Tubarão-branco: Conheça esse magnífico predador oceânico

Assunto: Biologia, Zoologia, Peixes

Mariana Aprile

O tubarão-branco, também chamado de grande branco, tem a fama de ser o mais feroz e agressivo de todos os tubarões, característico por atacar quem encontra pela frente e acompanhar navios oceanos afora, o que o tornaria um flagelo nos naufrágios.

Qualquer semelhança com o tubarão aterrorizante do filme de Steven Spielberg não é mera coincidência: durante muitos anos, tudo o que se soube a respeito desse peixe gigantesco e seus apetites veio das telas do cinema.

Mas o tubarão-branco não é o campeão de agressividade, título conferido pela natureza ao seu primo tubarão cabeça-chata. E quem acompanha navios é o tubarão azul: ele e o galha branca, que também nada em alto-mar, são o terror dos náufragos.

Tubarão branco é máquina de caçar

A natureza equipou o grande tubarão-branco tornando-o um excelente caçador. Tanto que o único animal marinho capaz de competir com ele por alimento é a orca - ou um outro tubarão-branco maior do que o primeiro.

O tubarão-branco (Charcharodon carcharias), da mesma família do mako e do marracho, é um "bebê" na linha da evolução de sua espécie: só apareceu há cerca de 60 milhões de anos e quase não se alterou de lá para cá, a não ser no tamanho: seus 15 a 20 metros de comprimento ficaram reduzidos a, no máximo, sete.

O tubarão-branco é ágil, apesar de todo o seu tamanho. A maioria atinge de cinco a seis metros de comprimento com peso médio de duas toneladas - podendo chegar a 3,4 toneladas. O motivo de sua destreza está no esqueleto sem ossos, formado por cartilagens e fortalecido por depósitos de cálcio, o que o torna mais leve.

Os três mil dentes do tubarão-branco

Além da silhueta impressionante, o que mais apavora as pessoas são os três mil dentes triangulares, serrilhados e muito afiados, de 7,5 centímetros de altura, inseridos nas maxilas em fileiras um pouco inclinadas para dentro. Esse conjunto formidável pode exercer a força de três toneladas por centímetro quadrado numa mordida.

Seu corpo robusto é hidrodinâmico e capaz de nadar a 25 quilômetros por hora. O dorso é marrom-acinzentado, cinza ou cinza-azulado, e a barriga é branca, em geral com uma mancha escura ao redor da axila da nadadeira peitoral. A nadadeira dorsal costuma ser mais escura. Essa disposição de cores, oferece uma camuflagem muito eficiente, de forma que animais que nadam acima do grande branco, não enxergam sua aproximação.

Olhos de lince

Até pouco tempo, acreditava-se que o grande branco enxergava mal. Na verdade, seus olhos têm uma membrana que atua como tela refletora e aumenta a sensibilidade visual. Ele vê no escuro melhor que um gato. Além disso, é o único tubarão que põe a cara fora da água para enxergar: ele é capaz de ver - bem - tanto dentro quanto fora d'água.

Mas não é só a visão que faz do grande branco uma máquina de localizar presas. A capacidade de detectar minúsculos campos elétricos gerados por outros animais permite ao tubarão perceber as vibrações de um campo elétrico até 20 mil vezes menores que um volt, o equivalente à batida do coração de um peixe. O olfato também é muito apurado: pode detectar traços de sangue na água a distâncias superiores a três quilômetros.

Oofagia

Ao contrário de outras espécies, entre os tubarões-brancos não existe embriofagia, o canibalismo intra-uterino. Os embriões - em geral dois por gestação - alimentam-se de óvulos não fecundados, produzidos pela mãe para esse fim, num processo conhecido por oofagia. Cada filhote nasce com cerca de 1,5 metro de comprimento. Não se sabe ao certo o tempo de gestação, mas acredita-se que seja superior a um ano.

