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Celso Furtado Economista brasileiro, autor de Formação Econômica do Brasil

26/07/1920

Pombal (PB)

Gilson Schwartz<br> Colunista da Folha de S. Paulo

25/11/2004 20h37

O bacharel em direito e doutor em economia pela Sorbonne Celso Furtado foi para as ciências sociais no Brasil uma espécie de contraponto acadêmico ao espírito da bossa nova: aplicação de conceitos avançados no exterior a temas essencialmente brasileiros, sobre um pano de fundo otimista e de aparente simplicidade. Furtado, como um Tom Jobim, viveu numa época em que ainda era lícito e confortável pensar e agir nos quadros de um Estado Nacional progressista.

O instrumental teórico importado, no caso de Furtado, era o keynesianismo ativista típico do pós-guerra (Furtado foi condecorado pela Força Expedicionária Brasileira, na qual lutou na Itália).
No mundo inteiro acreditava-se na viabilidade de políticas econômicas capazes de não só corrigir desequilíbrios ou evitar catástrofes mas, principalmente, aptas a moldar o futuro. Era a política de desenvolvimento econômico.

Furtado reinterpretou a história econômica brasileira como uma série de oportunidades de desenvolvimento catalisadas por um Estado em formação. A sua "Formação Econômica do Brasil" (1959) -um dos mais importantes livros da história econômica do país- pode ser lida como uma história das possibilidades de intervenção racional do Estado no processo de desenvolvimento.

Mas o pano de fundo mais longínquo das fantasias históricas de Furtado tem origens mais remotas e que ultrapassam o registro do pensamento econômico. Furtado mostra, em seu "A Fantasia Organizada" (1985), por exemplo, como se inspirou para a vida sobretudo na reconstrução européia, mistura de razão ressuscitada e existencialismo esperançoso. A história, dessa perspectiva, é sempre em primeiro lugar as séries de oportunidades para a realização de um projeto. Fundem-se numa mesma dimensão aspectos políticos e fantasiosos.

Seria tudo retórica e delírio, não fosse o fato nu e cru de a própria vida de Celso Furtado tornar-se emblemática da realização concreta dessas possibilidades políticas e emocionais. Furtado trabalhou com Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart. Materializou a Sudene (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste), da qual foi o primeiro superintendente em 59.

Furtado se tornou afinal vítima de uma fúria ideológica nada amorosa, deslanchada pelo golpe de 1964. Foi cassado e exilado (viveu primeiro no Chile, depois nos EUA, onde foi professor).

Ainda assim, Furtado jamais conseguiria libertar-se da hipótese de uma razão de Estado, capaz de sobreviver e impor-se apesar dos inquilinos da máquina.

Assim, depois de tornar-se ministro da Cultura de José Sarney, Furtado ainda iria confessar-se surpreso com a degradação do Estado. Bateu-se também pela moratória da dívida nos anos 80. Foi duro crítico da era FHC. Embora apoiador de Lula, em 2003, recusou convite do governo para reformular a Sudene. Mas se Furtado sempre projetou no Estado sua paixão por uma sociedade mais arrazoada, a matriz da racionalidade vinha sempre de uma análise econômica ampliada ao ponto de tornar-se economia política e mesmo geopolítica.

Furtado condenou politicamente o marxismo-leninismo, mas acalentando na alma uma esperança tipicamente marxista de arrancar da sociedade os parâmetros de uma razão capaz de se encarnar no Estado. Mais hegeliano que marxista, Furtado denunciaria o distanciamento progressivo entre Estado e sociedade como fonte maior do turvamento histórico brasileiro.

Em "Formação Econômica do Brasil", volta repetidas vezes ao tema da socialização dos custos da expansão capitalista, reconstruindo a história econômica como uma épica ampliação de mercados que, como tendência, vão praticamente engendrando o Estado Nacional. Ao final, tem-se ao mesmo tempo o retrato de uma economia que se desenvolve por meio de ciclos mas que, ciclo após ciclo, acumula não só riqueza como também superestrutura institucional. Diante dessa arquitetura lógico-histórica fica pequeno, senão caricato, o debate chão e corriqueiro entre estatizantes e liberais.

O dilema que faz mais sentido na obra de Furtado não é entre Estado e sociedade, mas entre autonomia e dependência. Desenvolvimento é quase sinônimo de viver com menos apoio externo, encontrando no mercado interno o fôlego para avançar, seja qual for o grau de "estatização" da economia. As possibilidades de intervenção do Estado não seriam portanto fruto de um mero voluntarismo mas sim desdobramentos sincrônicos de uma estrutura social capaz de acumular riqueza material e autonomia política.

Assim, o vazio não está no Estado, nem na sociedade, mas na incapacidade de uma economia encontrar em si o dínamo da acumulação. Esse sentimento de que a sociedade pode encontrar em si mesma a força e o espírito da construção e do progresso torna compreensível sua crença irredutível na possibilidade de reformar-se a sociedade, encontrando-se o seu projeto, a sua razão de ser. Para Furtado, uma sociedade em crise é quase sinônimo de oportunidade para a reconstrução da unidade. Uma unidade hoje tão perdida quanto a tranqüila simpatia intimista da bossa nova.