Sociologia

Utopia política: Pensamento utópico produz mudanças parciais

Renato Cancian, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

Utopia política é uma expressão que serve para caracterizar um ideal ou uma concepção de organização social que é considerada qualitativamente "melhor" se comparada à sociedade do presente.


Outro aspecto importante de uma utopia política é o método ou forma de se concretizar o ideal utópico: às vezes, por meio do uso da força e da violência revolucionárias; e, outras vezes, por meio do ativismo missionário, baseado na ação pacífica, com o intuito de provocar mudanças por meio do convencimento e da persuasão.

As utopias políticas se apresentam como formas predominantemente "puras" de organização social. Elas carregam um discurso ideológico que se apresenta como uma crítica à sociedade em que surgiram e, ao mesmo tempo, como o projeto de um mundo melhor.

A partir desses pressupostos, podemos deduzir que uma utopia política se constitui na forma de um conjunto de valores e princípios que, necessariamente, está em oposição, em desacordo com os valores dominantes da sociedade do presente, em que ela própria surgiu.

 

Tipos de utopias políticas

Como projeções de um futuro melhor, as utopias políticas são construídas sempre a partir de algum tipo de insatisfação com as condições da existência social presente - e, para se concretizarem, estabelecem formas de ruptura com a ordem social.

Historicamente, as utopias políticas se diferenciam pela predominância de alguns elementos que apontam para a construção de uma sociedade futura às vezes mais justa, às vezes mais pacífica e às vezes mais abundante.

Platão

Os exemplos do pensamento utópico são muitos. Na Grécia Antiga, o caso mais notável e influente de pensamento político utópico é a obra do filósofo Platão (428-347 a.C.), denominada A República. Platão foi um severo crítico da democracia e dos valores e princípios éticos em vigor na comunidade grega em que viveu.

Em contraposição ao contexto social em que vivia, Platão idealizou uma organização social altamente hierarquizada, seguindo o esquema de divisão tripartite (filósofos, guerreiros e artesãos), mas considerada por ele fundamental para a construção de uma ordem social na qual o paradigma da perfeição seria o elemento norteador da existência de uma coletividade plenamente harmônica e fraterna.

Marx

Um outro exemplo de utopismo político, mas de origem moderna (porém bastante influente até os dias de hoje), é o pensamento do filósofo Karl Marx. Partindo de uma crítica ferrenha ao modo de produção capitalista, Marx idealizou uma sociedade na qual a socialização (por meio da abolição da propriedade privada e da criação da propriedade coletiva) dos meios de produção seria o meio para se estabelecer o igualitarismo pleno.

Na perspectiva do pensamento marxista utópico, o comunismo seria a última etapa da consolidação de uma sociedade justa e igualitária, etapa em que inexistiria qualquer tipo de contradição e conflito social.

Utopia e mudança social

Como fontes de discursos ideológicos que contemplam projeções sobre um futuro melhor, a partir da criação de uma nova organização social, as utopias políticas têm, historicamente, se transformado em projetos e justificativas para a ação reformadora ou revolucionária.

O pensamento marxista, por exemplo, ao conceber uma sociedade comunista a partir da ruptura com a sociedade capitalista, chegou a influenciar inúmeros movimentos revolucionários e de reforma que deixaram profundas marcas na história dos séculos 19 e 20.

Deve-se levar em conta também que as utopias políticas têm enorme capacidade de se materializar, mas apenas parcialmente. Ou seja, o pensamento utópico pode ser rejeitado na sua totalidade, mas sobrevive devido à aceitação de alguns de seus elementos ou princípios norteadores.

O exemplo do marxismo pode ser novamente mencionado, pois, embora a sociedade comunista idealizada por Marx nunca tenha sido construída (e deixou de ser almejada no mundo contemporâneo), ainda assim, o marxismo produziu incontáveis movimentos de reforma que alteraram o funcionamento das sociedades capitalistas.

Outro exemplo notável nos remete ao filósofo francês, Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), cujos ideais utópicos de organização do poder político, expostos em sua obra clássica, O Contrato Social, fundamentaram doutrinas jurídico-políticas que sustentam a legitimidade do Estado moderno.

Renato Cancian, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação é cientista social, mestre em sociologia-política e doutorando em ciências sociais. É autor do livro Comissão Justiça e Paz de São Paulo: gênese e atuação política - 1972-1985.

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