História geral

Islamismo (2): O Império Árabe

Érica Turci

Maomé unificou as tribos árabes sob um único Estado baseado na religião islâmica e se tornou o primeiro chefe político e líder religioso da comunidade muçulmana (a ummah). Desde então, para os árabes, a política e a religião estão interligadas: para um muçulmano ser um bom cidadão deve seguir as palavras sagradas de seu profeta Maomé.

Quando Maomé faleceu, em 632, os árabes não sabiam como a ummah deveria se organizar sem a liderança do profeta, sequer sabiam quem seria seu sucessor. Os árabes não conheciam o principio de sucessão hereditária, já que, em suas tribos, os líderes eram eleitos. Além disso, os filhos homens de Maomé tinham morrido quando ainda eram crianças.

Alguns muçulmanos chegaram a propor que o sucessor (califa) deveria ser Ali ibn Abi Talib, que era primo do profeta e, também, era casado com Fátima, uma das filhas de Maomé. No entanto, a ummah escolheu um dos sogros de Maomé, Abu Bakr, como califa, já que ele tinha sido um dos primeiros a se converter ao Islã.

Durante o curto governo de Abu Bakr (632-634), diversas tribos buscaram retornar à sua independência tradicional. Então, Abu Bakr se dedicou à tarefa de reconquistar as tribos através de guerras que acabaram por ultrapassar o próprio território dos árabes.

Por essa época, dois grandes impérios cercavam a península Arábica: o Persa e o Bizantino, mas tanto um quanto o outro estavam enfraquecidos, depois de décadas de batalhas. Abu Bakr, então, iniciou a conversão dos árabes que viviam dentro das fronteiras desses impérios.

Umar ibn al-Kattab, ou simplesmente Omar , também um dos primeiros seguidores de Maomé, foi indicado por Abu Bakr como segundo califa e governou entre 634 e 644. Omar foi responsável pela expansão árabe-muçulmana, conquistando a Síria, a Palestina, o Egito e parte da Pérsia.

Omar foi sucedido por Uthman ibn Affan (644-656) e foi sob o governo desse califa que o texto oficial do Corão foi confeccionado e as conquistas árabes ampliadas pelo norte da África e pela Ásia Menor, além de a Pérsia ter sido definitivamente dominada.

Com as guerras de conquista, os califas puderam unificar ainda mais os árabes, pois canalizaram a sua cultura bélica e as razias (saques) para fora do Estado Árabe. O ideal que norteou essas conquistas é chamado de jihad, ou seja, o “esforço”, a “perseverança” dos muçulmanos na palavra de Maomé, e a necessidade de espalhá-la pelo mundo, mesmo que através da guerra.

De maneira geral, os povos conquistados aceitaram o domínio árabe, já que passaram a ser muito menos explorados do que eram na época do domínio persa e bizantino, e poderiam manter suas culturas e formas de vida tradicionais. Os cristãos e os judeus (considerados “Povos do Livro” e fiéis ao mesmo Deus) recebiam tratamento especial.

A princípio, os árabes não interferiram na forma administrativa dos povos dominados, somente os obrigavam a pegar impostos. Nem mesmo a conversão ao Islã era incentivada, pois isso transformaria o convertido em um membro da ummah, o qual não poderia ser excessivamente tributado, com uma consequente redução dos rendimentos dos árabes.

Apesar da resistência árabe em aceitar a conversão, isso acabou ocorrendo, tanto pela força da guerra, quanto pela força da palavra sagrada do profeta, ou até mesmo porque o novo convertido tinha interesse em se livrar dos inúmeros impostos cobrados. Assim, a partir desse momento, ser muçulmano (“fiel” ao islã) deixou de significar ser árabe. Hoje em dia, por exemplo, europeus, norte-americanos e mesmo brasileiros se convertem ao islamismo. De qualquer modo, a língua árabe acabou sendo adotada pela maioria dos novos muçulmanos do passado - os persas, por exemplo -, já que o Corão é um livro para ser recitado no original, pois representa a palavra de Alá ditada nessa língua a Maomé.

Durante o califado de Uthman, a extensão territorial do Império dificultou a administração a partir da cidade de Medina, e a enorme riqueza conquistada gerou a corrupção entre as elites árabes. Diante dessa situação, o grupo que defendia Ali ibn Abi Talib, primo e genro de Maomé, como califa ganhou força. Uthman acabou sendo assassinado e Ali se tornou o quarto califa (656). Mas uma guerra civil estourou entre os muçulmanos, pois Ali foi acusado pelo assassinato de Uthman.

Da disputa entre os partidários de Ali e os partidários de Uthman, surgiram dois grupos políticos inimigos entre os muçulmanos:

- os xiitas (Shiah-i-Ali), os “partidários de Ali”, uma minoria muçulmana que defendia que somente familiares do profeta poderiam governar a ummah, pois acreditavam que o líder político deveria ser também um imã (guia espiritual).

- os sunitas: que se opunham aos xiitas, defendendo que Maomé já tinha completado toda a Revelação divina e que, portanto, não havia necessidade de um imã. O nome sunita vem de Sunna, conjunto de textos que tratam da vida e dos ditos do profeta.

