2ª Guerra Mundial (2): As alianças e o fim da Segunda Guerra

Da Página 3 Pedagogia & Comunicação

A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) não se limitou à Europa. Os combate na frente do oceano Pacífico envolveram basicamente os países anglo-saxônicos e o Japão. Nesta entrevista, o historiador e escritor Túlio Vilela vai apresentar uma visão geral do episódio, com respostas para algumas das perguntas mais comuns sobre o assunto.
 

Por que o Japão era aliado da Alemanha nazista?

Porque, devido às circunstâncias, ambos tinham inimigos comuns naquele momento. Do ponto de vista do Eixo, a aliança entre Japão e Alemanha tinha a vantagem de obrigar os Estados Unidos a dividirem suas forças. Hitler sabia que se os Estados Unidos entrassem em guerra contra a Alemanha, eles também estariam muito ocupados lutando contra o Japão. Por exemplo, no início, os japoneses tiveram a vantagem de enfrentar as forças norte-americanas divididas (pois parte delas estava lutando na Europa). Após a rendição alemã, essa vantagem desapareceu porque os Estados Unidos puderam concentrar seus contingentes no Pacífico. A aliança entre a Alemanha nazista e o Japão foi formalizada em dois tratados, o Pacto Anti-Comintern (Anti-Internacional Comunista), assinado em novembro de 1936, e o Pacto Tripartite, assinado em setembro de 1941 e que também contou com a participação da Itália fascista.
 

Então, as alianças eram circunstanciais, ou seja, ligadas à conjuntura política de então?

Na verdade, se analisarmos as alianças feitas durante a Segunda Guerra, perceberemos que muitas delas foram mais alianças casuais do que alianças naturais. A Alemanha tinha como aliados na Segunda Guerra, dois países que lutaram contra ela na Primeira Guerra, a Itália e o Japão. A Inglaterra e os Estados Unidos, que eram ao mesmo tempo duas democracias representativas e duas potências capitalistas tiveram como aliada a União Soviética, uma ditadura totalitária (o regime stalinista imposto por Stalin era quase ou tão violento quanto o regime nazista imposto por Hitler) que pregava o discurso socialista, totalmente contrário ao capitalismo.

Existe algum outro aspecto interessante no âmbito dos acordos internacionais?
No caso da Segunda Guerra, encontramos exemplos de acordos que foram quebrados. Em agosto de 1939, por exemplo, a União Soviética e a Alemanha nazista assinaram o Pacto de não-agressão, ou seja, as duas potências assumiram o compromisso de não entrarem em guerra uma contra a outra. No entanto, Hitler quebrou esse acordo quando atacou a União Soviética em junho de 1941. Por outro lado, vale lembrar que a Polônia foi vítima tanto da Alemanha nazista quanto da União Soviética: no dia 17 de setembro, poucos dias depois de a Alemanha nazista ter atacado a Polônia, os soviéticos invadiram e ocuparam a parte oriental da Polônia. Ou seja, a população polonesa foi vítima tanto da ditadura de Hitler quanto da ditadura de Stalin.
 

Mas, afinal, não havia semelhanças entre os regimes políticos que vigoravam na Alemanha e no Japão naquele período?

A Alemanha nazista e o Japão daquela época tinham algumas semelhanças entre si: o militarismo, o fato de que ambos eram ditaduras nacionalistas, o expansionismo e o desprezo pelos povos que consideravam inferiores. Ao mesmo tempo em que Hitler pregava que os alemães eram uma "raça superior" e que os poloneses, por exemplo, deveriam ser escravizados porque seriam, na visão dele, "preguiçosos", os líderes militares japoneses obrigaram civis chineses e coreanos a executarem trabalho escravo. Enquanto na Europa os carrascos nazistas usaram os judeus como cobaias de bizarras experiências médicas nos campos de extermínio nazistas, médicos japoneses usaram civis chineses para testar armas biológicas. A diferença é que, depois que a guerra acabou, enquanto alguns carrascos nazistas foram julgados e condenados por "crimes contra a humanidade" no Tribunal de Nurembergue, todos os médicos japoneses que participaram dessas experiências foram anistiados (perdoados oficialmente) pelos Estados Unidos em troca dos segredos dessas armas biológicas.
 

Todos os países participaram da Segunda Guerra Mundial?