O tubarão-branco possui um mecanismo de reciclagem de calor, graças ao qual consegue manter a temperatura de seu corpo de 7 a 12 graus centígrados mais elevada que a da água. "Os outros tubarões dependem da temperatura externa para se aquecerem e se tornarem ativos, por isso precisam viver nas águas tropicais quentes", diz Marcelo Szpilman, diretor do Instituto Aqualung, no Rio de Janeiro, e autor do livro "Tubarões no Brasil".

Águas frias

O grande branco, além do mako e do marracho, é o único tubarão que vive em águas frias. Por isso, ele é um voraz devorador de focas e elefantes marinhos no chamado triângulo vermelho, uma faixa de 160 quilômetros da costa da Califórnia, ao sul de São Francisco, nos Estados Unidos. Ali é o lar de inverno de tubarões-brancos e também a área onde suas presas prediletas vão se reproduzir.

Além das águas frias da costa oeste norte-americana, eles podem ser encontrados no litoral Sul da Argentina, na Austrália, no Brasil e até no Mar Mediterrâneo. Segundo Otto Gadig, especialista em tubarões e professor de biologia marinha na Universidade de Santa Cecília, em Santos, no litoral paulista, as aparições do tubarão-branco, também chamado anequim no Brasil, podem ser tanto em mar aberto como em áreas costeiras.

O ataque do tubarão-branco

Para se aproximar de seu alvo, o tubarão-branco evita áreas arenosas e nada rente ao leito do mar. Pode saltar para fora da água enquanto ataca, por trás ou pelo lado. Dá uma primeira mordida para incapacitar a presa e depois se afasta, esperando que ela sangre até morrer.

Acredita-se que essa primeira bocada seja uma maneira de testar o valor nutritivo da refeição. Nessa "degustação", o branco dá uma mordida capaz de comer um cão de tamanho médio. Se quiser, ele pode engolir o equivalente a mil hambúrgueres de 200 gramas de uma só vez.

A comparação com fast-food, que é rico em gordura, tem tudo a ver com a preferência alimentar desse tubarão. Ele tem predileção por alimentos com alto teor de gordura. Mas, afinal, o que o tubarão-branco come? Peixes, aves, tartarugas, focas, elefantes e leões marinhos, golfinhos, baleias mortas ou doentes, baleotes e tubarões menores que ele.

Humanos indigestos

Como ele gasta uma enorme quantidade de calorias durante os ataques, sua presa deve lhe dar uma quantidade maior de energia do que a utilizada para devorá-la. É por isso que o ser humano, mais magrinho e musculoso que as focas, não faz parte de seu cardápio habitual - mesmo quando a presa é uma baleia, o tubarão branco come apenas a gordura, deixando os músculos.

No caso de ataque a humanos, após a primeira mordida, o gigante costuma perceber seu erro e não volta para o ataque final: 90% dos casos ocorrem por erro de identificação ou invasão de território O problema é que, como já se sabe, apenas uma mordida faz um estrago razoável.

Risco de ser atacado pelo tubarão-branco

Ninguém precisa - nem deve - achar que o tubarão-branco é um "poodle-toy". Mas os tempos mudaram e cada vez mais gente toma consciência de que ele não é "o diabo com dentes", como já foi chamado. Segundo o Registro Internacional de Ataques de Tubarões, nos últimos 100 anos houve 74 ataques de brancos contra humanos, um número baixo se levarmos em conta os milhões de pessoas que entraram no mar nesse período.

Para o biólogo Marcelo Spilzman, é mais perigosa a viagem até a praia do que nadar: registram-se muito mais acidentes no percurso. "Na Austrália, reino do tubarão-branco, morrem mais pessoas por curtos-circuitos, incêndios e contusões causadas por pacatas árvores de natal do que atacadas pelo bicho", garante. Mais: sentar embaixo de um coqueiro, nos Estados Unidos, é muito mais letal. cocos na cabeça matam 150 pessoas por ano naquele país. "No entanto, ninguém tem medo de coco", diz Szpilman.

