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O Ateneu : Universo de aparências e descobertas de um romance impressionista

Oscar D'Ambrosio, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

Considerado por parte da crítica um romance realista; e, por outros, um exemplo único de obra impressionista na literatura brasileira, O Ateneu, de um modo ou de outro, constitui um exercício literário ímpar de Raul Pompeia.

O livro, publicado em 1888, narra a história de Sérgio, um menino que é enviado para um colégio interno renomado na cidade do Rio de Janeiro, denominado Ateneu. O diretor, chamado Aristarco, busca preservar regras e princípios rígidos da aristocracia. O resultado é um questionamento da sociedade brasileira do final do século XIX.

A memória é a base do narrador Sérgio para refletir sobre o seu passado e o de uma época. Se há autobiografia do escritor, existe também um competente processo de lidar com a imaginação. Desse diálogo surge uma permanente reflexão sobre o passado. O tempo todo é erguido em um mundo rico de sentidos e sutilezas.

Os exageros na descrição das figuras de ficção convivem com a habilidade de apresentar plasticamente as situações. Existe um primor no desenvolvimento dos personagens, cada um com particularidades próprias, mas sempre dentro de uma linha de raciocínio em que eles surgem caricatos e deformados como forma de crítica social.

A reconstrução do passado não é feita de maneira exata e documental, mas dentro de uma óptica em que a realidade surge transformada, caracterizada pela subjetividade e pela constatação permanente de que o ponto de vista do narrador é o mais importante. Fatores como condição social e sexualidade são muito importantes na definição das opiniões e do caráter de cada criatura do livro.

Uma figura relevante é o doutor Cláudio, conferencista que, em suas falas, torna-se um portavoz dos ideais estéticos de Pompeia. Suas conferências são sobre cultura brasileira, arte e relações entre escola e sociedade, sempre com um olhar indagador sobre o cotidiano e sobre aquilo que consideramos realidade.

Um elemento muito valorizado nas relações humanas da obra é a sexualidade. Assim, o espaço do internato é um microcosmo das relações humanas nas mais variadas situações. O mundo que conhecemos encontra ali as mais diversas expressões.

O dinheiro é visto como um elemento fundamental, e Aristarco, o diretor, trata os alunos de acordo com as posses e a situação econômica de cada um.

O sistema educacional como um todo recebe um olhar arguto e questionador, onde as aparências são mais importantes que as essências.

Um elemento interessante é considerar que a sociedade do internato é um reflexo do mundo externo. Desse modo, o tempo do romance, desde a entrada de Sérgio no colégio até o incêndio que o destrói dois anos depois, é recuperado por meio de um flash back seletivo e que apresenta o mundo como um organismo vivo, pleno de defeitos.

Sérgio, ao sair de casa e ingressar no mundo do Ateneu, conhece tanto o autoritarismo como a amizade e, acima de tudo, o universo das aparências, representado por Aristarco, sempre pronto a cuidar da parte estética da escola, mas nada afeito a admitir questionamentos mais profundos de suas atitudes, sendo um modelo de conservadorismo a ser combatido pelos mais jovens, plenos de ideais de liberdade.

Oscar D'Ambrosio, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação é jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp), crítico de arte e integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica - Seção Brasil).

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