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Professora surda desabafa contra críticas à redação do Enem, e vídeo viraliza

Aluno tinha que trabalhar a ideia de inclusão de deficientes

UOL Notícias

Aliny Gama

Em Maceió

06/11/2017 20h38

Uma professora surda viralizou na internet com um desabafo em resposta contra uma ex-professora dela, que criticou o tema da redação do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) aplicada neste domingo (5). Na prova, os candidatos tiveram de escrever sobre os “Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil". 

Pamela Socorro Matos, 29, é surda desde os seis anos e mora em Belém (PA). Ela fez um vídeo publicado no perfil dela do Facebook que já tem 1,2 mil visualizações e 39 mil compartilhamentos. A página Libras Avante também publicou o vídeo de Pamela e já são mais de 2,7 milhões de visualizações, 91 mil compartilhamentos e 8,6 mil comentários.

Na publicação, Pamela explica que fez o vídeo para mostrar a indignação dela, após ver uma postagem de uma ex-professora reclamando do tema da prova do Enem 2017. “Ele servirá também para todos que fizeram a prova e, por motivo algum estão postando em suas redes sociais uma chuva de opiniões imaturas acerca do tema”, escreveu Pamela pedindo que as pessoas tenham mais respeito e alteridade e menos ignorância sobre o tema.

“Vocês não conhecem as cicatrizes dos surdos. Vocês não conhecem aonde seus sapatos apertam. Vocês não conhecem os caminhos por eles percorridos”, completou.

No vídeo, Pamela explica, com frases apresentadas em cartazes, que uma ex-professora dela teria escrito nas redes sociais que o tema da redação foi um “golpe” e questionado se a redação foi para estudantes do ensino médio, professores ou candidato a concurso público na área de educação inclusiva.

Pamela responde que o tema é para todos. “Porém... todos. Você não lembrou... deixa eu te ajudar: há 15 anos você foi minha professora, ou seja, teve aluna surda. E o que você fez para me incluir na sua disciplina? Aula? Nada”, critica Pamela, destacando que é surda e excluída.

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Na mensagem, Pamela afirma ainda que teve uma “triste experiência” com a professora, pois as aulas eram “sem interação, sem metodologias e sem espaço para aprender”. “Sou totalmente surda, excluída das atividades em grupos pelos colegas e pela própria professora”, escreveu.

Ela questiona ainda a professora sobre qual desafio “você assumiu como professora de uma aluna surda?” e pergunta se pode classificar a conduta da professora como um golpe. “Nós, surdos, somos seres humanos. Queremos espaço, respeito e aprender!”, finaliza.

Em outro vídeo, Pamela destaca que a publicação serve para reflexão das pessoas e “não como uma afronta”. Para ela, a comunicação por Libras deve ser trabalhada mais para inclusão dos surdos na sociedade e as pessoas devem ter menos preconceito. 

Professora com mestrado

Pamela ficou surda aos 6 anos de idade, mas somente aos 16 teve contato com a Libras. Antes, ela se comunicava por meio de gestos e mímica com familiares e amigos, mas tinha dificuldades de se expressar fora do meio em que vivia.

A paraense é a primeira professora surda a defender dissertação de mestrado na Uepa (Universidade do Estado do Pará) por meio da Língua Brasileira de Sinais e ter o trabalho aprovado pela banca examinadora. A sua aprovação ocorreu em outubro do ano passado. 

Segundo a Uepa, a dissertação de Pamela abordou o universo da contação de história sem o uso da voz. Durante o trabalho, a professora destacou que um dos problemas enfrentados é a falta de literatura científica sobre a comunicação dos surdos.

Durante a defesa da dissertação, ela acrescentou gestos para mostrar que os surdos podem usar, além da Libras, os gestos para narrar histórias. A banca examinadora teve o auxílio de uma intérprete.

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