Português

Se não ou senão?: Aprenda a usar essas expressões

Jorge Viana de Moraes, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

1. Grafa-se SE NÃO quando o "se" for:
a) conjunção condicional;
b) conjunção integrante;
c) pronome apassivador ou pronome reflexivo; e
d) índice de indeterminação

seguidos do advérbio de negação "não". Vejamos caso por caso:

a) O "se", conjunção condicional, e o "não" servindo para tornar a proposição negativa:


  • Voltarei a falar com você se não for resolvido esse problema. (= caso não seja)

    b) O "se", conjunção integrante, seguido do advérbio de negação "não":
  • Os deputados de oposição perguntaram se não haveria um maior reajuste nas contas do governo.

    c) O "se", pronome apassivador ou pronome reflexivo, seguidos de "não", advérbio de negação:
  • "- Há coisas que se não dizem.
    - Que se não dizem só pela metade; mas já que disse metade, diga tudo." (Machado de Assis, Dom Casmurro, cap. CXXXVIII [138]).
    Observação: O uso que Machado de Assis faz está corretíssimo, ainda que comumente falemos: "que não se dizem".

    d) O "se", índice de indeterminação, mais o advérbio "não":
  • Lugares onde se não vive tranquilamente. (Odilon Soares Leme, Tirando dúvidas de português)
    Observação: também aqui normalmente falamos: "Lugares onde não se vive...".

    2. Grafa-se SENÃO quando tal forma for:
    a) preposição - com o sentido de "a não ser", "exceto", "salvo":
  • "Morte, em ti quero agora/ Esquecer que na vida/ Não fiz senão amar." (Manuel Bandeira, Canção para minha morte, Estrela da vida inteira)

    b) conjunção com o sentido de "mas sim, "porém" e "e sim":
  • Meu receio não era da prova em si, senão da fria sala de exame e do fiscal que mais parecia um robô programado para matar.

    c) substantivo, com o sentido de "defeito", "erro", etc. Por ser substantivo, admite-se, se for o caso, flexão de número:
  • Salvo um senão ou outro, sua apresentação foi bem sucedida.
  • Devido a vários senões gramaticais, aquele texto ficou bastante comprometido.

    3. Grafa-se SENÃO ou SE NÃO:
    a) Odilon Soares Leme (em Tirando dúvidas de português, Ática, 1992, p. 33) admite que "depois de uma ordem ou proposição opinativa (que sugira, portanto, uma ordem, recomendação ou suposição) o senão é conjunção, com valor de 'do contrário', 'de outro modo', 'quando não'". Trata-se, pois, segundo o autor, de uma oração condicional da qual se subentende o verbo ou o auxiliar da oração antecedente. Quando, porém, se fizer uma pausa enfática (por meio de vírgula ou reticências), diz Leme, grafar-se-á se não. Eis os exemplos apresentados por ele:
  • Estude, senão você será reprovado. (= Estude; se não estudar, você será reprovado.)

    O autor ressalta ainda que por isso, a respeito deste emprego, o Dicionário Aurélio nota que "se usará se não, virgulando-o, se houver pausa enfática". Daí, segundo o autor, as duas possibilidades oferecidas pelo dicionarista:
     
  • Lute, senão está perdido.
  • Lute; se não, está perdido.
     
  • "Carece discutir alguma coisa,
    senão o tempo vira mármore
    gelado..." (Drummond apud Leme, p. 34)
     
  • "Se a consternasse é que realmente gostava de mim; se não, é que não gostava." (M. Assis, Dom Casmurro, cap. XIII [13] apud Leme, p. 34).

    b) Ainda, segundo o mesmo autor, quando se quer valorizar uma afirmação. Apresenta-se ao leitor uma retificação provável. Senão/ se não equivale a "ou" e "quando não". E dá os seguintes exemplos:
  • É muito difícil, senão impossível, prever o resultado.
  • "... mas há matérias tais que trazem ensinamentos interessantes, senão agradáveis." (M. Assis, Dom Casmurro, cap. CXIV, p. 126 apud Leme, p. 35).

    Para exemplificar o se não, o autor recorre ao Dicionário Aurélio, que se refere a esse caso como "frases onde há alternativa, incerteza, imprecisão, equivalendo o se não, portanto, a ou".
  • Comprarei duas estantes se não três. (= ou três)
  • É rico, se não riquíssimo. (= ou riquíssimo)
  • Compadeceu a maioria dos convidados, se não todos.

    Odilon Soares Leme Leme, em nota final à lição, reconhece que nesses casos fica subentendido o verbo, mas afirma também que a prática de bons escritores mostra que a grafia pode ser tanto senão quanto se não.

Jorge Viana de Moraes, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação é mestre em Letras pela Universidade de São Paulo. Atua como professor em cursos de graduação e pós-graduação na área de Letras.

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