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Simon Wiesenthal Ativista pelos direitos humanos, caçador de nazistas

31/12/1908, Buczacz, antiga Polônia, atual Ucrânia

20/09/2005, Viena, Áustria

Da Página 3 Pedagogia e Comunicação

17/10/2005 11h19

Com freqüência se perguntava a Simon Wiesenthal o motivo de ter se dedicado a capturar nazistas. Numa dessas vezes, ele respondeu a um amigo que era joalheiro: "Quando morrermos e chegarmos ao outro mundo, os milhões de judeus mortos pelos nazistas nos perguntarão o que fizemos em todo esse tempo que sobrevivemos a eles. Você dirá: 'eu me dediquei à ourivesaria', outro dirá: 'eu construí casas'. Eu lhes direi: não me esqueci de vocês".

Simon Wiesenthal passou 50 anos de sua vida em busca de justiça aos milhões de judeus, homossexuais, dissidentes políticos e ciganos mortos em campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

A cidadezinha em que Wiesenthal nasceu, Buczacz , vizinha a Leopoli, pertencia à Polônia, parte do Império Austro-Húngaro. A região foi invadida por Hitler em 1939 e depois entregue ao governo da União Soviética, com quem a Alemanha tinha um acordo de guerra.

Wiesenthal, que trabalhava como arquiteto, foi obrigado a abandonar a profissão, para não ser deportado para a Sibéria. Depois, vieram os nazistas, e ele passou por 13 campos de concentração, dos quais fugia para ser novamente capturado e torturado. Em maio de 1945, as tropas aliadas libertaram o campo de Matausen, onde Simon era um dos prisioneiros sobreviventes.

Livre, descobriu que toda a sua família fora exterminada pelos nazistas - ao todo, perdeu 89 parentes. Reencontrou apenas sua mulher, Cyla, que também fora presa e torturada. Um ano depois, nasceu sua única filha.

No pós-guerra, trabalhou primeiro para o serviço de inteligência dos norte-americanos, e depois em um apartamento em Viena, atopetado de documentos do chão ao teto: começava assim a caça aos criminosos nazistas e a coleta de provas para o Tribunal de Nuremberg, organismo internacional para julgar crimes de guerra.

Simon teve um importante papel na captura de Adolf Eichmann, o oficial da SS e da Gestapo, as forças nazistas que organizaram o extermínio dos judeus. Localizado na Argentina, Eichmann foi raptado por agentes israelenses em 1960.

Wiesenthal havia decidido ser o porta-voz dos que não sobreviveram. Sua arma era pesquisar entre os documentos semidestruídos da enorme burocracia do Terceiro Reich alemão, em busca de cartas, fotos, testemunhos. Foi graças à documentação reunida por Simon que, em 31 de maio de 1961, Eichmann foi condenado à morte no tribunal de guerra em Israel, por crimes contra os judeus.

Em 1967, Simon publicou suas memórias, "Os assassinos entre nós". No lançamento do livro nos Estados Unidos, anunciou ter localizado
Hermine Ryan (cujo sobrenome de solteira era Braunsteiner), uma governanta que vivia no bairro de Queens, em Nova York. Ryan havia supervisionado o assassinato de centenas de crianças no campo de concentração de Majdanek. Depois da denúncia, ela foi extraditada pelo governo norte-americano para Alemanha em 1973, julgada e condenada à prisão perpétua.

O caçador de nazistas também encontrou o policial austríaco Karl Silberbauer, que prendeu Anne Frank - a menina holandesa que se tornou conhecida por seu "Diário" - e a enviou para a morte no campo de concentação de Bergen-Belsen. A Áustria, que fora aliada de Hitler, levou décadas para admitir sua responsabilidade nos crimes nazistas.

Ali Wiesenthal foi ignorado e freqüentemente insultado, até que, já com 80 anos, o governo reconheceu sua obra e lhe concedeu em vida mais prêmios e honras que a qualquer cidadão austríaco.

O trabalho do ativista foi responsável pela prisão de 1.100 criminosos nazistas. "Não existe liberdade sem justiça", costumava repetir.

Trabalhou no pequeno escritório de seu Centro Hebraico de Documentações, em Viena, até depois dos 90 anos, lutando contra o racismo e os neonazistas. "A coisa mais importante que fiz foi combater o esquecimento e manter viva a memória", disse numa entrevista, em 1999.

"É muito importante as pessoas saberem que nossos inimigos não foram esquecidos", acrescentou. Morto aos 96 anos, foi sepultado em Israel, por decisão da comunidade hebraica internacional.