Romance: Definição e características

Antonio Carlos Olivieri, Da Página 3 Pedagogia & Comunicação

Nos primeiros momentos do romantismo, os termos folhetim e romance chegaram a se identificar, eram praticamente sinônimos. Ao longo do século 19, esses conceitos viriam a conhecer a separação, passando o romance a designar a narrativa de maior complexidade na forma e no conteúdo. Quanto ao folhetim, tornou-se o nome das narrativas cuja essência consiste no enredo passional, de muitas peripécias para entreter o leitor.

Para se ter uma ideia do que é um folhetim do século passado, o exemplo mais célebre são "As aventuras de Rocambole", do jornalista francês Ponson du Terrail. Sua trama é tão enrolada, tumultuada, que chegou a originar o adjetivo "rocambolesco", cujo significado é: "Que lembra a personagem Rocambole ou suas aventuras extraordinárias; cheio de peripécias; enredado, complicado, acidentado".

De fato, em "As aventuras de Rocambole" o que conta é a peripécia, a aventura, é a grande dose de emoção que a história pode oferecer ao leitor. Ponson du Terrail não demonstra uma grande preocupação com a verossimilhança. Basta contar que, no primeiro capítulo desse folhetim, uma personagem secundária - soldado do exército de Napoleão - recebe um tiro na cabeça e morre. Entretanto, passados algumas dezenas de capítulos, a mesma personagem reaparece viva (segundo Terrail, porque uma medalha religiosa que o soldado conservava no interior do chapéu teria impedido que a bala lhe causasse um mal maior do que um "desmaio").



Definição: o que é romance?

Mas deixando de lado as extravagâncias do folhetim , convém agora apresentar uma definição do que - por consenso - se entende por romance nos estudos literários, embora deixando de lado os aspectos controversos que existem entre as diversas tendências críticas e historiográficas acerca do assunto.

Para começar, uma consulta ao "Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa", cujo verbete romance apresenta a seguinte definição, no âmbito literário: "Descrição longa das ações e sentimentos de personagens fictícios, numa transposição da vida para um plano artístico". Conforme remissão do próprio Dicionário, o romance diferencia-se de outro gênero narrativo em prosa, que é historicamente anterior, a novela, como "narração usualmente curta, ordenada e completa de fatos humanos fictícios, mas verossímeis".

Se continuarmos nossa pesquisa numa obra referencial de caráter mais específico, como o "Dicionário de Literatura Portuguesa e Brasileira", dirigido por Jacinto Prado Coelho, confirmaremos que a maior extensão do romance em relação à novela é com frequência o elemento de distinção entre os gêneros:

"No conceito mais generalizado, o romance distingue-se da novela apenas pela maior extensão".

Entretanto, o verbete acrescenta em seguida:

"[...] mas há também teóricos da literatura que delimitam os gêneros por traços qualitativos, estruturais, nomeadamente os seguintes: enquanto na novela predomina o evento, a história linearmente contada, no romance avulta uma atmosfera psico-social; o romance configura um mundo de personagens mais denso e complexo, aproxima-nos do acontecer cotidiano, e daí um ritmo temporal mais lento".



Personagens complexos

Uma atmosfera psico-social, um mundo de personagens mais denso e complexo, uma aproximação do acontecer cotidiano... A fusão desses elementos num conceito único - o conceito de romance - talvez se torne ainda mais amplo e claro para o leitor atual, pelo acompanhamento do episódio que consagra a origem do próprio romance, na Inglaterra do século 19.

Por volta de 1730, no subúrbio londrino de Hammersmith, o impressor Samuel Richardson, muito preocupado com os sentimentos femininos, atuava como intermediário de suas vizinhas, auxiliando-as em suas relações pessoais. Escrevia para elas as cartas com que se correspondiam com seus namorados e candidatos ao "encargo".



Modelos de cartas de amor

Pouco depois, Richardson resolveu ganhar dinheiro com seu hobby, escrevendo um livro de modelos de cartas, que imprimiu e vendeu, com grandes lucros. Apresentando cartas para as mais variadas espécies de remetentes e destinatários, sobre as mais diversas situações, o manual de Richardson certamente revelou-se útil a sua comunidade.

Por exemplo, seguindo o modelo de no 138 - cujo título é "Carta de um pai a uma filha que está a servir, tendo sabido que o patrão atenta contra a virtude dela" -, um pai preocupado pode dar à filha conselhos explícitos e incisivos, além de bem pensados e elegantemente expressos. Basta simplesmente copiar o texto do livro com o próprio punho e assiná-lo.



 

O modelo em questão, a carta no 138, não foi escolhido por acaso. Ele é particularmente célebre. Para escrevê-lo, Richardson baseou-se num caso verdadeiro, em que uma criada resistiu ao assédio sexual de um jovem patrão. A partir dessa história, o impressor londrino desenvolveu um novo projeto, relatado pelo professor Richard Freedman num ensaio sobre o gênero romance:



O romance inglês

"[Richardson] lembrou-se de que a história da rapariga podia ser contada numa série de cartas - por exemplo, entre a jovem e os pais, preocupados e morando a milhas de distância - e de que o livro em questão seria ao mesmo tempo interessante e instrutivo, não só para as raparigas novas, mas para toda gente que tivesse problemas de amor e de moral. Em três meses a história de "Pámela" estava escrita e tinha nascido o romance inglês."

Resumindo, ao escrever o livro "Pámela", Richardson empregava pela primeira vez os traços que viriam a ser característicos do gênero: história ambientada na Inglaterra de sua época, atmosfera psico-social, um mundo de personagens complexos...

Em outra passagem pouco posterior a essa, reiterando o pioneirismo de Richardson, Freedman descreve ainda mais claramente os traços característicos do texto que inaugura o gênero que se vai chamar de romance:



O espelho proverbial da natureza

"Richardson baseou a sua ficção [...] na realidade profundamente sentida da sua época e nas virtudes da classe média [...]. Procedendo assim, permitiu que o romance fosse o espelho proverbial da natureza - a verdadeira natureza humana - em vez de mera fantasia sobre uma terra que nunca existiu, cheia de fidalgos e fidalgas, ninfas e pastores, restos de um passado nebuloso e verdadeiramente inacreditável. Talvez fosse ele o primeiro a ver que a imaginação podia ser aplicada à vida contemporânea, que os incidentes podiam ser inventados sem parecerem irreais".

Descendente aprimorado do projeto de Richardson, o romance do século 19 vai se constituir no retrato de personagens aparentemente extraídas da vida real, que transitam num ambiente urbano (semelhante àquele em que o leitor vive), onde se desenvolvem as ações que compõem sua vida, ditadas por seus interesses, necessidades e paixões individuais. No começo, vai se desenvolver especialmente na Inglaterra e na França, mas daí passará a outros países da Europa e da América, chegando também ao Brasil.

Antonio Carlos Olivieri, Da Página 3 Pedagogia & Comunicação é escritor, jornalista e diretor da Página 3 Pedagogia & Comunicação.

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