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Pré-escola de SP usa bonecos para discutir racismo com alunos

Marcelle Souza

Do UOL, em São Paulo

13/05/2014 06h00

Racismo é o tema da aula e a sala parece pequena para a energia de 35 crianças de 4 e 5 anos na Emei (Escola Municipal de Educação Infantil) Guia Lopes, no Limão, zona norte de São Paulo. "Apartheid é quando o negro fica separado do branco", explica uma das alunas no dia em que a reportagem do UOL visitou a escola.

Em outros tempos e em outras escolas, o 13 de maio, data da Abolição da Escravatura no Brasil, era data comemorativa a ser lembrada com direito à lembrança da Princesa Isabel e da Lei Áurea. Mas nessa escola, não. Porque a questão do negro na sociedade é tema de todo dia.

Na atividade, as duas professoras fazem perguntas sobre preconceito, racismo e a vida de Nelson Mandela. Os dedinhos para o alto mostram que a turma está afiada e todos querem falar o que aprenderam nas aulas anteriores. “Mandela foi presidente da África do Sul", diz uma vozinha no fundo da sala. "Ele foi preso", afirma outro aluno. “Ganhou o prêmio da paz”, acrescenta um garoto.

Mas não pense que todos os conceitos foram ensinados para os alunos de uma só vez. O debate sobre racismo faz parte das atividades pedagógicas de todas as turmas da Emei Guia Lopes desde 2011, quando a comunidade escolar adotou o personagem Azizi, um príncipe africano que virou o mascote da escola.

Lei 10.639/03

Esse foi o mote usado para montar um projeto pedagógico para a escola que atendesse à lei 10.639/03, que trata da inclusão do ensino de história e cultura afro-brasileira no currículo escolar. "Durante uma reunião, perguntei às professoras se havia preconceito entre crianças de 4 e 5 anos. Metade delas disse que não e a outra metade não sabia responder", disse a diretora Cibele Racy.

A partir daí, Azizi foi incorporado ao cotidiano da Emei, que tem mais de 400 alunos, e protagonizou um dos primeiros debates sobre racismo com as crianças.“Perguntamos se ele podia casar com a Sofia [que é branca]. No começo, a maioria dos alunos disse que não, porque ele era negro e ela, branca", conta Cibele.

A escola envolveu as famílias na discussão. Pais e mães participaram do debate contando como se conheceram e como começaram a namorar antes dos filhos nascerem. “No fim, os alunos concordaram que, se o Azizi e a Sofia se amavam, poderiam se casar”, explica a diretora.

Junto às discussões, professores começaram a trabalhar diferentes aspectos da cultura negra e até a tradicional festa junina foi substituída por uma comemoração afro-brasileira.

Beleza nas diferenças

No ano passado, os pequenos foram questionados como seriam os filhos do casal Azizi e Sofia. Discutiram sobre diferenças físicas e descobriram o que era melanina (proteína responsável pela pigmentação da pele). “Foi muito interessante, porque eles começaram a disputar quem tinha mais melanina”, conta Cibele.

Os filhos mestiços do casal Azizi e Sofia “nasceram” durante a última festa da escola (com direito a parto feitos pelos aluno) e foram integrados à comunidade escolar. Hoje eles possuem um espaço todo especial no pátio interno e diariamente visitam as salas de aula para ajudar professoras e alunos a falar de maneira lúdica sobre racismo e preconceito.

Em 2014, o tema escolhido para permear as discussões durante todo o ano foi a vida de Nelson Mandela, que no mundo de fantasia criado pelos alunos lutou contra o monstro do Apartheid e foi transformado em avô do príncipe Azizi. Com ele, vieram várias “crianças” --bonecos negros, orientais, brancos e deficientes que vão incitar outros debates em sala de aula.

Na semana passada, por exemplo, uma das turmas teve que votar no boneco que adotaria. O grupo discutiu e acabou escolhendo o garoto negro. "O branco é melhor do que o negro", disse um menino durante o debate. A afirmação serviu de mote para uma pergunta: por quê? E, após uma conversa, ele pensou bem e corrigiu: "acho que tá errado [o que disse]".

Revistas sem negros

Em outra turma, eles relembraram o que aprenderam sobre a vida de Mandela e o Apartheid. Foram unânimes em dizer que no Brasil não havia separação entre negros e brancos, já que eles dividiam a mesma mesa naquela sala de aula. Na próxima etapa da atividade, porém, tiveram que procurar cinco pessoas negras na mesma revista. “Professora, eu não encontro nenhum negro na minha revista”, reclamou uma das alunas.

“Percebemos que depois que começamos a discutir diversidade, os pais se aproximaram mais da escola. Recebemos pais homossexuais, crianças com deficiência e as famílias passaram a valorizar mais a beleza dos seus filhos”, diz a diretora. O hino adotado pela escola é uma música que diz "Ninguém é igual à ninguém, ainda bem". Ainda bem. 

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