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Sinais de pontuação - Origem histórica dos sinais

Jorge Viana de Moraes, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

Ao lermos, nem nos passa pela cabeça que a escrita nem sempre foi assim. Mas... nem sempre foi assim como? Ou seja, com todos estes sinais, além das letras é claro. Até mesmo o espaçamento entre as palavras não existia e aos poucos foi introduzido.

Quando olhamos para o passado vemos que a escrita também tem uma história, e que, atualmente, usufruímos de séculos de contribuições das mais variadas pessoas e culturas. O professor Antenor Nascentes nos legou um excelente estudo sobre este assunto, que apresentamos aqui com algumas adaptações.

Observe o texto a seguir:
 

BASILEOSELTHONTOSESELEPHANTINANPSAMMATICHOUTA
UTAEGRAPSANTOISYNPSAMMATICHOITOITHEOKLEOEPLEON
HELTHONDEKERKIOSKATYPERTHENESOPOTAMOSANIEALLO
GLOSSOUSDHCHEPOTASIMTOAIGYTIOUSDEAMASISEGRAPSE
DAMEARCHONAMOISBICHOUKAIPELEQOS OUDAMOU.

Nesta inscrição as palavras aparecem aglutinadas umas às outras, sem interrupção. Separando-as:


BASILEÓS ELTHO'NTOS ES ELEPHANTI'NAN PSAMMATI'CHOU TAÛTA E'GRAPSAN TOÌ SY'N PSAMMATI'CHOI TOÎ THEOKLE'OS E'PLEON HE'LTHON DE KER'KIOS. KATYPERTHEN ES O POTAMÒ S ANI'E ALLOGLOSSOUS D'ÊCHE POTASIMTO'. AIGYPTI'OUS DÈ A'MASIS E'GRAPSE D'AMÈ A'RCHON AMOÍSBÍCHOU KAÌ PÈLEQOS OUDA'MOU.

Tradução:


Vindo a Elefantina o rei Psamético, estas coisas escreveram os que vinham com Psamético, filho de Teocles. Foram além de Kerkis tão longe quanto o rio permitiu. Potasimto comandava os estrangeiros; Amasis, os egípcios. São Arcaonte, filho de Amobicos e Pelecos, filho de Udamos, que escreveram nossos nomes.

Este sistema perdurou por muitos séculos.

Das inscrições lapidares passou-se aos papiros e pergaminhos e foi graças sobretudo à paciência dos monges medievais (Monte Cassino) que se procedeu à separação que atualmente usamos.

Atribui-se o uso da acentuação ao gramático de Alexandria chamado Aristófanes de Bizâncio (260 a. C.).

O sistema de Aristófanes, criado para facilitar a leitura dos textos clássicos de Homero, apesar de ensinado nas escolas, não teve adesão.

Foi somente a partir do século sétimo que a separação das palavras se tornou frequente e a partir do século nono que a acentuação e a pontuação, muito irregularmente aliás, foram postas em prática e ainda no século 13 aparecem manuscritos sem elas.

Só no século 17 elas entram plenamente em uso.

Os acentos não aparecem ainda nas primeiras gramáticas portuguesas, como as de João de Barros (1540) e Fernão de Oliveira (1536).

O timbre aberto era dado pela duplicação das vogais a, e e o. O ponto, às vezes, se colocava entre cada palavra. Depois, seu uso se restringiu.

João de Barros, que chama ponto às notações sintáticas, distingue: a coma, o colo, a verga, o parêntesis e a interrogação.

Dizia o gramático português que era vocábulo grego a que podemos chamar cortadura, porque ali se corta a cláusula em duas partes. Estas duas partes se cortam em vírgulas que são "as distinções das partes da cláusula".

Colo é o termo ou o marco em que se acaba a cláusula.

Dois arcos constituem o que os gregos chamam parêntesis e os romanos entreposição (a interpositio, de Quintiliano).