Mudança de opinião

Mais de quarenta anos depois de ser violentamente atacado por um tubarão-branco, o mergulhador Rodney Fox é seu maior defensor. Mas antes de superar o trauma e aprender que não é nada inteligente mergulhar com focas (exatamente o que ele fazia ao ser atacado), Rodney realizou vários filmes mostrando o branco como um assassino implacável.

Neles, inúmeras técnicas cinematográficas foram utilizadas para que o tubarão fosse visto como um monstro. Uma delas foi colocar um anão dentro da jaula submersa para o tubarão parecer bem maior. Fox participou, inclusive, de "Tubarão", de Spielberg, dando dicas sobre o animal e os locais onde ele vive.

Para compensar a imagem que ajudou a criar, atualmente Fox estuda o grande branco e luta por sua preservação. "Esse animal é um maravilhoso predador natural. Tubarões-brancos não são vilões, mas vítimas em sério declínio populacional", declara o mergulhador. Ele não é o único a rever conceitos. Peter Benchley, autor do livro que inspirou "Tubarão", mudou de idéia depois de ter acesso às pesquisas recentes de biólogos que estudam o peixe. "Hoje não escreveria mais aquele livro", reconhece.

Pela saúde dos oceanos

Apesar de seu tamanho, força e ferocidade, o tubarão-branco está ameaçado, graças à pesca de competição ou comercial. Em 2004, uma das mais importantes organizações ambientalistas do mundo colocou o peixe gigante no livro vermelho de espécies em risco de extinção.

"Como predadores situados no topo da cadeia alimentar, o equivalente oceânico dos leões africanos e tigres asiáticos, os tubarões-brancos asseguram um tipo de ordem nos oceanos", diz Szpilman. Sua função é manter o controle populacional de suas presas habituais, além de atuar na seleção natural ao caçar os mais lentos e os mais fracos.

"Ao comerem os animais e peixes doentes, feridos ou mortos, os tubarões exercem também uma função importante na manutenção da saúde dos oceanos, num papel semelhante ao dos urubus na terra", acrescenta. A extinção desses tubarões - algo mais próximo da realidade do que se pensa -- vai provocar uma forte alteração na complicada teia alimentar dos mares e o conseqüente desequilíbrio do ecossistema marinho.

Um mundo sem tubarões-brancos

Um exemplo hipotético ilustra muito bem a influência que pode ter a perda de um elo da cadeia alimentar. A extinção do tubarão-branco levaria a um descontrole populacional de focas e leões-marinhos, suas presas favoritas. O aumento das populações de focas e leões-marinhos elevaria enormemente o consumo de peixes.

Com estoques menores de peixes, não só as populações humanas sofreriam, inclusive economicamente, como também a reação em cadeia poderia chegar às algas planctônicas, maiores produtores de oxigênio do planeta, e os desequilíbrios decorrentes seriam catastróficos.

Um caso real ocorreu na Austrália, no final da década de 1980. A pesca excessiva de algumas espécies de tubarão provocou uma rápida explosão na população de polvos, um dos alimentos preferidos desses predadores. O resultado foi uma séria crise na indústria da pesca da lagosta, pois o crustáceo passou a ser devorado pelos polvos em quantidades bem acima da habitual.

Salvando o tubarão do homem

No entanto, a caça ao maior predador marinho continua. Um estudo feito no Canadá mostrou que a quantidade de tubarões-brancos encolheu 79% nos últimos quinze anos.

Por isso, o tubarão-branco foi declarado como espécie protegida. O governo sul-africano foi o primeiro a determinar isso, em abril de 1991, seguido pela aprovação de leis protecionistas na Califórnia, em 1994, e do governo australiano, três anos depois.

Essas leis consideram crime a sua pesca e também instalaram programas de reprodução - embora hoje se saiba que esse animal não se reproduz em cativeiro. As estimativas são de que atualmente dez mil tubarões-brancos adultos sobrevivam no planeta - e 500 sejam exterminados a cada ano.

 

 

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Mariana Aprile é estudante de biologia na Universidade Mackenzie e bolsista do CNPq.



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