México: Lázaro Cárdenas fez reforma agrária no México

Érica Alves da Silva

Reconhecer os significados do governo de Lázaro Cárdenas (1934-1940) no México não é uma tarefa simples. Primeiro, porque ainda existe no estudo desse contexto histórico uma variedade de interpretações. Há aqueles que consideram suas ações populistas, enquanto outros negam essa interpretação.

Segundo, porque durante seu mandato presidencial Cárdenas conquistou apoio de diferentes grupos da sociedade mexicana, muitas vezes com interesses divergentes, como as massas camponesa e operária, além de alguns líderes do PNR (Partido Nacional Revolucionário). Este tipo de relação levou a várias caracterizações de sua figura, sendo chamado tanto de revolucionário como de reformista. E, por último, porque sua história ajuda a compreender o processo da revolução mexicana.

Origem humilde de Lázaro Cárdenas

Nascido em 1895 na cidade de Jiquilpan e tornando-se arrimo de família muito jovem, depois da morte do pai, Cárdenas precisará ter dois empregos. Desde jovem posiciona-se criticamente em relação à situação do país, que vivia sob influência do porfiriato, período de aproximadamente 30 anos em que o general Porfirio Díaz governou o México de forma intermitente de 1876 até 1911.

Cárdenas engaja-se no exército revolucionário em 1913, depois de receber uma ordem de prisão pela criação de um jornal de oposição ao regime. Nesse jornal Cárdenas demonstrava o descontentamento com as condições mexicanas, defendia o programa de Madero (que governou o México de 1911 a 1913), que visava reformas políticas e era contrário à reeleição.

É fundamental ressaltar que o programa de Madero respondia às aspirações da classe média, boa parte dela formada por ricos proprietários e dissidentes do porfiriato. Para as comunidades indígenas, o objetivo central era livrar-se de qualquer incômodo causado pelo governo, como a alta cobrança de impostos.

Embora tenha estudado pouco, Cárdenas era alfabetizado (e também autodidata), o que facilitou galgar à posição de segundo capitão no exército, responsável pela correspondência do general Garcia Aragón no Exército Revolucionário Constitucionalista, com chance de subir na hierarquia militar.

Reivindicações populares

Nesse contexto se tornava cada vez mais visível a cisão entre os líderes do Exército Constitucionalista, com visão mais moderada, e aqueles que desejavam uma revolução popular, como Zapata e Villa, fortemente ligados às ideias de reforma agrária.

Mesmo com a diferença entre os moderados e os grupos de Villa e Zapata, com o passar do tempo o grupo de Cárdenas (moderados) passou a incorporar algumas reivindicações da população. É neste sentido que Carranza (novo líder de Cárdenas depois da morte de Garcia Aragon) ampliará suas relações com as ideias de reforma agrária.

No ano de 1928, Lázaro Cárdenas passa a dedicar-se à política institucionalizada e torna-se governador de Michoacán. Três anos depois, torna-se presidente do PNR (Partido Nacional Revolucionário) e, já em 1934, presidente do México.

Intervenção estatal

Durante o espaço de tempo de 1928 a 1933, Cárdenas orienta as ações políticas que efetivará na presidência. Durante esses anos já se configura a defesa da intervenção estatal na economia e na política, além de "concessões" às massas camponesas e operárias, para conter o avanço de suas reivindicações.

Cárdenas fazia parte do que se denomina ala esquerda do PNR, grupo representado também pelos generais Obregón e Francisco Múgica, mais comprometidos com as reivindicações dos operários e camponeses que o restante do partido.

No governo de Obregón (1920-1924) houve crescimento do movimento operário e as leis trabalhistas foram mais respeitadas. Entretanto, o movimento operário já se encontrará atrelado ao Estado no governo de seu sucessor, Calles (1924-1928). Este general se manterá no poder no México durante o período de 1928 a 1935 (período denominado maximato), no cargo de chefe máximo da revolução. Isso lhe possibilitará nomear e destituir todos os presidentes mexicanos até a chegada de Cárdenas à presidência do país.

Conciliador de conflitos

Enquanto governador de Michoacán, Cárdenas inicia seu papel de árbitro e conciliador de conflitos, que caracterizará sua ação presidencial. Cárdenas já procura conciliar os interesses do operariado e do patronato, efetuar a divisão de latifúndios, criar novas escolas, incentivar a educação popular e organizar a frente única de operários, camponeses e estudantes.

Em 1930, Lázaro Cárdenas deixa temporariamente o governo de Michoacán e assume a presidência do PNR. Devido à crise mundial decorrente da quebra da bolsa de Nova York, há a efervescência das pressões populares e mais uma vez sua ação se mostra conciliadora. Cárdenas procura obter base de apoio popular pautado na ideia de reconstrução nacional, na busca por reformas e é desta maneira que desenvolverá sua política de massas durante o mandato presidencial.

Sua presidência caracteriza-se pela implementação de uma forte política de massas e pela efetivação de uma série de reformas sociais que respondem às aspirações da classe trabalhadora.

As ações de Cárdenas devem ser analisadas dentro do contexto da Grande Depressão, que obrigou diversos governos a dar prioridade às questões sociais. Entretanto, no México, especificamente, essas reformas tinham significado especial, que era a criação de uma "Nova Nação", pautada no ideário da revolução mexicana, ou seja, na esperança de criação de uma sociedade em que todos tivessem igualdade.

Reforma agrária

Durante a presidência de Cárdenas realizou-se uma grande transformação na estrutura fundiária mexicana. É importante salientar que a divisão de terras no México já estava em andamento nos governos anteriores ao de Cárdenas, mas sua firme atuação em relação à reforma agrária não tinha precedentes na história do país. Ele efetua tal transformação devido à pressão política das massas camponesas, já que a estabilidade política do país dependia desse posicionamento.

Uma das ações mais conhecidas de seu governo foi a nacionalização da exploração do petróleo mexicano. Cárdenas "aproveitou" o choque entre as companhias de petróleo, em sua maioria inglesas e americanas, e o movimento operário, que reivindicava melhores condições de trabalho e aumento salarial, para nacionalizar a exploração do subsolo mexicano.

Para justificar tal atitude Lázaro Cárdenas utiliza um artigo (número 17) da constituição revolucionária de 1917, que permitia acabar com o que era considerado privilégio das companhias petrolíferas. Na realidade a alta lucratividade das empresas e os baixos salários dos trabalhadores justificavam tal atitude, que se tornou também símbolo da luta pela soberania mexicana e de patriotismo.

Dessa maneira pode-se concluir que o governo de Lázaro Cárdenas teve de reconhecer os movimentos sociais (camponeses e operários) como interlocutores políticos. Atender as suas antigas reivindicações, que levaram a significativas reformas sociais, era uma questão latente e ao mesmo tempo uma estratégia para manter as tensões desses grupos sob controle.

Érica Alves da Silva é historiadora.



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