Aos dois pontos escritos onde a pergunta acaba, chamam-se interrogativas. No século XVII, Duarte Nunes de Leão, além da vírgula (,), da coma (:) e do colo (.), ocupa-se com o ponto e vírgula (embora não lhe dê este nome), o ponto interrogativo, o admirativo, o parágrafo e o meio círculo. De suas palavras infere-se que o ponto e vírgula era de uso recente na época dele.

"De outro ponto, diz, usão agora alguns modernos, que consta de hum colon, na parte superior, & h?as virgula na inferior assi ;" (De outro ponto usam agora alguns modernos, que consta de um cólon, na parte superior, e uma virgula na inferior assim: ;)

O ponto interrogativo nada mais era senão uma variante da letra Q em forma de um gancho. Este sinal era uma abreviatura da palavra latina QUAESTIO (pergunta). O ponto inferior é a última letra de QUAESTIO. O ponto interrogativo é palavra latina Io, do grego Io, o grito de alegria das bacantes, isto é, sacerdotisas do culto de Baco (deus romano equivalente ao grego Dionso, especificamente deus do vinho, das festas, do lazer e do prazer).

O símbolo do parágrafo era então um triângulo retângulo com um dos lados numa linha horizontal superior e outro numa vertical.

O meio círculo era o segundo arco do parêntesis ( ) ).

Em 1734, em Portugal, João de Morais Madureira Feijó publicou Ortographia ou arte de escrever e pronunciar com acerto a lingua portugueza, obra em que já fala nos dois pontos e no ponto e vírgula.

Dá o parêntesis com a forma atual. Já apresenta o sinal §, explicando que são dois ss compridos aglutinados e significando signum sectionis, sinal de seção ou divisão. Alguns o chamam artículo ou aforismo. Informa que se usa nas postilhas e livros de Direito, Filosofia e Teologia, quando de um tratado se passa a outro. Hoje em dia, o § só aparece na redação de leis e regulamentos.

As reticências, o travessão e as aspas são os mais recentes sinais de pontuação. Já aparecem na Ortografia da língua portuguesa, de Duarte Nunes de Leão (1606). No século 18, Madureira Feijó (1739) declara dispensável o acento grave, que aliás durou até o começo do século 19, indicando um timbre fechado (Morais). O acento grave caiu em desuso, só vindo a reaparecer quando, no fim do século, Gonçalves Viana apresentou sua reforma ortográfica.

Outras notações léxicas são a cedilha, o til, o trema, o hífen, o asterisco e o apóstrofo. A cedilha, de origem espanhola (cedilla), na descrição de Fernão de Oliveira, é um c menor, virado e posto em baixo.

Na realidade era um pequeno z. Cedilha ou zedilha é diminutivo de zeda. Colocava-se sob o c para dar-lhe o valor antigo de ts, hoje s, diante de qualquer vogal. Atualmente só se coloca debaixo do c que precede a, o e u e mesmo diante destas vogais, quando inicial o c, foi substituído por s: sapato e não çapato. O til, de origem espanhola, é a forma a que chegou a um pequeno n indicativo do n palatizado (nh). Na língua espanhola se coloca em cima do n, em português ele aparece sobre as vogais nasais a e o. Em português adotou-se a notação provençal nh para o n palatizado.

O hífen, chamado divisão por Duarte Nunes de Leão e conjunção por Madureira Feijó, era formado por um traço pequeno horizontal, um v e outro traço horizontal. Perdeu depois o v e os dois traços foram reduzidos a um.

O asterisco aparece em Duarte Nunes de Leão e permaneceu até hoje sem alteração.

Das notações sintáticas, algumas já vêm da Antiguidade, como o ponto. Os gregos tinham stigmé, que podia ser mése, o ponto no alto, ou teteia, o ponto final. Os romanos tinham o punctum, o furo feito pelo estilete. As aspas foram inventadas pelo impressor francês Guillaume. Em francês, guilemets, palavra abonada desde 1677 (Bloch).

Há um sinal desaparecido, o ângulo, em forma de um v virado para cima. Punha-se o ângulo quando se esqueciam palavras. Colocava-se na entrelinha ou na margem do escrito. Isso nós fazemos ainda hoje em textos manuscritos, quando esquecemos de alguma coisa ou queremos acrescentar.

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