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Futebol e Segunda Guerra Mundial - Dínamo de Kiev e a resistência ao nazismo

Túlio Vilela

Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), as Copas que seriam disputadas em 1942 e 1946 não puderam ser realizadas (a guerra acabou em 1945, mas em 1946 a Europa ainda estava arrasada e tentando se reconstruir). Isso não impediu que um dos momentos mais heroicos e ao mesmo trágicos da história do futebol acontecesse nesse período.

A Ucrânia é um país localizado no leste europeu que teve no século 20 a nada invejável experiência de conhecer a opressão de dois regimes totalitários: o stalinista, da União Soviética, e o nazista, que então vigorava na Alemanha.

Em 1922, a Ucrânia foi incorporada à União Soviética e conheceu os horrores da ditadura de Stalin. Em 1941, a Alemanha nazista decidiu atacar a União Soviética, quebrando o tratado de não-agressão assinado em 1939.

Ocupação nazista na Ucrânia

Assim, a Ucrânia acabou sendo ocupada pelas forças nazistas. Os ucranianos mais otimistas tentaram se conformar com a situação, alegando que, sob o domínio de Stalin, eles já viviam no inferno, e que, portanto, o domínio de Hitler não poderia ser pior. Estavam enganados: a maioria da população ucraniana acabou sendo aprisionada, escravizada e enviada para morrer em campos de concentração e de extermínio.

Um dos principais times de futebol da Ucrânia era o Dínamo de Kiev, formado por funcionários de uma padaria. Durante a ocupação nazista, o time ucraniano mudou o nome para F.C. Start. Em 1942, para conferir uma aparência de normalidade ao país ocupado e conquistar apoio de parte da população ucraniana, as autoridades nazistas permitiram que um campeonato de futebol fosse realizado na Ucrânia.

Alegria do povo

Para os ucranianos, vitimados pela fome e outras dificuldades decorrentes da ocupação, assistir a uma partida de futebol acabou se tornando uma das poucas formas encontradas para se divertir e esquecer um pouco os problemas.

Nesse campeonato, o Dínamo de Kiev, já rebatizado de Start, venceu todas as partidas. Algumas das partidas foram ganhas contra de times que eram da Ucrânia ou de outros territórios ocupados, não chamando a atenção dos alemães. Isso começou a mudar quando no dia 17 de julho, uma sexta-feira, o time ucraniano disputou uma partida com o PGS, o time de uma unidade militar alemã.

O time alemão acabou sendo goleado pelo time ucraniano (6x0). No dia 6 de agosto daquele ano, o Start disputou uma partida com outro time alemão, o Flakelf, formado por membros da Luftwaffe, a famosa força aérea alemã. Nova vitória dos ucranianos por goleada: 5x1. Os alemães não quiseram acreditar.

Vitória inesquecível

Parecia impossível que um time formado por ucranianos, que estavam sofrendo com a subnutrição e eram considerados uma "sub-raça" pelos nazistas, pudessem vencer os alemães, que estavam muito mais bem alimentados. Inconformados com a derrota, os alemães marcaram uma revanche para o domingo, dia 9 de agosto.

No dia da revanche, o estádio Zenit estava lotado. Os jogadores ucranianos haviam sido instruídos no vestiário a cumprimentar os adversários no início da partida fazendo a saudação nazista "Heil Hitler!". Num ato de rebeldia, os jogadores ucranianos fizeram outra saudação, gritando "Fizsculthura!", uma mistura das palavras fitzcultura ("cultura física") e "hurrah", que significa "vida longa ao esporte".

Apesar de o árbitro ignorar todas as faltas cometidas pelos alemães e marcar todas as supostamente cometidas pelos ucranianos, o Start conseguiu vencer o Flakelf na revanche por 5x3. Para os torcedores ucranianos presentes no estádio, aquilo foi mais do que um jogo de futebol, foi um ato de resistência. Os jogadores do Start se transformaram em heróis nacionais, o que incomodava e preocupava as autoridades nazistas.

Prisão, tortura e morte

Os jogadores ucranianos não comemoraram a vitória. Pelo contrário, passaram a temer represálias. Poucos dias depois, na padaria onde trabalhavam, os jogadores foram presos pela Gestapo.

O pretexto usado para prendê-los foi o fato de que a maioria deles fazia parte da NKVD, a polícia secreta soviética. Na verdade, para a maioria dos jogadores do Dínamo de Kiev, a filiação a NKVD não passava de uma mera formalidade que os permitia jogar futebol antes da ocupação nazista.

O que os livrava de problemas com Stalin, acarretou problemas com as forças de Hitler. Levados para interrogatório, os jogadores ucranianos foram torturados pela Gestapo. Quatro deles acabaram sendo mortos pelos nazistas; Nikolai Korotkykh, Nikolai Trusevich, Ivan Kuzmenko e Alexei Klimenko. Dos que sobreviveram, a maioria estava tão debilitada fisicamente que nunca mais puderam jogar futebol.

Após o término da guerra e a derrota dos nazistas, o Start voltou a se chamar Dínamo de Kiev. Uma estátua foi construída em homenagem aos quatro jogadores mortos. Mais detalhes sobre essa emocionante história podem ser encontrados no livro "Futebol e Guerra", escrito pelo jornalista britânico Andy Dougan, publicado no Brasil pela editora Jorge Zahar.

Túlio Vilela formado em história pela USP, é professor da rede pública do Estado de São Paulo e um dos autores de "Como Usar as Histórias em Quadrinhos na Sala de Aula" (Editora Contexto).

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