Não, mas todos foram direta ou indiretamente afetados por ela. A guerra afetou o comércio internacional, dificultando a importação de vários produtos em alguns paises e favorecendo a exportação em outros (por exemplo, o Brasil aumentou as exportações de borracha para os Estados Unidos, porque a guerra na Ásia inviabilizou a importação da borracha asiática). Mesmo nas cidades de países que estavam longe dos campos de batalhas, podia se sentir os efeitos da guerra: racionamento de alimentos e combustível. No Brasil, por exemplo, as pessoas enfrentavam filas quilométricas para comprar pão racionado, logo apelidado de "pão de guerra", e os carros eram movidos a carvão vegetal, por causa da falta de gasolina. Imagine na Europa e na Ásia! Afetou o turismo internacional: quem poderia passar umas férias tranquilas numa paradisíaca ilha do Pacífico durante uma batalha entre norte-americanos e japoneses ou visitar o Museu do Louvre com Paris ocupada pelos nazistas?
 

Então, havia países que ficaram neutros em relação ao conflito?

Vários países se mantiveram oficialmente neutros durante a guerra, ou seja, pelo menos oficialmente, não apoiaram nenhum dos dois lados. Entre esses podemos citar Portugal, Espanha e Suíça. Portugal, embora fosse um país neutro, na época governado pelo ditador Salazar, tinha simpatia pelos Aliados, enquanto que a Espanha, na época governada pelo ditador Francisco Franco, embora também neutra, tinha simpatia pelo Eixo (Franco chegou a enviar um grupo de voluntários espanhóis, conhecido como a Brigada Azul, para lutar ao lado dos alemães contra os soviéticos).
 

É verdade que o Brasil entrou na guerra por causa da dívida externa?

Não. O Brasil entrou na guerra tanto por causa das pressões diplomáticas dos Estados Unidos, que temiam a presença, no próprio "quintal", de um possível aliado do Eixo (a ditadura de Vargas guardava semelhanças com as ditaduras fascistas da Europa, o que gerava desconfiança), quanto por causa das passeatas organizadas pela UNE (União Nacional dos Estudantes) em várias capitais brasileiras que exigiam que o governo brasileiro declarasse guerra à Alemanha, após vários navios mercantes brasileiros terem sido afundados por submarinos alemães. Esses afundamentos custaram a vida de centenas de pessoas.
 

Por que os Estados Unidos lançaram duas bombas atômicas contra o Japão?

Talvez a melhor resposta seja porque eles tinham essas bombas e eram, na época, o único país que tinha armas atômicas, portanto, não havia possibilidade de retaliação, isto é, de o inimigo também usar armas atômicas. Tudo começou quando Albert Einstein, o físico que elaborou a Teoria da Relatividade enviou uma carta ao presidente norte-americano alertando para a possibilidade de a Alemanha nazista desenvolver uma bomba atômica. Assim, o governo norte-americano iniciou o chamado Projeto Manhatan, o projeto secreto que culminou na construção das primeiras bombas atômicas e do qual participaram físicos judeus que para fugir do nazismo refugiaram-se nos Estados Unidos.

 

Mas a Alemanha, efetivamente, poderia ter criado a bomba atômica?

A Alemanha também desenvolveu o seu projeto de construir uma bomba atômica, objetivo que não conseguiu realizar. Há quem acredite que o projeto da bomba atômica alemã tenha sido sabotado por um dos envolvidos no projeto, o físico Werner Heisenberg. Quanto ao Projeto Manhatan, inicialmente, a bomba atômica seria utilizada contra a Alemanha, mas como essa se rendeu em maio de 1945, decidiu-se que a nova arma seria usada contra o Japão. Alguns autores contestam essa tese, alegando que os Estados Unidos jamais usariam a bomba atômica contra a Alemanha porque os alemães eram um "povo branco e cristão" e que, portanto, a decisão de usar as bombas contra o Japão teria sido puramente racista.
 

O que os americanos dizem sobre isso?

A justificativa oficial apresentada pelos Estados Unidos é que uma invasão ao Japão teria custado um número de vidas muito maior para ambos os lados e que, sem as bombas, a guerra poderia ter durado pelo menos mais um ano (hoje, vários historiadores acreditam que sem as bombas a guerra teria durado mais três meses). O assunto é polêmico e divide opiniões. Vários autores alegam que o uso das bombas atômicas foi totalmente desnecessário, pois o Japão estava praticamente derrotado. Outros defendem que apenas a combinação das duas bombas atômicas e da invasão da Manchúria pelos soviéticos (a União Soviética declarou guerra ao Japão, dois dias depois de a primeira bomba atômica ser lançada sobre Hiroshima) é que levaram as autoridades japonesas à rendição.
 

Há mais explicações para o assunto?

Outra explicação é que as bombas atômicas foram usadas pelos Estados Unidos como um aviso para a União Soviética. Segundo esta visão, as bombas atômicas não marcaram o fim da Segunda Guerra, mas o início da Guerra Fria.
 



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