Crustáceos: Os senhores do mar

Mariana Aprile

  • Hans Hillewaert/Wikimedia Commons

    O "Liocarcinus vernalis" é um tipo de caranguejo que se encontra da África ocidental ao Mar do Norte, embora até cerca de 20 anos atrás se acreditasse que a espécie fosse limitada ao Mediterrâneo

    O "Liocarcinus vernalis" é um tipo de caranguejo que se encontra da África ocidental ao Mar do Norte, embora até cerca de 20 anos atrás se acreditasse que a espécie fosse limitada ao Mediterrâneo

Os crustáceos são os artrópodes que melhor se adaptaram ao meio aquático, e contam com mais ou menos 40 mil espécies descritas. Apesar de a maior parte dos crustáceos ser marinha, existem espécies de água doce e, até mesmo terrestres (como o tatuzinho de jardim). O subfilo Crustacea inclui o maior número de animais filtradores de suspensão dos artrópodes. Isso significa que os crustáceos, em sua maioria, conseguem seu alimento filtrando a água.

Muitos aspectos desse grupo de artrópodes evidenciam sua importância ecológica: o zooplâncton, base da cadeia alimentar do meio aquático, é composto principalmente por minúsculos crustáceos. Já o krill, que é parecido com um camarão, é o alimento de várias espécies de baleia, incluindo o maior mamífero da Terra: a baleia azul — ela pode ingerir até quatro toneladas de krill por dia. Esse crustáceo é tão rico em proteínas que pode ser utilizado para enriquecer a dieta humana.

Além disso, os crustáceos também ocupam lugar na ciclagem de nutrientes, já que muitas espécies são detritívoras, ou seja, alimentam-se de matéria orgânica em decomposição. Um exemplo disso são os caranguejos. No mangue, eles escavam sedimentos à procura de abrigo e alimento e, por isso, esses organismos são objeto de estudos relacionados ao biomonitoramento de poluentes em manguezais.

Supercrustáceos

Uma consequência natural do hábito de vida aquático de muitos crustáceos é que o peso de suas armaduras (exoesqueleto) é minimizado: assim, ele pode ser mais espesso e reforçado com cristais de cálcio. Isso explica a existência de espécies de grande tamanho como o maior artrópode do mundo, o Caranguejo Gigante do Japão (Macrocheira kaempferi). Esse crustáceo pode medir até 4 metros e pesar 20 quilos.

A lagosta norte-americana (Homarus americanus), por sua vez, pode atingir 60 centímetros de comprimento e pesar 22 quilos. Esses animais são capturados em armadilhas nas quais as lagostas entram atraídas pelo alimento. Por causa da pesca comercial, as populações dessas lagostas ao longo das costas do Canadá e da Nova Inglaterra sofreram forte redução — hoje, a pesca foi transferida para alto-mar.

Já o camarão-estalo, ou camarão mantis, não é o maior, mas é o mais forte: seu ataque pode quebrar um aquário de vidro duplo. Para se ter uma ideia, a rapidez e a força do golpe de um camarão mantis adulto se comparam ao tiro de uma arma de calibre 22. Esse tipo de crustáceo, pertence ao grupo dos estomatópodes e seu tamanho varia entre 2 e 30 centímetros, de acordo com a espécie. Outro fato interessante sobre os camarões mantis é a sua visão, que é das mais sofisticadas. Eles conseguem enxergar até 100 mil cores, enquanto o ser humano é capaz de ver apenas 10 mil.

Vidas brilhantes nas profundezas

Os vaga-lumes terrestres são os exemplos mais conhecidos de um fenômeno chamado bioluminescência. O que muita gente não sabe, é que essa capacidade de emitir luz é muito comum em águas marinhas. Em uma noite tranquila, em uma profundidade considerada rasa, um mergulhador pode se deparar com inúmeras criaturas brilhantes, como bactérias, dinoflagelados, alguns crustáceos e até peixes.

