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Millôr Fernandes Desenhista, humorista, escritor, dramaturgo e tradutor

<p>16 de agosto de 1923, Rio de Janeiro, RJ</p><p>27 de março de 2012, Rio de Janeiro, RJ</p>

Da Página 3 Pedagogia & Comunicação

06/04/2012 07h50

O jovem Milton Fernandes nasceu no bairro do Meyer, no Rio de Janeiro, em 16 de agosto de 1923, mas foi registrado em 27 de maio de 1924. Estava perto de fazer 17 anos quando precisou tirar uma segunda via de sua certidão de nascimento. Ao observar a grafia do tabelião que registrara sua certidão original, percebeu que as letras que deveriam ser “lt” do nome Milton, pareciam dois “ll”, e o traço que deveria cortar a letra “t” estava mais para um acento circunflexo colocado sobre a letra “o”, assim como o “n” final lembrava a letra “r”. Milton concluiu então que não era Milton, como até agora se achava e todos os parentes e amigos o conheciam. Era Millôr. Nascia naquele momento Millôr Fernandes, um artista incomum que viria a fazer sucesso em todas as áreas que abraçou.

À época dessa descoberta, já trabalhava na revista “O Cruzeiro”, onde com 14 anos foi admitido como contínuo e repaginador. A revista, que de início era pequena, transformou-se ao longo do tempo em grande sucesso, podendo ser comparada como uma espécie de Rede Globo da época. Seja por necessidade dos empregadores ou por seu próprio esforço, Millôr começou a ser o “faz tudo” da empresa e logo estava escrevendo. Um dos primeiros sucessos de sua carreira foi a coluna humorística Pif Paf, que manteve por bastante tempo e onde, além dos textos, publicava seus desenhos.

Surge o crítico e observador da cena brasileira

Com exceção da época de repressão da ditadura militar, o Brasil sempre encontrou no humor o caminho para a crítica política e de costumes. Prova disso são, por exemplo, as produções do Barão de Itararé com suas frases indefectíveis, as histórias de "O amigo da Onça", que se transformou num dos mais populares personagens do país, assim como os hilariantes quadros do programa PRK-30 da Rádio Nacional que tinha audiência nacional.

Millôr não deixava por menos, e o tom crítico e genial de suas frases sempre esteve presente em seu trabalho. Certa ocasião, falando de Getúlio em sua coluna, comparou-o a um escritor mexicano famoso chamado Vargas Villa. Na verdade, publicou a caricatura de Getúlio Vargas e comentou que Vargas era maior que Vargas Villa, pois ele era o Vargas Vilão. Mas esse mesmo humor satírico, capaz de mostrar o lado risível da vida que era tão bem aceito pelo público, também causava descontentamento. Quando publicou em sua coluna "A Verdadeira História do Paraíso", o texto despertou a ira de religiosos, e a revista, na qual trabalhava há 25 anos, simplesmente o demitiu.

Vida que segue

A demissão não diminuiu o ânimo de Millôr e logo depois alguns amigos o chamam para transformar sua famosa coluna, Pif Paf, numa revista. Corria o ano de 1964 então e a revista durou oito números apenas, mas se transformou na primeira publicação alternativa do país. Mais que isso, foi para ele um verdadeiro ensaio para um sucesso editorial que aconteceria algum tempo depois.

Foi em 1969, na companhia de Tarso de Castro, Jaguar, Ziraldo, Sérgio Cabral, Henfil, Ruy Castro, entre outros colaboradores, que Millôr inicia sua participação no semanário "O Pasquim", uma das mais famosas publicações alternativas a desafiar o regime ditatorial da época. Por vários anos, "O Pasquim" se tornou um dos raros veículos que conseguia fazer uma crítica incisiva ao regime totalitário, criando um humor corrosivo e publicando entrevistas contundentes.

Na sequência de sua carreira no jornalismo, Millôr começa em 1983 a escrever na revista Isto É e em 1996 passa a colaborar com os jornais O Estado de São Paulo, O Dia e Correio Brasiliense. Mas a essa altura, o jornalista já desenvolvera várias facetas e brilhava também em outras áreas.

Um autodidata de mil faces

Millôr sempre desenvolveu seus dotes de maneira autodidata e baseado em sua capacidade criativa. Capacidade que estimulava com um trabalho persistente e com uma rotina dinâmica.

Dessa forma, cedo ele aprendeu a desenhar copiando as histórias das revistas em quadrinhos até transformar seus desenhos num dos traços mais marcantes do cartunismo brasileiro. Com esse mesmo espírito se transformou num dramaturgo reconhecido já desde seus primeiros textos ("Uma mulher em três atos", "Um elefante no caos", "O homem do princípio ao fim") que foi acompanhado por outros sucessos como "Liberdade liberdade", espetáculo musical que roteirizou em parceria com Flávio Rangel. Aliás, como roteirista, desenvolveu também vários trabalhos para o cinema e para a televisão, entre eles o longa "Terra Estrangeira" e "Memórias de um sargento de milícias", adaptado da obra de Manuel Antônio de Almeida.

Foi ainda um excelente tradutor de teatro e são memoráveis suas traduções para clássicos como Rei Lear, Hamlet e A Megera Domada de Shakespeare, Tio Vania, de Tchecov ou As lágrimas amargas de Petra Von Kant, de Fassbinder, entre muitas outras. Conseguia em suas traduções fugir da rigidez e dos formalismos estéticos, para produzir um texto mais coloquial e próximo de nossa língua. Seguindo certamente seu preceito de que “para traduzir é preciso ter todo o rigor e nenhum respeito pelo original”.

Um artista antenado com seu tempo

Ao longo de toda a sua vida, Millôr sempre foi um artista capaz de se expressar das mais variadas formas. Para isso se valeu do texto, das imagens, do humor. Autor de frases famosas, textos críticos e desenhos e caricaturas inesquecíveis, marcou seu tempo com a riqueza de sua obra.

Atento às mudanças tecnológicas que afetam diretamente a comunicação, precocemente percebeu que a Internet poderia ser a sua praia e, já em 2000, lança um site no UOL, onde concentra toda a criação de sua longa carreira. Charges, comentários picantes sobre política, economia e costumes refletem na página o bom humor que sempre esteve presente na vida do escritor.

Doente, chegou a ser hospitalizado por duas vezes em 2011 e morreu em sua casa, no bairro de Ipanema no Rio de Janeiro em 27 de março de 2012.