PUBLICIDADE
Topo

Após agressões, professores de Porto Alegre reclamam de onda de violência

Pais e alunos saíram em defesa de professores da rede municipal de Porto Alegre - Angelo Barbosa
Pais e alunos saíram em defesa de professores da rede municipal de Porto Alegre Imagem: Angelo Barbosa

Luciano Nagel

Colaboração para o UOL, em Porto Alegre

14/11/2018 04h00

Uma mãe de aluna agride e insulta um professor. Uma estudante ameaça "arrebentar a cara" da professora. A mãe de um aluno da educação infantil atira um projetor na diretora da escola. Os três episódios, todos registrados nas últimas semanas em Porto Alegre, ilustram o que o sindicato dos servidores públicos da capital gaúcha aponta como um aumento preocupante da violência no ambiente escolar.

De acordo com o Simpa (Sindicato dos Municipários de Porto Alegre), em média, pelo menos três professores por semana sofreram agressões físicas desde julho nas 99 escolas da rede municipal. Segundo o diretor do sindicato, Jonas Tarcísio Reis, a média era de duas agressões por semana no semestre anterior. "Os números são preocupantes", afirma.

Dados da Secretaria Estadual de Educação do Rio Grande do Sul apontam que a violência contra professores também é alta na rede pública do estado, embora tenha diminuído na comparação com 2017.

Segundo dados do programa Cipave (Comissões Internas de Prevenção de Acidentes e Violência Escolar), foram registrados 175 casos de agressão física a professores nas escolas da rede pública estadual no primeiro semestre de 2018.

O número representa uma média de quase uma agressão por dia no estado, mas uma queda de 60,3% em relação ao mesmo período do ano passado, quando o total de casos chegou a 290. Além disso, a rede pública estadual é formada por 2,5 mil escolas – na municipal, são apenas 99.

Os relatos de agressões a professores vão desde tapas, empurrões e chutes até ameaças de morte por estudantes e familiares. No bairro Sarandi, um dos mais violentos de Porto Alegre, uma professora da Escola Municipal de Educação Infantil Vila Elizabeth tem na memória o trauma que viveu no último dia 7, quando foi confrontada pela mãe de um aluno.

Ela veio pra cima de mim pra tentar me bater, e a diretora se colocou na frente. Então, ela jogou o computador na minha direção, mas não acertou. Depois, pegou o projetor e jogou novamente em mim."

"Fomos para uma sala e nos trancamos lá, eu e outros professores com as crianças, todos chorando", contou a professora, que está de licença médica por conta do episódio.

A professora foi acusada pela mãe de maltratar a criança durante o horário de aula, mas foi defendida pelos familiares dos outros alunos, que negam os supostos maus-tratos. A Secretaria Municipal da Educação informou que o caso está sendo acompanhado pelo Ministério Público e pelo Conselho Tutelar.

"Meu trabalho de conclusão na faculdade foi sobre a família e a escola. Eu sempre acreditei nesta relação, que muitas vezes é difícil e que não vem de hoje. É preciso repensar o assunto, como a escola tem se colocado com a família e vice-versa, para que estes laços não se percam", lamenta a professora.

Escola tem relatos de espancamento e ameaças

Na zona norte da capital gaúcha, os relatos de professores da Escola Municipal Grande Oriente do Rio Grande do Sul, no bairro Rubem Berta, também reforçam a preocupação com os casos de violência.

No último dia 31, uma professora foi espancada pela irmã de um aluno em frente à instituição. A docente, de 56 anos, que também é coordenadora pedagógica, foi empurrada ao chão e teve os dentes quebrados. A agressão teria ocorrido após a professora chamar o aluno para dentro da sala de aula, o que teria irritado a irmã do estudante.

Procurada pela reportagem, a professora agredida preferiu não se manifestar por medo de represálias. Mas uma colega da mesma escola aceitou falar sobre o assunto e contou que também foi insultada por uma aluna de 13 anos. O episódio ocorreu na última sexta-feira (9), no corredor do prédio da escola, que atende cerca de 1,2 mil estudantes. Entre os alunos, há egressos da Fase (Fundação de Atendimento Sócio-Educativo do Rio Grande do Sul).

Pedi para a aluna parar de jogar vôlei dentro do prédio, no meio do corredor. A resposta foi que ela iria arrebentar a minha cara."

O caso foi registrado no Deca (Departamento da Criança e Adolescente da Polícia Civil). "Cerca de 90% dos professores não registram queixas nas delegacias de polícia porque têm medo de retaliação", acrescenta a docente. "Nossos alunos, em parte, vêm de famílias desestruturadas."

