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"Não é mimimi: bullying pode levar ao suicídio", diz vítima de agressão

Arquivo Pessoal
Thieres Duarte conta ter sofrido bullying na escola e também em casa Imagem: Arquivo Pessoal

Depoimento a Guilherme Azevedo

Do UOL, em São Paulo

13/01/2018 04h01

A história de Thieres Duarte, que vive no interior de Minas Gerais, foi contada primeiro por ele, resumidamente, na página oficial do UOL no Facebook  em 26 de dezembro.

Ele aceitou o convite para que os usuários da rede social compartilhassem na fanpage do UOL casos de bullying que conhecessem ou tivessem sofrido, além de expressarem sua opinião sobre o problema. Mais de 300 pessoas participaram do debate.

O bullying, termo que vem da palavra inglesa "bully", que significa brigão ou valentão, caracteriza a situação de agressões intencionais e repetitivas, verbais ou físicas, por uma ou mais pessoas contra um ou mais colegas. Pode acontecer no ambiente escolar, em casa ou no local de trabalho.

A história de Thieres explicita as consequências do bullying, sofrido ainda na infância, quando a pessoa se torna adulta. "A partir daí, nunca mais tive coragem de apresentar um trabalho", lembra ao falar da humilhação sofrida durante uma apresentação na escola. O mesmo trauma o levaria a abandonar, anos depois, a faculdade.

Ele resume a discussão sobre o bullying dando à questão o peso que merece. Bullying, como sugere, pode levar até ao suicídio. É uma violência grave e de consequências marcantes. Leia o depoimento de Thieres ao UOL.

"Meu nome é Thieres Duarte, completo 25 anos no próximo dia 15 de janeiro. Nasci em João Monlevade [município do interior de Minas Gerais, a 110 km da capital], e moro em Bela Vista de Minas [município vizinho]. Meu pai e irmão são operadores de máquina, minha mãe é microempresária. Tenho nível superior incompleto em administração.

Sofri bullying na escola, na rua e em casa

Pelo meu jeito quieto, tímido, já entendiam que eu era diferente. Deduziam já cedo que eu era gay, antes mesmo de eu saber. Os colegas de sala começavam a zoar, chamando de veado, boiola, bichinha. Empurravam a minha carteira em direção a mim, às vezes me encurralavam em cantos enquanto algum responsável não via. 

Arquivo Pessoal
Thieres, aos 4 anos. Bullying começou por causa de seu jeito quieto e tímido Imagem: Arquivo Pessoal
Teve momentos em que, quando eu estava na fila para sair da sala, pisavam no meu tênis machucando o meu pé, eu por medo ou por algum motivo que não sei explicar me sentia acuado, não reagia, não falava para ninguém.

No ensino médio, por causa do meu jeito de ser, as implicâncias comigo continuaram. Na época, fui para outra cidade estudar, já que na cidade em que morava eu continuaria com a turma de infância. Achei que ia mudar, mas foi a mesma coisa: recebia os insultos, apelidos e foi a fase que mais me deixou marcas.

De um dia me recordo muito bem. Quando fui apresentar um trabalho de química, na minha vez de falar, uma turminha no fundo começou a fazer gestos insinuando que eu era gay.

Com 17 anos eu não era assumido, estava tomado de incertezas sobre quem eu era. Naquele momento ver aquele pessoal me expor, a turma rindo e o professor nem aí, como se aquilo fosse normal e fizesse parte da aula, me traumatizou.

Um jogou bolinhas de papel em minha direção, eu continuei a apresentar com o coração acelerado, me sentindo horrível por dentro, mas continuei porque era o último do ano e precisava de ponto. A partir daí, nunca mais tive coragem de apresentar um trabalho. 

'Preferia um filho morto a um filho gay'

Ser gay me fez sofrer durante anos. Também sofri muito bullying em casa por parte de mãe, tias, irmão. Minha família nunca aceitou e, quando assumi em casa, aos 21 anos, ouvi absurdos como 'preferia um filho morto a um filho gay', que eu era 'doente', que eu 'não valia nada', era 'um zero à esquerda'. Isso tudo me fez pensar em me suicidar.

Meu pai é muito calado, apenas disse que não queria problemas perto dele, ou seja, para não trazer ninguém que eu namorasse. Em outubro passado, ele entrou em depressão profunda, tentou se matar de formas horríveis, eu e minha mãe que salvamos. Alguns da família disseram que, entre os vários motivos da depressão, um era eu ser gay.

'Bullying é sério, deixa marcas e mata'

Não é frescura, somente quem passa sabe o que é. É como depressão: muita gente ainda pensa que é frescura, mas é um caso sério, deixa marcas e mata. O bullying mexe com a alma de quem sofre o ataque, é bem lá no íntimo de cada um.

