênios ? A e B ? e dois tipos de aglutininas ? anti-A e anti-B. Assim, para o sistema ABO, dizemos que uma pessoa possui sangue tipo A, se ela possui, em suas hemácias, aglutinogênios A, e, no plasma, aglutininas anti-B. Observe os outros casos na tabela:
 

Tipo sanguíneo
Aglutinogênios (nas hemácias)
Aglutininas (no plasma)
A
A
anti-B
B
B
anti-A
AB
A e B
nenhum
O
Nenhum
anti-A e anti-B
  • Esquema representando presença ou ausência dos dois tipos de aglutinogênios na membrana de hemácias humanas.

Determinação genética dos tipos sanguíneos do sistema ABO

A presença ou ausência de aglutinogênios no sangue das pessoas é determinada pelos genes IA, IB ou i. Os genes IA e IB são dominantes sobre o gene i. O gene IA, por exemplo, determina a produção de uma enzima que sintetiza o aglutinogênio A. Portanto, se uma pessoa possui o genótipo IA IA e uma outra pessoa apresenta o genótipo IA i, as hemácias de ambas apresentam o aglutinogênio A, ou seja, elas apresentam tipo sanguíneo A.

Algo semelhante ocorre no caso de pessoas de tipo sanguíneo B. Mas as pessoas de tipo AB possuem genótipo IA IB, pois não há dominância entre esses dois genes. Essas pessoas são capazes de sintetizar tanto o aglutinogênio A como o B. Por fim, uma pessoa do tipo O possui genótipo ii, ou seja, não possui as enzimas necessárias para a fabricação de nenhum dos dois aglutinogênios. Resumindo:
 

Genótipos
Fenótipos
IA IA ou IA i
A
IB IB ou IB i
B
IA IB
AB
ii
O

A importância dos tipos sanguíneos - as transfusões

A descoberta do médico austríaco Karl Landsteiner, em 1900, de que havia incompatibilidade entre o sangue de certas pessoas, abriu caminho para a identificação de vários tipos sanguíneos, entre eles os do sistema ABO. Embora não seja o único sistema de grupos sanguíneos, este é o de maior importância prática nos momentos de transfusão.

O que acontece se uma pessoa de sangue tipo A, receber sangue do tipo B? Uma vez que, no plasma do receptor, existem aglutininas anti-B, essas substâncias agem como anticorpos contra os aglutinogênios B existentes nas hemácias do doador, provocando o rompimento dessas hemácias e uma reação conhecida como reação de aglutinação. Note que a mesma reação vai ocorrer se a pessoa do tipo A recebe sangue de uma pessoa do tipo AB.
 

  • Esquema representando as possíveis transfusões sanguíneas, considerando-se o sistema ABO.

As pessoas de tipo AB não possuem nenhuma das aglutininas do sistema ABO e isso significa que elas podem receber, por transfusão, sangue de qualquer tipo. Essas pessoas são chamadas de receptores universais e os portadores de sangue tipo O são doadores universais. Isso significa que eles podem doar sangue para qualquer pessoa, uma vez que suas hemácias não possuem aglutinogênios. Mesmo que o receptor possua aglutininas, estas não terão nenhuma substância contra a qual reagir.

O Fator Rh

O sistema ABO não é o único a ser considerado, quando se fala em transfusão de sangue. Existe outro aspecto importante que deve ser levado em conta: o fator Rh, ou fator Rhesus. Essa característica sanguínea foi descoberta em 1940 por dois pesquisadores chamados Landsteiner e Wiener, que realizaram transfusões de sangue experimentais em macacos rhesus.

Basicamente, o Rh positivo ocorre quando o indivíduo apresenta um determinado antígeno na superfície de suas hemácias. Já pessoas que não possuem essa característica em suas células sanguíneas são do tipo Rh negativo. Ao contrário do sistema ABO, no sistema Rh, as aglutininas não ocorrem de maneira espontânea. Isso significa que praticamente todas as pessoas nascem sem aglutininas anti-Rh.

Para que alguém apresente anticorpos anti-Rh, é preciso que esse indivíduo seja exposto ao antígeno Rh. Isso pode ocorrer tanto por transfusão de sangue, como em condições de gravidez, em que o fator Rh seja negativo na mãe, e positivo no feto. Nesses casos, desenvolvem-se aglutininas anti-Rh e tanto a pessoa que recebeu a transfusão, como a que está grávida ficam sensibilizados.

O problema, em ambas as situações está no segundo contato com sangue de Rh positivo. No caso de outra transfusão sanguínea, nas mesmas condições, o sangue do receptor pode sofrer aglutinação ou suas hemácias podem se romper (hemólise). Já em relação à gravidez, se novamente a mulher estiver gerando um bebê de Rh positivo, as aglutininas anti-Rh da mãe podem atravessar a placenta, causando a aglutinação dos eritrócitos do feto — doença conhecida como eritroblastose fetal.

Em relação às transfusões de sangue, pessoas portadoras de Rh positivo (Rh+) podem receber doações de mesmo Rh e também de Rh negativo. Já portadores de Rh negativo, só podem receber o seu tipo, caso contrário, haverá o risco de aglutinação sanguínea e hemólise.

Diversidade genética

A complexidade do sistema Rh ultrapassa o fato de ser positivo ou negativo. Atualmente, a ciência admite que existam mais de quarenta tipos diferentes de antígenos Rh. E essas variações genéticas não são completamente explicadas pelos cientistas, mas existem duas teorias que tentam esclarecer essa diversidade: a teoria de Fischer-Race, que é a mais aceita e a de Wiener.

De acordo com a primeira, os genótipos do fator Rh são representados por três pares das letras C, D e E, os quais são chamados de alelos. As variações genotípicas ocorrem desde pares dominantes homozigotos (CC,DD,EE), pares heterozigotos (C_, D_, E_), até pares recessivos (cc, dd, ee), sendo que cada um desses genótipos corresponde a um tipo diferente de antígeno Rh. Já a teoria de Wierner afirma, de modo geral, que para cada par de alelos há um antígeno.

Mesmo assim, existem ainda situações relacionadas ao fator Rh que nenhuma dessas teorias explica, como a síndrome do Rh Null. Nessa doença, o indivíduo não apresenta antígenos do sistema Rh e isso está associado a uma anemia hemolítica. Essas “lacunas” quanto aos genótipos do fator Rh são o foco de inúmeras pesquisas, que a imuno-hematologia tenta esclarecer.

Maria Graciete Carramate Lopes é licenciada pelo Instituto de Biociências da USP e professora de ciências da Escola Lourenço Castanho (SP).



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