História geral

Império Romano - Baixo Império: Crises e decadência

Gilberto Salomão

(Atualizado em 25/06/2014, às 18h07)

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    A Muralha de Adriano foi construída em 122 d.C. durante o reinado do imperador romano Adriano. Ela era a mais fortificada fronteira do Império Romano, com 120 km de comprimento.

    A Muralha de Adriano foi construída em 122 d.C. durante o reinado do imperador romano Adriano. Ela era a mais fortificada fronteira do Império Romano, com 120 km de comprimento.

Chamamos de Baixo Império o período final do Império Romano do Ocidente, caracterizado por sua decadência e queda, em 453, em meio às invasões dos povos germânicos. A origem mais remota dessa crise está diretamente ligada à combinação entre a estrutura econômica do Império e sua incapacidade de dar sequência à saga de conquistas, única forma capaz de manter os domínios de Roma.

Fronteiras naturais

Roma expandiu-se, ao longo da República e início do Império, até onde as fronteiras naturais fossem capazes de resguardar seus domínios. Ao sul, a fronteira natural era o Saara, impossibilitando invasões advindas do centro e do sul da África. A oeste, o Império estendia-se até o Atlântico, garantindo sua fronteira ocidental com o domínio da Bretanha. A fronteira oriental do Império era garantida pelo deserto da Arábia, o Cáucaso, o mar Negro e as montanhas do planalto iraniano. Ao norte, os rios Reno e Danúbio eram os principais componentes do limes.

Assim, conforme vimos, o Alto Império buscou apenas consolidar os domínios romanos. Mesmo as conquistas da Dácia e da Mesopotâmia obedeceram ao critério do guarnecimento em fronteiras naturais. No caso da primeira, ela levava o Império até os montes Cárpatos. A segunda, apenas estendia seus domínios por um vale imensamente fértil, mas facilmente defensável pela presença dos rios Tigre e Eufrates e pelo caráter montanhoso e desértico de seu entorno.

Dessa forma, percebemos que as conquistas romanas cessaram pela total inexistência de áreas a conquistar. Ao norte do Império, por exemplo, além do Reno e do Danúbio, estendia-se uma vasta planície que, praticamente sem interrupções, seguia até os montes Urais, criando uma região gigantesca e impossível de ser defendida.

Consequências do fim das conquistas

Embora fundamental de imediato para consolidar o domínio romano, o fim das conquistas trouxe consigo efeitos que, a longo prazo, se revelariam desastrosos para as estruturas do Império.

Em primeiro lugar, o ímpeto de conquistas havia gerado a formação de um gigantesco e dispendioso exército, que só poderia ser mantido se Roma fosse capaz de garantir a manutenção do fluxo de riquezas obtido com as guerras e vitórias. Assim, a estabilidade das fronteiras tornou-se frágil diante das dificuldades de se garantir o abastecimento de todo o exército.

Além disso, o fim das conquistas trouxe um efeito sobre a estrutura de mão-de-obra do Império. Conforme vimos anteriormente, grande parte da economia romana assentava-se sobre a mão-de-obra escrava, cuja fonte de abastecimento mais forte era o afluxo de prisioneiros de guerra estrangeiros. As péssimas condições de vida, o alto índice de mortalidade, a baixa expectativa média de vida, além do pequeno índice de natalidade dos escravos, pelo fato de que o número de mulheres escravas era sempre mais baixo, geravam um crescimento vegetativo negativo.

A esse dado some-se o efeito da pregação cristã, que, ao defender a igualdade e negar a escravidão, servia de estímulo a fugas e revoltas de escravos. A única forma de repor essa mão-de-obra seria por meio das conquistas, cessadas desde o início do século 1.

Crise econômica

Assim, lentamente, o número de escravos declinou ao longo do Alto Império, chegando, no século 3, a uma situação de escassez definitiva. E o primeiro efeito da crise do escravismo foi a crise econômica, gerando alta de preços, escassez e desabastecimento das cidades.

Tal situação obrigava o Império a um aumento sistemático das importações de produtos agrícolas, inclusive de regiões de fora do Império. Isso significava um aumento da saída de moedas do Império, agravado pelo fato de as minas de metais preciosos estarem esgotadas. Outro elemento agravante era a alta natural de preços gerada pela escassez. O somatório desses elementos gerou uma grave crise financeira que, por sua vez, provocou o declínio do comércio e de toda a atividade urbana.

Algumas medidas foram tentadas para deter a crise. Ainda no final do século 3, o imperador Diocleciano decretou o Edito do Máximo, limitando salários e preços de uma série de gêneros. Mas eram medidas meramente paliativas ante a dimensão de uma crise que, longe de ser passageira, apresentava um caráter estrutural.

O agravamento da crise passou, já a partir do século 4, a apresentar efeitos militares e administrativos. Ocorreu o desequilíbrio entre a força do Exército e a massa de bárbaros que pressionava as fronteiras do Império. Desequilíbrio esse que era apenas a consequência mais visível de outros importantes desequilíbrios: entre as despesas do Estado e sua arrecadação; entre a produção e o consumo; entre o campo e a cidade; e entre a proporção de escravos e a de homens livres.

Toda a estrutura social, econômica e administrativa do Império começava a se desagregar. O enfraquecimento do Exército tornava o Império mais vulnerável a revoltas de províncias e de escravos, enfraquecendo-o ainda mais. Ao mesmo tempo, tornava mais desprotegida a extensa fronteira do Império. Era o princípio da desintegração.

Gilberto Salomão formado em história pela USP, é professor do Curso Intergraus e autor dos livros de história do Sistema de Ensino Poliedro.

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