Gostaria que as pessoas que dizem que é mimimi se colocassem no lugar de quem sofreu algum ataque, se imaginassem naquela situação sem o apoio de ninguém, calado, ouvindo os insultos. Será que se sentiriam bem?

Arquivo Pessoal
Aos 6 anos, durante formatura na escola Imagem: Arquivo Pessoal
As consequências em minha vida foram sérias. Me tornei um cara extremamente envergonhado, tímido e inseguro. Fiz teatro por quatro anos para tirar essa timidez, me libertei muito, mas acabou voltando. Quando entrei na faculdade de administração, já entrei imaginando como seria o primeiro trabalho, meu coração já acelerava meses antes.

Quando chegou o dia, tudo decorado, pronto, na minha vez de falar eu olhei para a turma e me lembrei do ensino médio. Comecei a tremer, a mão não parava quieta, a voz não saiu, eu já imaginei que eles estavam me julgando em pensamento e não saiu nada. Eu fiquei parado, o próximo a apresentar do meu grupo falou a minha parte, eu saí duro da sala e comecei a chorar, tranquei a faculdade e até hoje tento voltar.

Eu sei que tenho de lutar contra isso, mas é uma força dentro de mim que me faz voltar lá no passado e relembrar tudo. Talvez precise de um psicólogo, em que ainda não fui. Esse medo de ser julgado e humilhado foi a marca horrível que o bullying deixou.

Me tornei um cara extremamente envergonhado, tímido e inseguro 

Arquivo Pessoal
Thieres publicou o livro de um super-herói chamado Superzil, idealizado na infância Imagem: Arquivo Pessoal
Apesar de tudo, tenho um livro publicado, 'As Aventuras de Superzil' [Chiado Editora].  É um super-herói que eu queria ser desde criança e há dois anos resolvi publicar. Acho que para realizar esse sonho e dar vida a esse herói que eu queria ser. É um humano resolvendo os problemas. Sou bom em textos, sou um cara bacana, cheio de ideias criativas, mas que não consigo executar com esse medo que me bloqueia. 

Alguns traumas consegui superar, sim, mas não consegui superar ainda o medo de expor minhas ideias, falar em público, sempre tenho medo de sofrer ataques de novo. Mas sou feliz com o que sou, me aceito, não tenho ódio nem guardo rancor do que passei, apenas gostaria que tivesse sido diferente.

Nunca contei em detalhes para a família ou amigos de como me afetou, apenas superficialmente, então não posso dizer que tenho apoio.

'Até algumas mulheres são machistas'

Se acho que o Brasil é um país machista e sexista e violento com os diferentes? Não acho, tenho certeza.

Somos muito machistas, até algumas mulheres são machistas. Vivemos uma cultura de intolerância atualmente contra as minorias, devido a ondas conservadoras no Congresso [Nacional]. Eles dão voz às pessoas que são violentas e que justificam seus atos como liberdade de expressão. Isso reflete no interior, em cada canto do Brasil.

Onde eu moro não se veem ataques explícitos a homossexuais, mas como é interior não se veem gays de mãos dadas. Aqui ainda é tudo muito escondido, reservado, as pessoas são, mas não se assumem. Críticas devem existir com certeza, mas eu nunca ouvi. O meu maior obstáculo foi a família, na rua a gente tira de letra.

'Quem faz bullying precisa de tratamento'

Na minha opinião, as pessoas que fazem bullying têm necessidade de se mostrar superiores às outras, necessidade de assumir dominância de algum local, como a escola. Pegando um mais 'fraco', consegue dominar os outros, porque pensam: 'Eu não vou mexer com aquele rapaz ali, senão ele pode fazer isso comigo'. Então acho que é isso, necessidade de se sentir superior aos outros, e quem tem essa necessidade precisa de tratamento, porque isso não é comportamento normal.

Eu não consegui pedir ajuda, acho que a maioria não pede com medo do que os pais ou responsáveis vão pensar, por causa da cultura de achar que é frescura. Por isso peço que os pais ou responsáveis fiquem de olho no comportamento de seus filhos. Quem sofre bullying muda o comportamento, fica agressivo em casa, calado às vezes, alguma coisa muda e isso é sinal para ir atrás, investigar e ajudar. 

O bullying mexe com o psicológico da pessoa, vai fundo na alma e pode levar a pessoa para o buraco. É algo sério e não deve ser ignorado. Os casos que não matam deixam traumas, então peço que lutem contra essa cultura de achar que bullying é mimimi.

Quem sofre bullying muda o comportamento, fica agressivo em casa, calado

Agradeço a oportunidade de falar sobre isso, é como botar para fora tudo que ficou guardado tanto tempo."