Biologia

Peixes: Os primeiros vertebrados do planeta Terra

Mariana Aprile

  • Terry Goss/Wikimedia Commons

Os peixes foram símbolos sagrados em várias civilizações. Para os babilônios, Oanes era uma criatura com corpo de peixe e cabeça de homem, que durante o dia trazia o conhecimento para as pessoas e, de noite, voltava para o mar. Em várias partes do mundo, tribos primitivas transformaram o salmão em um símbolo de poder, beleza e coragem.

Até mesmo na história do cristianismo, os peixes estão envolvidos em fatos extraordinários, como o milagre dos peixes. Alem disso, a palavra "Icthus", que significa "peixe", em grego, guarda as iniciais da frase "Iesus Christus Theou Uios Soter" (Jesus Cristo Filho de Deus Salvador). Na Antiguidade, em épocas de perseguição, os cristãos se identificavam por meio da representação de um peixe: uma pessoa desenhava um arco e, outra, completava o desenho riscando outro arco do lado oposto ao primeiro.

Atualmente, com os avanços do conhecimento científico, apesar de os peixes terem perdido espaço no aspecto mítico ou simbólico, continuam a se revelar criaturas fantásticas.

O peixe que tudo vê

Os peixes do gênero Anableps são popularmente conhecidos como "peixes-de-quatro-olhos". Esses animais são capazes de enxergar dentro e fora da água, simultaneamente, quando a linha da superfície da água está na metade de seus olhos. Tal façanha só é possível graças às adaptações especiais de seus olhos que, inclusive, têm sido objeto de vários estudos oftalmológicos.

Cada olho de um Anableps possui duas córneas, duas aberturas de pupila e, a retina subdivide-se em uma porção dorsal e outra ventral. O cristalino dos olhos desse peixe apresenta, em sua parte superior um achatamento (assim como o ser humano e outros animais terrestres) e, na parte inferior, uma curvatura adaptada ao índice de refração da água (da mesma maneira que os animais aquáticos).

Os peixes anableptídeos pertencem ao grupo dos peixes ósseos, conhecidos como Osteichthyes - a linhagem mais rica em número de espécies dentre todos os vertebrados. Esse grupo de peixes ósseos se divide em Sarcopterygii, que são os peixes de nadadeiras carnosas (ou lobadas), e em Actinopterygii (do grego actinos = raio; pteros = asa ou nadadeira) que corresponde aos peixes ósseos de nadadeiras raiadas.

Atualmente, existem apenas oito espécies de peixes Sarcopterygii e seis delas são de peixes pulmonados encontrados na América do Sul, África e Austrália. Esses animais são um elo entre vertebrados aquáticos e terrestres, pois são os peixes mais próximos, na escala da evolução, dos animais que vivem sobre a terra.

Se uma pessoa leiga fosse tentar adivinhar o tipo de esqueleto de um tubarão branco, ela provavelmente diria que ele é ósseo - e com muito tutano! Mas, o esqueleto desse predador é feito de cartilagem, assim como todos os outros peixes que pertencem ao grupo dos Chondrichthyes (outros tubarões, raias e quimeras).

Os peixes ósseos e cartilaginosos apresentam características distintas que podem ser resumidas na tabela abaixo.

Tanto os peixes ósseos como os cartilaginosos possuem mandíbula inferior, mas os agnatos, que são as lampreias e feiticeiras, não apresentam essa estrutura. São formas muito primitivas de peixe: são considerados fósseis vivos e são importantes para o estudo da evolução dos animais vertebrados. Os Agnatha são alongados, sem escamas e podem ser necrófagos ou parasitas.

Os peixes são nossos ancestrais

Em relação aos dinossauros, mamutes e o tigre dente-de-sabre, os peixes podem parecer desinteressantes para o leitor. Mas não fosse por esses animais aquáticos, nenhuma outra grande criatura teria existido. Isso porque os primeiros vertebrados a aparecer na Terra foram os peixes, há mais de 500 milhões de anos, no período Cambriano - eles são, em termos evolutivos, os ancestrais de todos os animais dotados de coluna vertebral, inclusive do ser humano.

O Pikaia, um dos peixes mais antigos descobertos no registro fóssil, era bem diferente dos atuais: não possuía a maxila inferior, apresentava o corpo alongado, o que lembra mais um verme do que um peixe, e não era um vertebrado, mas sim um cordado. Por outro lado, esse animal era dotado de várias características essenciais para que os peixes viessem a existir como espécie alguns milhões de anos depois: musculatura em V, simetria bilateral, e a estrutura precursora da coluna vertebral, a notocorda.

Nos períodos subsequentes, Ordoviciano e Siluriano, os peixes adquiriram uma armadura óssea na cabeça, como um capacete. Tal característica foi uma adaptação evolutiva para sobreviver aos ataques de predadores como o escorpião marinho. Então, no Período Devoniano, os peixes atingiram um alto nível de diversidade. Foi nessa época, inclusive, que surgiram os peixes cartilaginosos e ósseos.

