Gramáticas: Normativa, descritiva e internalizada

Alfredina Nery, Especial para a Página 3 Pedagogia e Comunicação

Há mais de um conceito de gramática - e isso é coisa que muita gente não sabe. Para explicar como isso é possível, vamos dar um exemplo do "Sítio do Picapau Amarelo", uma das obras mais famosas de Monteiro Lobato. No trecho abaixo, Narizinho acusa sua avó, a Dona Benta, por ter feito um...


 

"Erro" de gramática:

"Pilhei a senhora num erro!", gritou Narizinho. "A senhora disse: 'Deixe estar que já te curo!' Começou com o Você e acabou com o Tu, coisa que os gramáticos não admitem. O 'te' é do 'Tu', não é do 'Você'"...
"E como queria que eu dissesse, minha filha?"
"Para estar bem com a gramática, a senhora devia dizer: 'Deixa estar que já te curo'."
"Muito bem. Gramaticalmente é assim, mas na prática não é. Quando falamos naturalmente, o que nos sai da boca é ora o você, ora o tu; e as frases ficam muito mais jeitosinhas quando há essa combinação do você e do tu. Não acha?"
"Acho, sim, vovó, e é como falo. Mas a gramática..."
"A gramática, minha filha, é uma criada da língua e não uma dona. O dono da língua somos nós, o povo; e a gramática - o que tem a fazer é, humildemente, ir registrando o nosso modo de falar. Quem manda é o uso geral e não a gramática. Se todos nós começarmos a usar o tu e o você misturados, a gramática só tem uma coisa a fazer..."
"Eu sei o que é que ela tem a fazer, vovó!", gritou Pedrinho. "É pôr o rabo entre as pernas e murchar as orelhas..."
Dona Benta aprovou
. (...)
(Monteiro Lobato. Obra Completa. "Fábulas", São Paulo, Editora Brasiliense)


 

A gramática e a fala

No Brasil, é comum usar às vezes "tu" e às vezes "você. E esse é apenas um exemplo da diferença que há entre o que diz a regra da gramática normativa e a língua falada.


Quer outro exemplo? Leia um conhecido poema de Oswald de Andrade, um dos organizadores da Semana de Arte Moderna, em São Paulo, em 1922. Naquele momento, os artistas queriam uma nova arte brasileira, incluindo a literatura, com mais liberdade estética em suas criações.

pronominais
Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da nação brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro

Analise bem o primeiro verso ("Dê-me um cigarro") e o último, ("Me dá um cigarro"). No primeiro caso, temos o pronome "me" colocado depois do verbo - a regra da gramática normativa diz que se deve usar a ênclise, ou seja, o pronome deve ser colocado depois do verbo, quando não há nenhuma palavra que atraia o pronome.

No segundo, o pronome "me" vem antes do verbo, o que contraria a regra citada. No entanto, a forma "Me dá" no lugar de "Dê-me" é bastante usada, até mesmo pelos falantes mais escolarizados. Essa é uma clara demonstração de que há regras diferentes sendo acionadas em cada caso.

Por que isso acontece? Uma boa forma de explicar é conhecer a complexidade da língua e de suas gramáticas. É, você não leu errado, não. Existem diversas "gramáticas".

 

Tipos de gramática

Vamos falar de três deles, retomando, no quadro a seguir, o que o conceituado linguista brasileiro - Sírio Possenti - defende.


 

  Gramática normativa = conjunto de regras que devem ser seguidas Gramática descritiva = conjunto de regras que são seguidas Gramática internalizada = conjunto de regras que o falante domina
Regra obrigação: assemelha-se à lei jurídica: “é o que deve ser” busca pelas regularidades da língua: assemelha-se à lei da natureza: “é o que é” é a língua em situações de uso pelo falante: são conhecimentos/usos linguísticos dos falantes, com regras implícitas (sem que se tenha consciência delas, muitas vezes)
Língua -expressão das pessoas cultas -regras baseadas apenas na modalidade escrita -critério literário -norma culta ou variante padrão ou dialeto padrão -regularidades -não existem línguas uniformes -o critério não é apenas literário  
Erro -o que foge da boa linguagem, segundo a norma culta -há variáveis entre padrões de uso -só é erro o que não faz parte sistemática de nenhuma variante da língua  

Então como ficam os chamados erros gramaticais? Vamos a mais algumas reflexões:

Exemplo 1
Um velhinho chega à médica e pergunta:
"A senhora é a consultadeira?"
A professora levou um instante até entender o que o homem estava dizendo. Na verdade, o velhinho estava querendo saber se ela era a médica oftalmologista que iria fazer "exame de vista" nos idosos do local.

Ao usar "consultadeira", o homem cometeu um erro? Por quê? Procure no dicionário se existe essa palavra. Não há. Mas e se afirmássemos que o velhinho demonstrou conhecer a língua portuguesa ao criar a palavra "consultadeira"? Veja:

 

  • sapato/sapateiro sprofissional que conserta sapatos)
  • costurar/costureira (profissional que confecciona roupa)

    Em "sapateiro" e costureira", temos o sufixo "eiro/eira" que se refere ao profissional relativo à raiz de cada palavra (sapato, costura). Portanto, ao criar a palavra "consultadeira", o idoso estava se referindo ao "profissional que faz consultas", ou seja, no caso, uma médica.

    Podemos dizer que o velho é um ignorante em termos gramaticais? Podemos dizer que ele tem uma gramática internalizada que o levou a criar a palavra "consultadeira", que está fora da norma gramatical, mas está dentro do "sistema da língua"?

    Exemplo 2
    (a)

  • Os cachorro são dele, viu?
  • Ele coleciona belas borboleta, lá na chácara.
  • Esses menino não entenderam nada.

    (b)

  • O cachorros são dele, viu?
  • Ele coleciona bela borboletas, lá na chácara.
  • Esse meninos não entenderam nada.

    Quantas vezes, você deve ter ouvido algo parecido com as frases do item (a)? Elas são exemplos do uso da língua por determinados grupos sociais e até mesmo por muitos de nós, em algumas situações de comunicação, especialmente na fala cotidiana, quando, muitas vezes, não se faz a concordância entre os determinantes (artigos, pronomes e mesmo adjetivos) e o substantivo correspondente, ao contrário do que manda a gramática normativa.

    Entretanto, muito provavelmente, você nunca se deparou com as construções do tipo (b). Por quê? Porque elas são "agramaticais (ou "não gramaticais"). Isto é, não pertencem a nenhum uso da língua, nem ao sistema da mesma. Enfim, como relacionar o Exemplo 2 e os conceitos de gramática?

     

    Adequação da linguagem A gramática normativa chama de "erro de concordância" as construções do caso (a) e do caso (b). A gramática descritiva procura explicar os usos da língua, no caso (a) - e daí, essas formas não seriam erros - e preconiza que o caso (b) não existe na língua.

    Podemos afirmar que as construções do caso (a) podem ser inadequadas em determinadas circunstâncias ou contextos de uso, quando precisamos escrever ou falar de maneira mais formal, ou ainda, de acordo com as regras da gramática normativa: aquelas que, enfim, padronizam os usos da língua, em especial quando se escreve. Os bens culturais, como as artes e as ciências, são expressos em gramática normativa, por isto, conhecê-la permite que desenvolvamos ferramentas necessárias para dominar a língua escrita, o que pode significar uma participação social maior e mais qualificada.

     

  • Alfredina Nery, Especial para a Página 3 Pedagogia e Comunicação é professora universitária, consultora pedagógica e docente de cursos de formação continuada para professores na área de língua, linguagem e leitura.

    

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