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Escolarização dos pais é decisiva no nível educacional dos filhos, diz IBGE

A engenheira Thatiane Lima, 26, que tem nível educacional superior a de seus pais - Arquivo pessoal
A engenheira Thatiane Lima, 26, que tem nível educacional superior a de seus pais Imagem: Arquivo pessoal

Mirthyani Bezerra e Leonardo Martins

Do UOL, em São Paulo

15/12/2017 10h00Atualizada em 15/12/2017 16h08

Dados divulgados nesta sexta-feira (15) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) indicam que a escolaridade dos pais é decisiva para garantir o diploma dos filhos: 69% dos filhos cujos pais terminaram o ensino superior seguiram o mesmo caminho. Na outra ponta, entre pais que nunca foram à escola, a chance de um brasileiro alcançar um diploma universitário é de apenas 4,6%.

Na medida em que cresce a escolaridade dos pais, aumenta a chance do brasileiro alcançar um nível educacional mais elevado. Filhos de pais que não conseguiram terminar o ensino fundamental dificilmente conseguirão alcançar um diploma universitário.

A engenheira Thatiane Lima Gomes, 26, conseguiu quebrar essa lógica e faz parte dos 14,9% dos brasileiros graduados cujos pais deixaram a escola antes da 8ª série. Ela terminou a graduação em engenharia de materiais da Poli-USP (Escola Politécnica da Universidade de São Paulo) em julho deste ano.

O pai, o taxista Osmar Gomes, 58, e mãe, a dona de casa Aurea Lima Gomes, 58, deixaram a escola antes de terminar o ensino fundamental. Osmar estudou até a 4ª série, enquanto Aurea fez até a 6ª série. Foi a busca por um emprego em São Paulo, e o desejo de melhorar as condições de vida, que fez com que o sergipano e a pernambucana deixassem suas cidades de origem --e, consequentemente, a escola.

“Eles sempre me apoiaram muito no estudo, não sei se isso acontece porque eles não tiveram a oportunidade de estudar, mas sempre acharam importante”, conta Thatiane.

O levantamento verificou que, assim como Thatiane, 73,9% dos filhos possuíam um nível educacional diferente do paterno. Desse total, 68,9% tinham nível superior aos dos pais e apenas 5% inferior.

“No geral, o nível educacional dos filhos aumentou em relação aos pais. Os governos têm investido em programas educacionais para fazer com que o acesso ao ensino chegue às populações que antes não tinha acesso”, explica o analista da Coordenação de População e Indicadores Sociais do IBGE, Pedro Moraes.

A pesquisa distingue a influência dos níveis de instrução de pais e mães. No que diz respeito ao nível educacional materno, 39,8% dos filhos de mães sem instrução conseguiram terminar o ensino superior. Quando se consideram mães com ensino superior completo, esse percentual sobe para 96,6%.

A estatística faz parte da “Síntese de Indicadores Sociais: Uma análise das condições de vida da população brasileira”, que levou em consideração filhos entre 25 e 65 anos de idade e tem como base dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 2014.

Segundo o relatório, apesar do processo de expansão educacional vivenciado pelo Brasil a partir da década de 1980, permanecem as desigualdades de oportunidades educacionais quando se trata de alcançar o ensino superior.

“O intuito principal da pesquisa não é exatamente investigar a evolução do nível de instrução das gerações, mas ver se pessoas de origens diferentes, como um filho com um pai que possui apenas o ensino fundamental e outro filho que tem um pai com diploma de ensino superior possuem as mesmas chances de alcançar o ensino superior, se há igualdade de oportunidades”, explica Moraes.

Cor e gênero

Essa tendência de quanto maior o nível de instrução dos pais, maior a chance dos filhos alcanarem o nível superior também se repete quando se atenta para o fator cor ou raça, mas ela é menor quando se trata de pretos e pardos.

No caso de pais sem instrução, enquanto 6,2% dos filhos brancos conseguem chegar ao ensino superior, essa porcentagem cai para quase pela metade quando se trata de filhos pretos ou pardos (3,7%).

Apenas 11,1% dos filhos de pais com o ensino fundamental incompleto conseguem terminar a universidade. Se os pais conquistaram um diploma, a porcentagem de filhos brancos que conseguiram atingir o mesmo nível sobe para 71,1% -- contra 58,3% de filhos negros.

As filhas brancas de pais sem instrução ou com ensino fundamental incompleto são as que sofrem maior influência da formação educacional da família. 

Filhos negros de pais que ingressaram no ensino fundamental, mas não terminaram, são os que menos conseguem concluir a universidade: 5% do total.

“No contexto brasileiro, vários estudos comprovam que historicamente as mulheres atingem níveis de ensino mais elevados, é uma tendência. Nós não investigamos as causas, mas há evidências empíricas e essa pesquisa confirma isso”, diz Moraes.