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Três Vezes Zumbi - Livro mostra como se construiu o personagem histórico

Antonio Carlos Olivieri, da Página 3

Livro mostra como se construiu o personagem histórico

Zumbi existiu mesmo? Ou esse era somente o nome que os escravos fugidos reunidos em Palmares davam aos seus líderes? Caso tenha existido, ele deve ser visto como vilão ou herói da nossa História? Em outras palavras, ele foi o líder de uma comunidade de africanos que resistiram ao avanço da civilização no Brasil colonial? Ou ele foi um revolucionário que ousou enfrentar o latifúndio e resistir bravamente à escravidão? E, sob uma perspectiva mais intimista, também é possível se perguntar: Zumbi era casado, tinha filhos? Ou era comprovadamente gay?

A resposta a cada uma dessas questões pode ser afirmativa ou negativa, de acordo com as fontes históricas utilizadas para respondê-las. É o que revela a leitura do livro Três vezes Zumbi: a construção de um herói brasileiro, dos historiadores Jean Marcel Carvalho França e Ricardo Alexandre Ferreira, ambos da Unesp – Universidade Estadual Paulista, que está sendo lançado às vésperas deste 13 de maio (Editora Três Estrelas, 168 págs., R$ 25,00).

Trata-se de uma obra que, além de mostrar as três versões que a historiografia concebeu para uma mesma personagem, dos tempos coloniais à atualidade, ainda evidencia como a História é produzida, a partir da interpretação que épocas diferentes fazem dos mesmos fatos do passado. Daí que o quilombo de Palmares e Zumbi sejam sucessivamente:

1) um covil de negros fugidos, cujos líderes eram chamados de Zumbi, que foi debelado graças à bravura dos bandeirantes paulistas;

2) um foco de barbárie africana a ser combatido a bem do progresso e da civilização brasileira, sendo Zumbi um líder corajoso, o que realça o valor do bandeirante Domingos Jorge Velho, que o derrotou;

3) um caso característico da luta de classes no Brasil colonial, onde se pode ver um foco de resistência multiétnica (negros, índios e mestiços), comandados por um herói da raça negra, dos oprimidos e das minorias.

Duas vezes História

Mais do que uma biografia de Zumbi ou de um estudo sobre o episódio histórico de Palmares, o livro de Carvalho França e Ferreira é uma biografia das biografias de Zumbi. Nele, os autores expõem como historiadores e homens de cultura em geral narraram a história e descreveram seu personagem principal. “Tal narrativa”, advertem os autores na Introdução, “não traz notícias inéditas ou mesmo perspectivas inusitadas do quilombo”.

Por outro lado, a história apresentada por eles tem outro interesse: “permite conhecer um pouco sobre as relações que a sociedade brasileira, ao longo dos séculos, manteve com o enorme contingente de negros e mestiços que desde cedo a compôs”. Assim, “Três vezes Zumbi” dá ao leitor “a oportunidade de constatar como aquilo que se tem denominado ‘verdades’ acerca de Zumbi e de Palmares variou substantivamente de acordo com os anseios, aspirações e ações [...] e os quadros de referências adotados pelas sociedades que se construíram no Brasil ao longo de pelo menos quatro séculos”.

Zambi, Zombé, Zumbi

O ponto de partida de França e Ferreira é o fato de uma biografia de Zumbi, no sentido estrito, não poder ser feita, por serem raras e insuficientes as informações que dele restaram. Há apenas alguns poucos documentos da época em que ocorreu o fato, os quais versam sobre o quilombo e sobre as expedições que o combateram. De resto, há uma série de comentários interpretativos, escritos ao longo de três séculos: da colônia à atualidade. É a sequência desses comentários e o modo pelo qual eles estabelecem suas interpretações que o livro acompanha.

Os documentos do Brasil Colônia, dos quais o mais antigo data de 1603, mal fazem referência ao personagem Zumbi, cujo próprio nome varia, ora é Zambi, ora Zombi ou Zombé. A grafia Zumbi data do século XIX. Trata-se de textos, de modo geral, que se podem comparar aos Boletins de Ocorrência policiais da atualidade, relatórios burocráticos escritos sem grande rigor dando conta do que era o quilombo e como foi combatido.

É com a publicação de “História da América Portuguesa”, de Sebastião da Rocha Pita, em 1730, que surgem alguns novas informações como o fato de Zumbi ser um titulo de nobreza e não um nome próprio e o suposto suicídio do Zumbi dos Palmares, diante da vitória de Domingos Jorge Velho.

Espártaco negro

No século XIX, com o Brasil independente e a premente necessidade de se criar uma história e uma cultura nacionais, Palmares ganha nova interpretação, onde o herói da história é o bandeirante Domingos Jorge Velho, cuja vitória representa o avanço da “civilização” sobre a “barbárie” dos negros africanos. É nessa época e desse modo que Palmares chega ao primeiro livro didático de História do Brasil, cujo autor é Joaquim Manuel de Macedo, também autor do romance A Moreninha, o primeiro best-sellernacional.

É no século XX que uma inversão de valores ocorre nas interpretações de Palmares e Zumbi. A influência do marxismo na cultura se faz sentir e o episódio passa a ser encarado como um caso típico da luta de classes, sendo Zumbi um campeão dos explorados, que luta pela liberdade, um verdadeiro Espártaco negro, numa alusão ao escravo que comandou uma grandiosa rebelião na Roma do século I a.C.

A partir de então, prevalecem interpretações “esquerdistas” do fato histórico e Zumbi passa a ser definitivamente tido por um indivíduo de carne e osso, cujos detalhes biográficos vão sendo pouco a pouco extraídos de documentos históricos, alguns dos quais vistos apenas pelo historiador que os cita.

Campeão das minorias

A partir das construções do personagem que se fazem ao longo do século XX e início do atual, o que se vê talvez seja mais a evolução do pensamento de esquerda, que o toma, primeiro, por um herói de uma classe social, depois por um herói da raça negra, mais tarde por um campeão multiétnico das minorias, sendo até “demonstrado” que ele foi homossexual.

Vê-se também como a História é feita, refletindo mais a época de sua elaboração do que, propriamente, o momento por ela focalizado. Nesse sentido, o que se viu aqui sobre Zumbi e Palmares, ocorre também com outros personagens históricos nacionais, como Tiradentes ou Jango, para usar exemplos de épocas bem distintas.

É também o que ocorre com as datas comemorativas, como o 13 de maio, data da abolição da escravatura, hoje praticamente posto de lado, suplantado pelo 20 de novembro, dia da consciência negra.

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