Bantos: Quatrocentos grupos étnicos falam línguas bantas atualmente

Érica Turci

Ao contrário do que muita gente acredita, os bantos não são um povo, nem sequer são uma etnia. Banto é um tronco linguístico, ou seja, é uma língua que deu origem a diversas outras línguas africanas. Hoje são mais de 400 grupos étnicos que falam línguas bantas, todos eles ao sul da linha do Equador.

Essas línguas possuem características comuns, como usar a palavra bantu (plural) para designar "pessoas", "seres humanos" (o singular é muntu). Mas, fora a semelhança na linguagem, os diversos povos não possuem nada em comum: nem religiosidade, nem traços físicos, nem formas de organização social ou política.

Os estudiosos da linguagem acreditam que a língua banta se originou na região onde hoje ficam a República de Camarões e a Nigéria, na África Ocidental. Por algum motivo que ainda se desconhece, por volta do século 1 d.C., parte da população local iniciou uma expansão ao leste e ao sul, povoando territórios desocupados e, também, fazendo guerras, expulsando, se misturando aos povos que encontravam. As várias línguas que existiam nesses territórios foram assimiladas, fundidas, mas mantiveram traços característicos do banto, por isso são consideradas línguas bantas.

Dessa forma, o estudo do banto é um dos mais importantes caminhos para se compreender o processo de formação de muitos dos povos africanos.Para se ter uma ideia, hoje em dia, em uma grande quantidade de países da África fala-se línguas bantas: Camarões, Gabão, Congo, República Democrática do Congo, Uganda, Quênia, Tanzânia, Moçambique, Malauí, Zâmbia, Angola, Namíbia, Botsuana, Zimbábue, Suazilândia, Lesoto, África do Sul. E se formos analisar com mais cuidado, encontraremos também influência do banto em toda a América, já que muitos desses povos africanos foram trazidos para cá como escravos e ajudaram a construir as línguas americanas.

As cidades bantas do litoral oriental africano

Desde a Antiguidade as relações comerciais entre os africanos e os árabes eram intensas. Aproveitando os ventos do Oceano Índico (as monções), que sopravam de leste a oeste em metade do ano e de oeste a leste na outra metade do ano, mercadores árabes chegaram ao litoral africano e ali ajudaram a criar ricos centros mercantis.

No século IX, várias cidades bantas, ligadas aos portos de comércio no litoral do Oceano Índico, prosperaram e muitas delas foram citadas pelos escritores da época (que as comparavam com os mais ricos centros comerciais do mundo), onde era possível comercializar marfim, ouro, pedras preciosas, ferro, couro e escravos.

Apesar de essas cidades terem sido fundadas por povos diferentes (mas de língua banta), os árabes as chamavam de suaílis, ou seja, "planície costeira". Com o passar do tempo, os povos africanos que ali habitavam foram sendo identificados como suaílis e até hoje são assim chamados. Por causa da grande relação social e comercial com os árabes, inclusive com levas de migrantes vindos da Arábia, os suaílis acabaram se convertendo ao islamismo.

Mas não podemos esquecer: os povos chamados hoje de suaílis são povos diferentes que, apesar de iguais na língua banto e na religião islâmica, não têm características físicas nem históricas em comum.

As mais importantes cidades suaílis entre o século IX e XVI foram:

Socotorá: é um arquipélago, próximo à Etiópia, que já era citado em textos gregos como uma região comercial, antes mesmo de os bantos chegarem à região.

Mogadíscio: cidade mercantil tomada pelos árabes em torno do século IX, hoje é capital da Somália.

Quiloa: ilha da Tanzânia, tomada pelos persas no século X.

Zeila: um importante centro de colonização árabe na Somália.

Melinde: cidade fundada pelos suaílis em torno do século XIV no atual Quênia.

Sofala: no século X essa cidade ocupava quase todo litoral do país que hoje conhecemos por Moçambique. Sofala era o entreposto comercial entre o Império Monomotapa e os árabes.

A civilização banto do Zimbábue

Na região entre os rios Zambeze e Limpopo, o povo shona (de língua banto) fundou o Império Monomotapa ou Mwenemutapa, sendo que sua mais importante cidade era a Grande Zimbábue (construída no século XIII), onde hoje encontramos ruínas de imponentes muralhas.

O líder político monomotapa tinha o título de "senhor dos vencidos", e governava a partir da Grande Zimbábue. Os shonas controlavam ricas jazidas de ouro e de sal, além de serem exímios caçadores de elefantes. Por meio de guerras, os shonas submeteram povos vizinhos, dos quais cobravam tributos. Dessa forma o Império Monomotapa tornou-se um poderoso Estado no interior da África e realizava comércio com os árabes através do porto de Sofala.

Os shonas enviavam marfim, ouro, sal e escravos para o litoral e compravam tecidos indianos, porcelana chinesa, vidro da Síria. No século XV, os shonas começaram a sofrer com o aumento populacional, que levava ao esgotamento do solo e à fome, o que ocasionou o declínio dessa civilização. Mas somente no século XIX, com a colonização europeia, é que o Império se desfez em vários pequenos reinos.

O reino banto do Congo

Na região centro-ocidental africana, os bacongos (de língua banto) fundaram, no final do século XIV, um dos mais importantes Estados africanos: o Reino do Congo. Tal reino se estendia por onde hoje estão a República Democrática do Congo, Cabinda, norte de Angola e o Congo. O rei era chamado de Manicongo ("senhor do Congo") e governava a partir da capital, Mbanza Congo, próxima ao rio Congo. O reino era formado por diversas aldeias (organizadas a partir de linhagens matriarcais), que se agrupavam em províncias. Os governantes das províncias eram nomeados pelo manicongo e compunham o conselho do rei.

O reino do Congo não tinha um exército permanente, por isso o rei precisava contar com a colaboração das aldeias no fornecimento de guerreiros para os conflitos com povos vizinhos, que tinham como principais objetivos: a captura de escravos e a cobrança de tributos. Além disso, todas as aldeias tinham que pagar tributo ao manicongo, em troca de proteção.

Em 1482, o navegador português Diogo Cão chegou até o Reino do Congo. O manicongo Nzinga Kuvu selou uma aliança com os portugueses, pois tinha interesse em aprender as tecnologias (militares e navais) portuguesas a fim de ampliar o seu poderia sobre os povos vizinhos. Esse seria o início do declínio do reino, que acabou servindo como um dos maiores fornecedores de escravos para o Império Português, ao mesmo tempo em que não obteve as tecnologias militares de que necessitava.

Érica Turci é historiadora e professora de história formada pela USP.

Bibliografia

  • CAMÕES, Luís Vaz de. Os Lusíadas. Nova Cultural. 2002. SP.
  • GIORDANI, Mário Curtis. História da África anterior aos descobrimentos. Rio de Janeiro: Vozes, 1985.
  • MATTOS, Regiane A. História e cultura afro-brasileira. São Paulo: Contexto, 2007.
  • MUNANGA, Kabengele. Origens africanas do Brasil contemporâneo. São Paulo: Global, 2009.
  • VISSIÈRE, Laurent. O lucrativo tráfico de escravos brancos. In Revista História Viva, Ed. Duetto, nº 80.
  • "Jornal de Angola" - Bantu
  • "Jornal de Angola" - Nganguela

titulo-box Shopping UOL

UOL Cursos Online

Todos os cursos