A evolução adaptativa desses animais continua até os dias atuais, mas ao longo de centenas de milhões de anos, os peixes se especializaram para viver em ambientes aquáticos distintos, para se alimentarem e, como resultado hoje em dia há mais de 94 mil espécies de peixes reconhecidas. Apesar dessa grande variedade, os peixes apresentam algumas características em comum.

Características gerais dos peixes

Todos os peixes são animais aquáticos, possuem sistema circulatório fechado, coração com duas cavidades (um ventrículo e uma aurícula), aparelho digestório completo, e são ectotermos - ou seja, eles regulam suas temperaturas a partir de fontes de calor externas. Mas a ectotermia, assim como muitas características presentes nos peixes, não pode ser generalizada.

Peixes como os atuns, conseguem manter seus corpos aquecidos em 30°C quando a temperatura da água mede apenas 7ºC. Tal façanha é possível porque esses animais retém o calor produzido em seus músculos, durante a natação e, por meio de uma estrutura rica em vasos capilares (chamada rete mirabile) esse calor é transmitido ao sangue e distribuído por todo o corpo. Tubarões brancos e cavalas também têm essa capacidade.

Mas existem outras estruturas e qualidades fisiológicas que variam nas inúmeras espécies de peixes. Por exemplo, o Poraquê precisa obter oxigênio do ar, já que a quantidade desse gás que existe em seu ambiente não basta para a sua sobrevivência e, portanto, a respiração branquial é insuficiente - para conseguir absorver o oxigênio atmosférico, esse peixe apresenta alta vascularização na boca e, ao "abocanhar" o ar, o oxigênio se difunde para a sua circulação. Outras espécies de peixes ditos "pulmonados" transformaram a bexiga natatória, órgão relacionado à flutuabilidade, em local de trocas gasosas, enriquecendo-a de vasos sanguíneos capilares. Existem peixes que fizeram o mesmo com porções do intestino e estômago.

Uma das poucas características exclusivas dos peixes é o arranjo dos vasos sanguíneos branquiais: o fluxo do sangue é oposto ao da água que passa pelas brânquias. Esse tipo de arranjo tem o nome de "troca por contracorrente" e tal sistema garante o máximo proveito do oxigênio disponível na água. Se a água e o sangue se movessem no mesmo sentido, o sangue que sai das brânquias teria uma concentração de oxigênio muito inferior do que no sistema contracorrente. Essa foi uma das adaptações mais incríveis para um vertebrado viver na água.

Na maioria dos peixes o fluxo de água nas brânquias é unidirecional, como se fosse uma rua de mão única, de modo que a água entra pela boca e sai pelas brânquias. Nos peixes ósseos o opérculo, estrutura que recobre as brânquias, se move para frente e para trás, prevenindo que a água volte. Assim, os opérculos são aparatos auxiliares para que a água se mova em apenas um sentido nas brânquias. Já os peixes filtradores e espécies de mar aberto (alguns tubarões, cavalas, peixes-espada e atuns) perderam a capacidade de bombear água fazendo uso de suas brânquias.

Esses animais precisam nadar continuamente, com a boca entreaberta para que a água circule de maneira constante - esse método é chamado de respiração forçada. É por esse motivo que, quando um cientista captura um tubarão para obter as medidas de seu corpo, o animal é sedado e um forte esguicho de água do mar é colocado em sua boca.

A maneira como os peixes mantêm e ajustam sua capacidade de flutuar é outro fator em que os mecanismos fisiológicos se modificam, dependendo da espécie. Em muitos peixes ósseos, a bexiga natatória se infla ou se esvazia, de acordo com a necessidade de emergir ou de nadar para o fundo. Novamente, os tubarões são exceção. No caso desses predadores, a bexiga natatória é ausente e o órgão que regula a flutuabilidade é o fígado, rico em óleo - essa substância é menos densa do que a água e, por isso, é mais leve.

Para não morrer na praia

Mesmo com as mais incríveis adaptações evolutivas e malabarismos fisiológicos, os peixes não conseguiram driblar a voracidade do consumo humano. Atualmente os peixes enfrentam várias ameaças à sua sobrevivência, como a pesca comercial, pirata e esportiva, o desmatamento das matas ciliares, assoreamento dos corpos de água e poluição do ambiente aquático. No caso dos peixes marinhos, os perigos são os mesmos, porém em vez de serem prejudicados pela devastação das matas ciliares eles sofrem as consequências desastrosas da destruição dos mangues.

Atualmente, para não morrermos na praia, é preciso que haja mudanças de atitudes da sociedade, além da boa vontade política. Um bom ponto de partida é ler o Guia de Pescados, o qual contém a relação de espécies de peixes cujo consumo deve ser evitado. Sem os peixes, inúmeros animais marinhos e terrestres não teriam como se alimentar e, portanto, o destino de criaturas como os golfinhos, albatrozes, pinguins, focas, ursos e várias outras, é tristemente óbvio.

Mariana Aprile é bacharel em biologia e educadora ambiental.

UOL Cursos Online

Todos os cursos