"A Secretaria da Educação de Porto Alegre sabe do problema, mas não quer ajudar o professor, apenas somos orientados para ‘acolher’ os alunos e dar aula. Não temos preparo para mediar estes tipos de conflitos, nos faltam programas e estratégias, mais apoio", completa a professora, que está de licença médica desde o episódio da semana passada.

Confusão, insultos e PM atropelado diante de escola

Os casos de violência na Escola Municipal de Ensino Fundamental Saint Hilaire, no bairro Lomba do Pinheiro, zona leste da capital gaúcha, também chegaram ao noticiário. Um jovem professor conta que chegou a ser ameaçado de morte pela mãe de uma aluna, dentro da própria instituição, no último dia 7.

"Ouvi gritos vindos da sala da diretoria. Era a mãe de uma aluna gritando com a vice-diretora porque sua filha havia sido impedida de participar de um passeio da turma", relata. "Ela não havia pago o evento até a data prevista, eram vagas limitadas."

"Entrei na sala, e essa mãe perguntou quem eu era", prossegue o professor. "Eu me apresentei, e, a partir daí, ela começou a me ofender com palavrões, além de insultos homofóbicos e racistas."

Na ocasião, a mulher também teria tentado dar tapas e atirar a bolsa no rosto do professor. Para se proteger das agressões físicas, ele alega que segurou a mãe da aluna pelos braços.

Ela dizia que veado e negro tinham mesmo era que morrer. Depois, veio com a bolsa para bater no meu rosto, e um colega interveio. Quanto mais ela gritava, mais professores chegavam no local. Muitos tentavam filmar com o celular, e ela dava tapas nas mãos dos colegas e gritava muito."

"Fora a agressão física, o que mais me marcou foram os discursos de cunho homofóbico e racial", completa o professor, que – assim como os outros citados na reportagem – está em licença médica desde então.

O caso acabou parando na delegacia de polícia, onde foi registrado, por ambos, um boletim de ocorrência, e as aulas foram suspensas no dia seguinte, o que motivou um protesto realizado por alunos e funcionários da escola, que pediam mais segurança ao poder público.

Protesto contra violência nas escolas de Porto Alegre - Angelo Barbosa - Angelo Barbosa
Manifestantes fizeram apelo por segurança nas escolas na zona leste de Porto Alegre
Imagem: Angelo Barbosa

No dia 8, uma quinta-feira, a mulher acusada de agredir os funcionários da escola retornou ao local e discutiu com alunos que estavam em frente à instituição. Por precaução, a direção do colégio chamou a Brigada Militar para atender a ocorrência.

Durante a abordagem policial, a mulher se negou a sair do carro e fugiu. Na ação, um policial militar foi atropelado e sofreu ferimentos leves. A motorista do veículo foi identificada, e a polícia descobriu que ela tinha antecedentes criminais por homicídio e respondia o processo em liberdade.

Encaminhada a um presídio da capital gaúcha, a mulher foi acusada de tentativa de homicídio, lesão corporal e desobediência, além de ter a carteira de habilitação apreendida e de ficar proibida de se aproximar da escola. A prisão preventiva, no entanto, foi convertida pela Justiça em prisão domiciliar, com o uso de tornozeleira eletrônica.

Secretaria municipal vê “casos excepcionais”

Para o sindicato dos servidores públicos de Porto Alegre, a violência nas escolas é uma consequência de problemas na administração municipal.

"Faltam professores, um déficit de 600 docentes, e a comunidade não entende que não é culpa da escola, e sim da gestão municipal", diz o diretor do Simpa. "Isso tem gerado uma revolta e acaba estourando no lado mais fraco, ou seja, nos alunos e professores."

Em nota, o secretário da Educação de Porto Alegre, Adriano Naves de Brito, disse estar consternado com o modo como os professores foram tratados nos episódios citados na reportagem, mas acrescentou que a violência não é algo comum nas escolas da cidade.

Entendemos que são casos excepcionais, que não representam o tipo de relação que existe entre a rede municipal de ensino e suas comunidades."

Adriano Naves de Brito, secretário da Educação de Porto Alegre

"A Secretaria Municipal da Educação tem implementado desde o início da gestão uma política de segurança baseada no fortalecimento da instituição escolar e também de educação emocional para uma cultura da paz no ambiente escolar", acrescenta o texto. "Estamos atentos a esses eventos e avaliando o contexto em que estão ocorrendo."

A secretaria diz ainda que a informação de que há um déficit de 600 professores não procede e que "a falta de recursos humanos hoje é residual".

De acordo com o órgão, a pasta tem realizado reuniões com a Secretaria de Segurança para definir ações conjuntas e, desde outubro, as escolas passaram a contar com serviço de portaria "para dar apoio às equipes diretivas, que frequentemente desempenhavam elas mesmas este papel".