Filosofia

Clássicos filosóficos: Por que ler as obras que marcaram a história do pensamento?

José Renato Salatiel, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

Imagine, caro leitor, a seguinte cena. Você caminha nas ruas de uma cidade qualquer, de madrugada, e está com muita fome. De repente, se depara com dois restaurantes abertos: o primeiro, um fast-food, localizado a poucos metros de distância. Basta atravessar a rua. O segundo, localizado a três quarteirões de distância, ladeira acima, serve uma deliciosa comida caseira.

Você prefere comer um lanche rápido e matar a fome ao invés de saborear uma refeição melhor, só para poupar-se do esforço de andar mais um pouco?

Pois é exatamente isso que fazemos quando nos acomodamos e aceitamos ter contato com a filosofia apenas por meio de livros didáticos, obras de comentadores ou escritores que prometem pílulas de sabedoria em 15 minutos.

No caso de comentadores - aquelas pessoas que dedicam boa parte da vida a analisar, interpretar e criar novos usos para a filosofia -, recorremos a eles quando queremos nos aprofundar nas ideias do autor e buscar um diálogo.

Mas em se tratando de obras de introdução ao pensamento, o objetivo deve ser estimular o leitor a ler o original. Em ambos os casos, não substituem a leitura dos filósofos.

Você poderia perguntar: "Mas não dá no mesmo? Não estarei adquirindo o mesmo conteúdo, com a diferença de que não terei tanto trabalho, porque já vem tudo 'mastigado'"? Não, não é a mesma coisa. E o motivo é que não se trata exatamente de conteúdo, mas de forma.

Experiência

Ao deixar de ler a obra original, abortamos a chance de sentir os efeitos que aquele pensamento não só produziu no seu tempo, como ainda produz em mentes e corações contemporâneos. Afinal de contas, o que faz de determinado autor um clássico é que suas ideias permanecem atuais.

Os diálogos de Platão, por exemplo, além de serem belíssimas peças de literatura, encontram ressonância em qualquer consciência ocidental e cristã. Todas as ocasiões em que pensamos que existe um mundo ideal, muito melhor do que este, no qual vivemos, e que podemos conhecer a essência das coisas e das pessoas, estamos sendo platônicos, mesmo que nunca tenhamos lido Platão.

A mesma coisa Aristóteles. Raciocinamos o tempo todo sob as regras da lógica aristotélica, mesmo que nunca tenhamos lido uma linha sequer da "Metafísica".

Viagem

Outro bom motivo para ler os clássicos, além da experiência de "primeira mão", é sentir na pele a sensação de pensar aquele pensamento, ao invés de recebê-lo por meio de interpretações, por melhor que seja o comentador.

Calma, eu explico.

Imagine que um amigo seu esteve na Europa, visitou os museus, conheceu pessoas, culturas e lugares diferentes. Ele relata tudo isso e lhe mostra uma coleção de fotos.

Você dispensaria fazer a mesma viagem e ficaria somente com o relato de seu amigo como experiência? Ou, se tivesse oportunidade, iria conferir tudo por si mesmo?

Com a filosofia é a mesma coisa. Cada comentador vai lhe fazer um relato diferente sobre determinado filósofo. Se o "lugar visitado" é aquilo mesmo que ele fala, você só vai saber conferindo o original. Fazendo a viagem.

Ah, mas dá trabalho

Ok, você pode contra-argumentar o seguinte: "Mas dá muito trabalho! Não entendo o que o autor quer dizer! O texto é tão difícil!".

Em uma coisa você está certo. Dá trabalho, mesmo. Muito trabalho.

Em tempos de internet, com um clique, obtemos um resumo das principais teorias de certo filósofo, sua importância na História da Filosofia e seus conceitos bem explicados. Já os originais demandam dedicação, releituras e, acima de tudo, tempo para assimilarmos as ideias.

Ora, então, por que ler os clássicos da filosofia?

Botequins das letras

Um exemplo pessoal. Guimarães Rosa escreveu um livro chamado "Grande Sertões: Veredas" em uma linguagem diferente. Durante um bom tempo, eu não conseguia sair das primeiras páginas, não conseguia avançar no texto.

Eu poderia ter lido vários best-sellers ao invés do tal livro, afinal, não é tudo romance?

Mas depois que consegui assimilar o vocabulário do autor, não larguei mais o livro. Como recompensa, tive acesso a uma beleza extraordinária que compensou todo o meu esforço.

Este é o valor dos clássicos, inclusive os de filosofia. Como diria Peirce, pensamentos "baratos" são encontrados facilmente em qualquer "botequim das letras". Mas uma filosofia original, que vai atravessar séculos e ainda permanecer atual, não se adquire facilmente.

O que faço então?

Se concordamos, então, que vale a pena, qual a melhor estratégia para enfrentar a dificuldade dos textos?

Antes disso, por que, afinal de contas, os filósofos escrevem de modo tão difícil? Podemos identificar pelo menos dois motivos para isso:

  • Porque o autor faz questão de escrever difícil, para parecer inteligente.
  • Porque aquela filosofia precisa, digamos, de uma nova "embalagem", porque é absolutamente original.

    A obra "Crítica da Razão Pura", de Kant, é um exemplo do segundo caso. Como enfrentar a dificuldade desse texto? Aí vão algumas dicas:
  • Não desista na primeira leitura.
  • Organize uma rotina de leitura.
  • Um dicionário de termos filosófico do autor é bem-vindo.
  • Peça ajuda! Faça um grupo de estudos com seus amigos.
  • Procure um bom professor e assista ao curso como ouvinte.
  • Tente aplicar o que lê em fatos de seu cotidiano.
    A surpresa é que isso dá certo! Ao final, você irá conhecer um filósofo que a maioria das pessoas apenas ouviu falar - e essa experiência ficará com você por toda a vida.

    Bons e maus autores Ah, sim! E como podemos reconhecer um bom ou um mau autor, ou seja, diferenciar um filósofo de qualidade daqueles picaretas que só enrolam? Bem, os clássicos são clássicos porque sobreviveram a tudo, de governos autoritários até às críticas mais afiadas e deturpações mais absurdas.

    Estes têm algo de muito valioso para nos dizer. Só precisamos estar dispostos a ouvir sua voz, que ecoa através dos séculos.

 

José Renato Salatiel, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação é jornalista e professor universitário.

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