Os xiitas não aceitaram (nem aceitam hoje) a Sunna como norteadora da vida política muçulmana. Uma guerra civil se alastrou e o conselho das tribos, composto pelos sheiks (lideres tribais), se dividiu entre as duas facções. Assim os ulemás, a elite de estudiosos do Corão e da tradição (hadith), foram convocados para julgar uma solução para o problema.

Propuseram a abdicação de Ali, mas ele não acatou essa decisão. Por causa disso muitos de seus partidários se afastaram dele e formaram um grupo dissidente, os kharijitas (“aqueles que partem”). Enquanto isso, Muawiya, sobrinho de Uthman, ganhava prestígio. Ali acabou sendo assassinado por um kharijita, em 661, e Muawiya foi aclamado o quinto califa.

Dinastia Omíada

Com Muawiya iniciou-se o período dinástico do império árabe-muçulmano, ou seja, os califas não seriam mais escolhidos pela ummah, pois a sucessão passaria a ser hereditária. A primeira dinastia foi a dos omíadas, uma poderosa família da tribo dos coraixitas de Meca, da qual Muawiya fazia parte. Ele transferiu a capital islâmica para Damasco, na Síria, uma cidade localizada na região central do império.

Vários grupos muçulmanos (principalmente os xiitas) não aceitaram o governo dinástico e se rebelaram. Quando Muawiya morreu (680), os xiitas passaram a defender que o sucessor deveria ser Hussein, filho de Ali e neto de Maomé, mas quem assumiu o califado foi Yazid, filho de Muawiya. E mais uma vez uma guerra civil estourou.

As tropas de Yazid massacraram os rebeldes na Batalha de Karbala (na Mesopotâmia, em 682). Hussein se tornou um mártir para os xiitas e até hoje o dia da morte de Hussein é lembrada por eles com a cerimônia da Ashura.

Os omíadas retomaram as guerras de conquista, anexando o norte da África e a península Ibérica (que nessa época estava sob domínio dos visigodos). Os muçulmanos tentaram penetrar na Europa, mas foram derrotados pelos francos na Batalha de Poitiers (na França, em 732). Enquanto isso, no oriente, o Paquistão e o norte da Índia caíram sob domínio muçulmano.

Esse vasto império exigiu que a elite árabe dominante se reorganizasse. A influência bizantina transformou a corte do califa: a riqueza, o luxo e o poder autocrático passaram a ser adotados pelos árabes. O mais importante órgão do governo, depois do califa, era o Shura, o conselho dos sheiks. Para o governo de cada província do império o califa nomeava um emir, como forma de centralizar o governo.

Ao mesmo tempo em que crescia o poder da elite árabe sunita ligada ao califa omíada, os muçulmanos de todo império se rebelavam e buscavam no texto sagrado (o Corão) argumentos que defendessemm a vida simples do profeta. Muitos muçulmanos passaram a apoiar o xiismo, como forma de defender sua autonomia inicial e se colocar contra a elite sunita (exemplo: os persas ou iranianos).Sem poder conter as diversas ondas de rebeliões dos muçulmanos não-árabes, os omíadas foram derrubados (750) e Muhammad ibn Alt ibn al-Abbas, parente de Maomé, se tornou o novo califa, iniciando a dinastia dos abássidas.

Abbas transferiu a capital para Bagdá (no atual Iraque), privilegiando assim os territórios orientais, os mais ricos do império. Nessa ocasião, os árabes já eram uma minoria entre todos os muçulmanos, então Abbas se cercou de uma elite composta por várias etnias e deu a todos os muçulmanos a condição de igualdade política e jurídica, ou seja, a ummah se tornou legalmente multiétnica.

Como Abbas era parente de Maomé, seu califado se revestiu de um caráter sagrado e, assim, foi aceito pelos xiitas, o que garantiu um período de paz e prosperidade dentro do império. O período abássida é considerado como a época de maior esplendor do império árabe-muçulmano. De todas as partes do império chegavam tributos e riquezas. O ouro vinha principalmente da África, a prata e pedras preciosas vinham do oriente, perolas chegavam do Golfo Pérsico. Os árabes eram comerciantes de escravos, provenientes tanto da África quanto da região do Cáucaso.  A indústria têxtil foi a que mais se desenvolveu: o linho egípcio, o algodão importado da Índia, a seda da Pérsia.

Caravanas de comércio cruzavam todo o império, chegando até a China. E inúmeras cidades muçulmanas se desenvolveram a partir do comércio. Entretanto, aos poucos o imenso território do império, composto por muçulmanos de diversas etnias, acabou se fragmentando, e o califa não conseguiu mais manter o governo centralizado em suas mãos. Em cada província, os emires (governadores), apoiados em seus exércitos, se proclamavam independentes.

A primeira província a desmembrar-se foi o Egito que, em 909, formou o Califado Fatimida. Depois, foi a vez do Emirado de Córdoba (em 929, na Espanha). Assim, a partir de meados do século X, com o enfraquecimento do poder central de Bagdá, em várias regiões, as elites locais passaram a governar, de fato, as províncias que ainda compunham o império. No entanto, o processo de esfacelamento seria irreversível. No século XIV, o que se chamou de império árabe já não existia mais. Convém lembrar que, apesar disso, a cultura islâmica se manteve nos territórios ocupados pelos árabes até os dias de hoje. Atualmente, esses diversos países mantêm uma unidade religiosa e cultural, o que nos permite falar na existência de uma civilização muçulmana.

Érica Turci é historiadora e professora de história formada pela USP.

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