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Surdos celebram videoprova do Enem em Libras e redação: "um grito de socorro"

Muryllo Alex
Paulo Vieira é surdo desde o nascimento e fez pela primeira vez a prova do Enem Imagem: Muryllo Alex

Ana Carla Bermúdez e Leonardo Martins

Do UOL, em São Paulo

08/11/2017 04h00

Logo no primeiro ano em que o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) contou com o auxílio de vídeos para a aplicação da prova em Libras (Língua Brasileira de Sinais), o tema cobrado na redação de 2017 foi justamente os "Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil".

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Na chuva de críticas ao tema proposto, os estudantes afirmavam pelas redes sociais que o assunto "não tinha nada a ver" e que "era impossível falar sobre isso". No entanto, para o candidato Paulo Vieira, 47, surdo desde o nascimento, as pessoas podem não ter percebido, mas o tema da redação foi um "grito de socorro" para a comunidade surda no Brasil.

"Eu percebi que a sociedade não ficou feliz com a escolha do tema, mas eu e todas as pessoas envolvidas gostamos bastante. O MEC [Ministério da Educação] tinha muitas barreiras em relação à inclusão dos surdos, mas, hoje em dia, deu uma melhorada, mesmo não estando 100%. Depois desse 'boom' da redação pode ser que, futuramente, tenhamos mais portas abertas. O tema da redação foi um grito de socorro", afirmou Vieira por intermédio de sua intérprete.

Por conta da rubéola que acometeu sua mãe durante a gravidez, Paulo cresceu enfrentando as dificuldades e os preconceitos de ser um deficiente auditivo. Ex-presidente da ASSP (Associação de Surdos de São Paulo), ele prestou o Enem pela primeira vez para cursar Libras na UFABC (Universidade Federal do ABC) e elogiou o novo mecanismo de videoprova adotado pelo MEC.

"Eu não havia feito o Enem porque sabia da dificuldade em fazer a prova. Eu gostei muito do vídeo, é bem acessível, nós tivemos mesas separadas com um notebook e um DVD. Todas as perguntas e alternativas tinham um vídeo em Libras e era só selecionar a resposta. Eu conseguia controlar a velocidade e retornar o vídeo caso eu não entendesse. Foi muito bom", disse Vieira, que também é funcionário da Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência de São Paulo.

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"As pessoas não conhecem sobre a comunidade surda"

As amigas Karina de Souza Fabiano e Luana Silva da Costa, ambas de 17 anos, também são surdas e fizeram o Enem pela primeira vez este ano. Elas dizem ter ficado muito felizes por poderem ter feito a videoprova em Libras.

Arquivo pessoal
Karina fez o Enem pela primeira vez este ano e quer cursar medicina Imagem: Arquivo pessoal

"A comunidade surda lutou muito para conseguir a videoprova de Libras no Enem e finalmente conseguimos", diz Luana, que pretende entrar no curso de engenharia civil com a nota do Enem. Ela perdeu a audição aos 5 meses de idade por causa de uma meningite.

"A Libras é a nossa primeira língua, é a nossa própria comunicação e acessibilidade", explica Karina, que quer fazer faculdade de medicina. Assim como Paulo, ela nasceu surda por sua mãe ter tido rubéola ainda na gravidez.

Alunas do 3º ano do ensino médio do Colégio Rio Branco, em São Paulo, Karina e Luana costumam estudar juntas. "Nós vamos para os plantões de dúvidas, sempre nos ajudamos, compartilhamos", conta Karina. 

Elas ingressaram no Centro de Educação para Surdos Rio Branco, escola bilíngue (em Libras e português) da mesma rede. A partir do 6º ano, passaram a fazer parte de turmas mistas, com alunos surdos e ouvintes.

Arquivo pessoal
Para Luana, é preciso "repensar a inclusão na sociedade" Imagem: Arquivo pessoal

Para Luana, o tema da redação foi muito importante por acender o debate sobre como é a educação e a vida dos surdos.

"Temos que pensar e repensar a inclusão na sociedade. As pessoas não conhecem sobre a cultura e a comunidade surda. Elas pensam que os surdos não existem, que não somos capazes de viver em uma sociedade igual à dos ouvintes. Elas precisam conhecer mais sobre o nosso mundo", diz.

"O tema foi para fazer as pessoas refletirem, foi para mostrar e provar para elas que nós surdos somos capazes", ressalta Karina, que complementa: "eu tenho muito orgulho de ser surda".

Ineficiência da inclusão 

Até ano passado, os candidatos surdos deviam fazer o Enem em Libras acompanhados apenas de um intérprete para a tradução de frases e palavras que os participantes desconhecessem. No entanto, após críticas da comunidade surda, o MEC inaugurou o sistema de videoprova.

Além da falta de intérpretes para cumprir a demanda de candidatos surdos em cada escola, a Libras não possui a mesma estrutura gramatical que a língua portuguesa escrita, o que prejudicava o candidato na leitura dos enunciados da prova do Enem. Segundo Paulo Vieira, isso não era levado em conta pela pasta da Educação.

"Em alguns estados, o intérprete ficava correndo de sala em sala e os surdos tinham que ficar esperando, já perdiam muito tempo de prova. Em outros estados, a escola não deixava o intérprete explicar o enunciado em Libras, apenas explicar a palavra que ele não entendia", endossa Vieira. "Eles têm que entender que o cadeirante aprende primeiro a língua portuguesa, o cego também, mas o surdo aprende primeiro a língua em Libras e não é a mesma estrutura".

"Eu acho bem melhor fazer a prova em vídeo, porque a Libras é a minha primeira língua. Consigo acompanhar e entender os textos, as perguntas e as alternativas. A prova escrita é em português, que é a minha segunda língua. Eu até consigo entender, mas não tudo", complementa Karina. Com a videoprova, ela diz que "nós, surdos, não fomos esquecidos e excluídos da sociedade".

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O novo recurso

Segundo o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), o recurso de videoprova foi escolhido por 1.635 pessoas das 1.925 solicitações de atendimento especializado para surdez e 4.390 para deficiência auditiva.

Supervisionado por dois intérpretes, três fiscais e um técnico de informática, esse método de acessibilidade foi desenvolvido em parceria com professores e especialistas em Libras da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), que oferece seu vestibular também em formato de vídeo em Libras.

A videoprova, ainda segundo o Inep, tem o mesmo número, ordem e valor das questões da prova regular e os mesmos procedimentos de segurança, além de também ser obrigação do candidato surdo escrever a redação em português e preencher o gabarito. Os deficientes auditivos fazem a prova por um notebook individual e, por meio de um DVD, têm acesso a todos os enunciados e alternativas em formato de vídeo com a tradução de um especialista em Libras.

Nesta segunda-feira (6), o órgão liberou um questionário de avaliação da vídeo prova na Página do Participante, para que os usuários deixem suas opiniões sobre a nova ferramenta.

O participante também pode, se quiser, optar por fazer a prova apenas com o intermédio de um tradutor-intérprete de Libras. O número de alunos que concluíram a prova por esse método chegou a 1.357.

  • Lembre-se: ao final da prova deste domingo (12), o UOL transmitirá ao vivo um debate entre professores do Curso Objetivo sobre as questões de ciências da natureza e matemática. Acompanhe também no UOL a divulgação do gabarito extraoficial da prova e a correção online comentada das 90 perguntas do segundo dia do exame.

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