Batalha de Termópilas: A verdadeira história dos 300 de Esparta

Túlio Vilela

A famosa batalha de Termópilas que serviu de inspiração para a historia em quadrinhos e o filme "Os 300 de Esparta" foi uma das várias travadas entre gregos e persas durante as chamadas Guerras Médicas. A razão desse nome é que os persas eram chamados genericamente pelos gregos de "medos".

Na verdade, os medos eram um dos povos que viviam no Império persa: tanto persas quanto medos viviam a leste da Mesopotâmia, no grande planalto do Irã, os medos fixavam-se no norte desse planalto, enquanto os persas estavam fixados na parte sudeste, próxima ao golfo pérsico (inicialmente, os medos controlavam a região em que viviam, situação que se inverteu quando o persa Ciro tornou-se monarca dos dois povos).

Essa série de conflitos também é conhecida pelos nomes de Guerras Greco-Persas ou Greco-Pérsicas. A principal razão dessas guerras foi o expansionismo persa. Durante a segunda metade do século 6 a.C. e o início do século 5 a.C., os persas conquistaram todo o território da Ásia Menor até o vale do rio Indo e também o Egito. Ao dominarem a Ásia Menor, os persas oprimiram as colônias gregas na região.

Sob o domínio persa

Os povos conquistados pelos persas eram obrigados a pagar impostos pesados, a construir estradas e palácios reais e a fornecer soldados para as tropas do rei persa. Por causa dessa situação, as colônias gregas na Ásia Menor se uniram numa revolta liderada pela cidade de Mileto, que ajuda Atenas. O Império Persa sufocou a revolta, destruiu Mileto e escravizou os habitantes da cidade.

O então rei da Pérsia, Dario 1º, aproveitou a situação para declarar guerra a Atenas e invadir as cidades gregas, dando início à primeira Guerra Médica. Sob a liderança de Milcíades, Atenas saiu vitoriosa da guerra após a batalha de Maratona (490 a.C.).

A segunda Guerra Médica

A derrota enfraqueceu o Império Persa, que só teve condições de enfrentar os gregos novamente em 480 a.C., quando teve início a segunda Guerra Médica. O sucessor de Dario 1º, o rei Xerxes ordenou uma nova invasão à Grécia.

O expansionismo persa era uma ameaça tanto à independência das cidades-Estado gregas quanto um obstáculo aos interesses dos comerciantes gregos na região do mar Egeu. O exército de Xerxes era praticamente uma "legião estrangeira", era formado por soldados de quase todas as nações conquistadas pelo Império Persa: assírios, egípcios, babilônios, colonos gregos que viviam na Ásia Menor e muitos outros.

Podia ser um exército numeroso, mas estava longe de ser um exército motivado. Havia muito ressentimento das nações conquistadas em relação aos seus conquistadores. Conquistar a Grécia interessava a Xerxes, mas não aos soldados estrangeiros que foram obrigados a lutar no exército persa.

As cidades gregas formaram uma aliança e enviaram pequenos contingentes para lutar contra os persas. A cidade grega de Esparta enviou um grupo de trezentos homens liderados pelo rei Leônidas. Esse grupo e contingentes enviados pelas cidades aliadas posicionaram-se na estreita passagem do desfiladeiro das Termópilas, bloqueando o caminho.

Heroica resistência de Leônidas

O número de soldados persas era muitíssimo superior ao número de soldados liderados por Leônidas (mesmo contando os contingentes das cidades aliadas). Percebendo isso, Xerxes enviou mensageiros ao rei Leônidas propondo que os espartanos e seus aliados se rendessem e entregassem as armas. Segundo a tradição, a mensagem de Xerxes foi: "Rende-te e entrega tuas armas!" A resposta de Leônidas teria sido: "Vem buscá-las!"

Um dos mensageiros de Xerxes teria tentado amedrontar os gregos falando da superioridade numérica dos persas. Esse mensageiro teria dito que havia tantos arqueiros e lanceiros no exército persa que quando eles disparassem suas flechas e lanças elas iriam "cobrir o Sol". Comentário que teria recebido a seguinte resposta do rei espartano: "Melhor, combateremos à sombra".

Apesar da inferioridade numérica, os espartanos e seus aliados ofereceram uma dura resistência aos persas. A inferioridade numérica era compensada pela motivação: enquanto espartanos e aliados estavam defendendo suas cidades, lutando contra invasores, os comandantes persas recorriam a chicotes para obrigar suas tropas desmotivadas lutarem. Assim, inicialmente, os gregos estavam conseguindo repelir todos os ataques dos persas.

