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Vencedores da Olimpíada de Língua Portuguesa 2010: O afago inesperado

Aluna: Caroline de Farias Couto da Silva
Professor: José Moacir Fortes Saraiva
Escola: Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia; Cidade: Valença – BA

Estava sentada havia horas no banco desconfortável da Praça da República, centro de Valença, pertinho da Rua Deocleciano Gomes, onde moro. Nada me chamava a atenção. Apenas o cansaço e o sono me tomavam. Três semanas de avaliações e trabalhos escolares esculpidos na minha postura encurvada e no meu olhar caído. De súbito, o som de buzinas me fez despertar para um engarrafamento que estava acontecendo na minha frente; nada incomum: uma fileira de carros de variadas cores e diversos modelos, novos e velhos, motoristas estressados e impacientes.

Já voltando a abaixar o olhar, um garoto passa correndo em direção à rua. Passaria despercebido por mim, como tantos outros, jeito malandro, roupas velhas, pouca idade (entre oito e dez anos) e uma caixa que trazia nas mãos. Contudo, não foi assim dessa vez. Minha curiosidade feminina foi aguçada e me fez observar o que faria ele indo em direção aos carros. Parou ao lado de um veículo prata e fez sinal para que abaixassem o vidro fumê. De imediato pensei que se tratasse de um assalto, mas logo desisti da ideia, pois havia
muita gente no local e era apenas uma criança.

A realidade é que a infância está bem mais curta em nosso país, principalmente para os mais pobres. Na minha cidade esse triste fato pode ser fotografado nas ruas. Mas ainda custa admitir e aceitar isso. Bom, no carro, uma senhora aparentando mais ou menos sessenta anos, aparência cativadora e rosto bondoso, perguntou com tranquilidade o que ele desejava. O garoto abriu jeitosamente a caixa e mostrou-lhe. Curiosa, me perguntei: “O que
há ali dentro?” Estiquei-me um pouco e vi balas, jujubas e pirulitos. A senhora, como eu, fez uma expressão de agrado, deixando o garoto animado. Entregou algumas moedas a ele, pegou umas balas e, num gesto amável, alisou os cabelos enrolados, curtos e pretos do menino.

Nesse momento, ele parecia estar no melhor de todos os lugares. Fui contagiada por aquela sensação. Em seguida, ela fechou o vidro. O menino ainda estava parado e feliz quando foi despertado por uma garotinha, também com uma caixa na mão, que o impeliu
a continuar o trabalho. Como saindo de um sonho, o menino seguiu para o próximo carro no qual havia uma jovem. Ao ver os doces, ela afirmou não ter dinheiro. Nesse momento a surpresa: ”Então você passa a mão na minha cabeça?”, perguntou o garoto.

A jovem ficou espantada. Novamente sons de buzinas. Ela deveria seguir, pois o semáforo deu passagem. A moça partiu. Foi-se também o menino. Ficou em mim a emoção e a consciência da carência afetiva dos meninos do lugar onde moro, meninos que, apesar de trabalharem o dia inteiro sem garantia de dinheiro, não passam horas sentados, lamentando cansaço e sono, como eu. Nesse dia aprendi que sou dramática.

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