História geral

Guerra do Vietnã - origens: Do domínio francês à Conferência de Genebra

Gilberto Salomão

A Guerra do Vietnã tem suas origens mais remotas na década de 1930. Contudo, seu desdobramento mais dramático é produto direto da realidade desencadeada pela Segunda Guerra Mundial. Os dois componentes mais efetivos do período posterior à Segunda Guerra - a Guerra Fria e o processo de descolonização - encontraram no Vietnã um palco dramático para sua manifestação.

Alan Spencer, ativista político norte-americano durante a década de 1960, assim se referiu à Guerra do Vietnã: "Meu avô nasceu em 1891 e sempre falou da Primeira Guerra Mundial como a 'Grande Guerra'. Meu pai lutou na Segunda Guerra Mundial. Eu nasci em 1952 e aprendi a enxergar o mundo com a Guerra do Vietnã. Toda geração tem sua guerra. Essa foi a nossa". De fato, em meio à efervescência cultural da década de 1960, a Guerra do Vietnã representou a iniciação política de toda uma geração.

Poucas vezes na história da humanidade um conflito cercou-se de tanto significado político. E também foram poucas as vezes em que a ação social e as manifestações de repulsa foram tão decisivas para o seu resultado.

Os domínios francês e japonês

Contudo, ainda que esteja indissociavelmente articulada na memória coletiva à década de 1960, para compreender a Guerra do Vietnã devemos nos reportar ao domínio do colonialismo francês na Indochina, que teve início entre 1883 e 1885, inserido em um movimento maior, ao qual damos o nome de neocolonialismo.

Depois de anos vivendo sob o controle da França, na década de 1930 iniciou-se um movimento visando expulsar os franceses, o que deu origem à Frente de Libertação do Vietnã (FLV). Seu líder, Ho Chi Minh, criou, em 1936, um braço armado da FLV, denominado Viet Minh.

A luta, num primeiro momento desigual e infrutífera, sofreu diretamente o efeito da Segunda Guerra Mundial. Em 1940, a França rendeu-se à Alemanha, foi ocupada e suas colônias partilhadas entre os países do Eixo (grupo formado, durante a Segunda Guerra Mundial, por Alemanha, Itália e Japão), cabendo o Vietnã ao Japão. O imperador Bao Dai, que até então servira aos franceses, foi mantido no trono como um títere japonês.

O militarismo japonês, totalmente mobilizado por causa da participação na Segunda Grande Guerra, tornou impossível ao pequeno Viet Minh qualquer ação mais efetiva. A situação do Vietnã só se alterou com a bomba de Hiroshima e a consequente rendição do Japão.

Os acordos do pós-guerra garantiram à França a posse de sua antiga colônia. Assim, Bao Dai, que havia servido aos franceses e depois aos japoneses, tornou-se, novamente, um marionete dos franceses. Com isso, a luta do Viet Minh também voltou a ter a presença francesa como alvo.

Mudança da conjuntura

Entretanto, a realidade do final da década de 1940 trazia elementos novos e de potencial explosivo para a região. Em 1949, Mao Tsé-Tung, liderando um grupo de revolucionários comunistas, tomava o poder na China. O espectro do alastramento do comunismo pelo mundo ganhava um componente gigantesco com a criação de um Estado comunista no país com maior população do mundo.

No mesmo ano, a Indonésia libertou-se do domínio holandês, com seu novo governo, liderado por Ahmed Sukharno, iniciando uma aproximação com o governo comunista da China e colocando-se como uma referência para as novas nações independentes.

Ante a incapacidade francesa de conter a luta nacionalista no Vietnã - como, aliás, ela já demonstrava para manter suas demais colônias; entre elas, a Argélia, na África -, o risco de um alastramento ainda maior do "perigo vermelho" fazia dos EUA, única potência capitalista restante, o responsável por deter o rastilho de pólvora que poderia incendiar todo o Oriente.

Saliente-se que, durante a guerra do Viet Minh contra a França, foram inúmeras as propostas de intervenção militar norte-americana na região ou mesmo de utilização de uma bomba atômica, então vista como a grande arma para vencer a Guerra Fria, a fim de acabar com a luta do Viet Minh.

Derrota francesa e Conferência de Genebra

Em 1954, os franceses foram finalmente derrotados na batalha de Diem Biem Phu, selando sua saída da Indochina. Para negociar a paz, o governo francês convocou, no mesmo ano, a Conferência de Genebra. Formalmente, o objetivo dessa conferência era o de reconhecer a independência do Vietnã e também de suas duas outras ex-colônias na Indochina, o Laos e o Camboja, além de formalizar a instalação de novos governos nesses países.

Contudo, a ação dos EUA, com a conivência do governo da União Soviética, foi decisiva para que se frustrasse a independência efetiva desses países. Durante a Conferência de Genebra, os EUA propuseram que o Vietnã fosse dividido em duas partes: a porção ao norte, onde o Viet Minh era mais forte, ficaria sob controle de Ho Chi Minh, tendo Hanói como capital. No sul, com capital em Saigon, permaneceria Bao Dai no poder, com um governo pró-ocidente.

O acordo previa, ainda, a realização de eleições em 1956, com um candidato indicado pelo governo do Norte e outro pelo do Sul, de modo que quem ganhasse a eleição unificaria o país.

Gilberto Salomão formado em história pela USP, é professor do Curso Intergraus e autor dos livros de história do Sistema de Ensino Poliedro.

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