No entanto, um traidor chamado Efialtes traiu Leônidas e ajudou Xerxes a encontrar um outro caminho no desfiladeiro das Termópilas. Assim, o traidor guiou os persas durante a noite através das montanhas. Desse modo, os persas surpreenderam os espartanos e seus aliados pela retaguarda.

Ao ver seu exército cercado pelo inimigo, Leônidas ordenou que todos os homens sob seu comando, exceto os trezentos guerreiros de Esparta, batessem em retirada. A maioria obedeceu à ordem. Os contingentes formados pelos habitantes das cidades gregas de Téspias e Tebas preferiram permanecer resistindo ao lado dos espartanos. Esses dois contingentes juntos somavam cerca de mil homens. Leônidas e seus homens resistiram corajosamente, mas acabaram mortos na batalha desigual.

Uma vitória cara demais para os persas

Apesar de sair vitorioso da batalha das Termópilas, o exército persa sofreu muitas baixas que o enfraqueceram. A vitória na batalha custou caro para os persas. Com a resistência oferecida por Leônidas e seus homens, os gregos ganharam tempo. Os atenienses puderam abandonar sua cidade antes que os invasores persas chegassem.

As mulheres, idosos, crianças e escravos que viviam em Atenas puderam ser transferidos a tempo para a ilha vizinha de Salamina. Quando chegaram em Atenas, os persas queimaram e destruíram a cidade. Mas acabaram sendo derrotados pelos atenienses na batalha naval de Salamina. Após essa derrota, Xerxes fugiu de volta para Pérsia, onde mais tarde morreu assassinado.

Com a derrota persa na batalha de Salamina, o traidor Efialtes jamais recebeu a recompensa que esperava receber de Xerxes. A cabeça de Efialtes foi colocada a prêmio. Por isso, ele fugiu para a Trácia, mas morreu assassinado no ano seguinte.

A principal fonte a respeito da batalha das Termópilas é o relato do historiador grego Heródoto. Entretanto, esse relato contém exageros que foram reproduzidos em praticamente quase todas as recriações do episódio (inclusive nos filmes e histórias em quadrinhos). Segundo Heródoto, durante a batalha, o exército persa contava com milhões de soldados. Estimativas mais realistas sugerem que o número de guerreiros persas na batalha não passava de 250 mil. Os espartanos e seus aliados somavam mais ou menos sete mil homens.

Também não é verdade que no final os trezentos espartanos tiveram que enfrentar sozinhos os persas: cerca de mil soldados (téspios e tebanos) também resistiram bravamente contra os persas, permanecendo ao lado dos espartanos até o fim. Exageros à parte, durante a batalha das Termópilas, os espartanos e seus aliados estavam em número muito inferior aos persas, o que não impediu que oferecessem corajosa resistência. Por isso, a história dos homens liderados por Leônidas durante a batalha das Termópilas virou sinônimo de resistência heroica contra um inimigo mais poderoso.

Hollywood e política

A história de Leônidas e seus 300 guerreiros de Esparta virou tema de dois filmes de Hollywod. O primeiro foi "300 de Esparta" ("300 Spartans"), produzido em 1962 e dirigido por Rudolph Mate. O sugundo foi o "300", dirigido por Zack Snyder, adaptação cinematográfica da história em quadrinhos "Os 300 de Esparta", escrita e desenhada por Frank Miller.

Nas duas versões cinematográficas, críticos enxergaram analogias com o contexto político da época em que cada filme foi lançado. Segundo muitos críticos, o filme produzido em 1962 é uma propaganda política típica dos tempos da Guerra Fria: os espartanos ao lutarem "pela liberdade" representariam os Estados Unidos, enquanto o Império persa por ser um grande Estado opressor estaria representando a União Soviética.

Quanto ao filme que estreia em 2007, alguns críticos já apontaram uma analogia com a "guerra contra o terror", promovida pelo presidente norte-americano George W. Bush, pois a antiga Pérsia, corresponderia mais ou menos em sua localização ao atual Irã, um dos países que compõem o que Bush denominou de o "Eixo do Mal". Nesse caso, não passa de pura coincidência, pois a história em quadrinhos que serviu de base para o filme foi lançada em 1998, quando o então presidente dos Estados Unidos ainda era Bill Clinton e muito antes do atentado contra as torres gêmeas do World Trade Center.

Túlio Vilela formado em história pela USP, é professor da rede pública do Estado de São Paulo e um dos autores de "Como Usar as Histórias em Quadrinhos na Sala de Aula" (Editora Contexto).

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