Fernando Pessoa: Ortônimo e heterônimos

Oscar D'Ambrosio*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

Considerado pelo prestigiado crítico literário Harold Bloom um escritor que deixou uma obra que constitui um  “legado da língua portuguesa ao mundo”, o poeta luso Fernando Pessoa (1888-1935) tem como característica fundamental o desdobramento em múltiplas personalidades, num processo que o levou a definir-se como “drama em gente”.

Esse teatro humano é formado principalmente por três heterônimos (Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro), personalidades poéticas completas, ou seja, identidades que ganham manifestações artísticas próprias e diversas do autor original. Campos e Caeiro possuem até data de nascimento e o fato de Ricardo Reis não ter um dia de morte, motivou José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura, a escrever, em 1984, O ano da morte de Ricardo Reis, obra em que o fantasma de um já morto Pessoa dialoga com o heterônimo, que teria sobrevivido ao seu criador.

Há ainda um ortônimo, conjunto de trabalhos que Pessoa assina com o próprio nome e com particularidades estilísticas diferenciadas; e um semi-heterônimo (Bernardo Soares, que apresenta muitas semelhanças com Fernando Pessoa ele-mesmo e não possui uma personalidade muito particular ou uma manifestação artística muito diversa do autor original.

Álvaro de Campos passa por transições ao longo de sua trajetória. Começa influenciado pelo simbolismo, adere em seguida ao futurismo e se volta ao niilismo, adotando uma postura revoltada e critica em relação ao mundo, embora admire a velocidade da vida moderna, adotando uma linguagem livre e radical.

Por sua vez, Ricardo Reis é um médico latinista e monárquico. Simétrico e harmônico na poesia, relaciona-se com o mundo clássico, principalmente as vertentes filosóficas ligadas ao epicurismo e aos estóicos. Disciplinado, vale-se da mitologia grega e romana em suas criações. Contrário à proclamação da república em Portugal, Reis mudou-se para o Brasil.

Fernando Pessoa (ele-mesmo) é responsável pelo único livro publicado pelo artista em vida em língua portuguesa, já que ele também escrevia em inglês por ter passado a infância na África do Sul. Trata-se de Mensagem, em 1934, coletânea de poemas sobre os grandes personagens históricos portugueses. Com uma linguagem musical e subjetiva, influenciado pela Teosofia e pela Maçonaria, Pessoa assume um tom mítico e trágico de valorização da nação portuguesa.

Já Bernardo Soares, com seu Livro do desassossego, apresenta um texto em fragmentos que traz reflexões sobre a própria inviabilidade, inutilidade e imperfeição da escrita e o tédio e o trágico do existir, além de uma indagação muito contemporânea, o anonimato e o cotidiano comum de um universo urbano como Lisboa.

Comparável apenas a Camões em termos de importância dentro da literatura de língua portuguesa escrita em Portugal, Fernando Pessoa teve uma existência cotidiana banal, trabalhando em várias firmas comerciais de Lisboa, mantendo, em paralelo, uma atuação não menos do que luminosa na criação de uma obra literária em versos e prosa regida por um incomum processo de concepção em múltiplas personalidades.

Oscar D'Ambrosio*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação *Oscar D'Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp), é crítico de arte e integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica - Seção Brasil).

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