Escrava Isaura, A: Análise do livro de Bernardo Guimarães

Oscar D'Ambrosio, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

Famoso pelas suas bem-sucedidas adaptações para a televisão, em 1976/77, pela TV Globo, e, em 2004/05, pela TV Record, o romance "A Escrava Isaura", escrito por Bernardo Guimarães (1825-1884), tem uma heroína que consegue ampla empatia do público: uma escrava branca, educada, perseguida por um vilão terrível, seu proprietário Leôncio.

A obra alcançou grande êxito em sua época. Lançada em 1875, obteve repercussão pela sua história em tom de folhetim e pela mensagem abolicionista. Era previsível, aliás, que as desventuras de sua protagonista, tratada como negra, embora branca, fosse tomada como símbolo do combate ao sistema escravista. A repercussão foi tamanha, que o imperador dom Pedro 2o, ao visitar Ouro Preto, fez questão de visitar Guimarães.

A trajetória de Guimarães tem, assim como o romance, episódios folhetinescos. Mineiro de Ouro Preto, ele estudou direito em São Paulo. Foi nomeado juiz no interior de Goiás, mas, boêmio, foi exonerado, voltando à cidade natal como professor do ensino médio.

Se a sua existência esteve dividida entre a vida agitada que levou em São Paulo e o pacato cotidiano mineiro, onde passou seus dias de casado e de docência, a mesma estrutura maniqueísta surge no eixo de seu romance, que coloca Isaura como a encarnação do "bem" e Leôncio como a representação do "mal".



Dama da corte

Nascida numa fazenda no interior do Rio de Janeiro, Isaura é filha de uma escrava negra e de um feitor português. Após a morte de sua mãe, a escrava é adotada pela dona da propriedade. Tratada como filha, é educada como uma dama da corte, desenvolvendo habilidades como tocar piano, cantar e o domínio de línguas estrangeiras.

O vilão que virá a atrapalhar a vida de Isaura é Leôncio, filho da fazendeira. Obcecado pela escrava diferenciada, após a morte da mãe ele não esconde seu desejo sexual em relação à moça, que, como heroína romântica que é, resiste. Malvina, esposa de Leôncio, também nutre simpatia por Isaura e, não suportando a fixação do marido pela moça, vai para a capital de então, o Rio de Janeiro.

Isaura prefere se arriscar a morrer, fugindo com o pai até o Recife (capital do Recife), a se entregar sexualmente ao seu senhor. Lá, ela troca o nome para Elvira, e desperta a paixão do jovem e rico Álvaro. Sua condição de escrava, porém, é revelada por Leôncio, estabelecendo a disputa entre o autoritário escravista e o jovem abolicionista pela moça.



Frustrações sexuais

Isaura é obrigada a retornar ao Rio de Janeiro, onde resiste aos desejos de seu proprietário. Ao longo da narrativa, Guimarães conta as perseguições do senhor cruel à escrava virtuosa. Quanto maiores são as negativas dela, maiores são também as violências que Leôncio comete, num mecanismo bastante simplista e primário de transferência de suas frustrações sexuais para a violência física.

Ao final, ocorre uma reviravolta. Álvaro anuncia a compra de todos os bens que o latifundiário havia penhorado como garantia de suas imensas dívidas. Uma dessas propriedades é justamente Isaura, escrava brasileira que parece mais uma donzela medieval no exercício da defesa de sua pureza.

Se o destino dela é a liberdade e o casamento com o herói Álvaro, o de Leôncio é o suicídio. Trata-se de um romântico final feliz, fato que explica, em boa parte, o amplo sucesso da obra.

Oscar D'Ambrosio, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação é jornalista, mestre em artes pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp), crítico de arte e integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica - Seção Brasil).



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