Mas é no mar aberto (de 200 até 1.000 metros de profundidade), que podemos encontrar a maior parte das criaturas capazes de brilhar. Nas águas profundas dos oceanos, de 70 a 80% dos camarões são bioluminescentes. A emissão de luz nesses animais envolve a oxidação de uma substância chamada luciferina, e uma enzima conhecida como luciferase. Uma reação química entre as duas resulta na emissão de um fóton.

A fonte luminosa dos animais bioluminescentes também pode ser produzida por associações com bactérias — quando esses animais não são capazes de produzir substâncias luminosas, eles se unem a bactérias que têm esse poder. Além disso, a luz também pode ser originada por meio de secreções celulares que, em contato com o meio externo se iluminam, como ocorre com os ostracodos (crustáceos que lembram moluscos bivalves, como as ostras).

Os animais de “vidas brilhantes” fazem uso da bioluminescência para diversas finalidades: para a caça, reprodução e defesa. O camarão Heterocarpus laevigatus, que habita as profundezas do Oceano Pacífico, libera uma nuvem de luz azul pela sua boca, causando uma cegueira temporária em seu predador, enquanto o camarão escapa.

Características gerais

Como a diversidade de formas e adaptações das espécies de crustáceos é enorme, é praticamente impossível definir uma lista de características comuns a todos eles. O que se pode citar, são as estruturas que mais aparecem nos integrantes do subfilo Crustacea. São elas:

  • Cinco pares de apêndices na cabeça, onde ficam as antenas;
  • Presença de dois pares de antenas;

 

  • Apêndices birremes (em forma de remos de barco);

 

  • Olhos compostos laterais;

 

  • Boca na região ventral.

O tronco dos crustáceos varia muito entre as espécies, de modo que o número de segmentos pode ser maior ou menor. Um aspecto interessante é que os crustáceos mais primitivos possuem mais segmentos e, os que sofreram mais modificações têm essas estruturas reduzidas. É fácil perceber esse fenômeno evolutivo quando comparamos o corpo de um camarão, com o de uma lagosta: esta última têm menos segmentos. Se, ainda for realizada uma comparação entre a lagosta e um caranguejo, poderemos notar que os segmentos da cabeça e do tórax se fundiram e, os da cauda se dobraram para baixo e se fundiram. Por isso, o caranguejo é considerado o crustáceo que mais sofreu modificações evolutivas.

 

  • Comparação da morfologia dos corpos de um camarão, uma lagosta e um caranguejo. Ilustração adaptada de “Treatise of Invertebrate Paleontology, Part R. Artropoda 4”, vol.2 pág 401.

Senhores do mar

O Censo da Vida Marinha, estudo publicado em 2010, revelou que os oceanos são praticamente dominados pelos crustáceos que somaram 19% ou um quinto da vida marinha. É interessante notar que os artrópodes, além de reis da terra (insetos), são também senhores do mar (crustáceos).

O zoólogo da Universidade de São Paulo, Fábio Lang da Silveira, em entrevista ao portal Ocenografia Brasil explica: "Assim como em terra firme os insetos são os mais diversificados, acontece a mesma coisa no oceano com os crustáceos, os quais, tal como os insetos, também são artrópodes".

Importância Econômica

Os crustáceos são de grande valor na economia, já que camarões, caranguejos, lagostas e lagostins fazem parte da alimentação humana. Segundo um estudo realizado pelo Instituto de Economia Agrícola (IEA) só em 2003, as empresas brasileiras produtoras de camarão venderam 21,3 mil toneladas aos Estados Unidos, 15,3 mil toneladas à Espanha, 15,8 mil toneladas à França e 5,8 mil toneladas à Holanda.

Para garantir a sustentabilidade desse tipo de pesca, a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), lançou esse ano, o Selo “Caranguejo Verde” que estabelece padrões de captura, transporte e estocagem dos crustáceos vivos, de modo que esses sejam ecologicamente corretos. Isto é, a empresa que carregar esse selo, respeita os períodos de reprodução dos animais e, ainda, adota técnicas que minimizam suas perdas — a morte dos crustáceos e o apodrecimento das carcaças. O selo “Caranguejo Verde” também garante a exclusão do trabalho infantil na coleta dos crustáceos.

Mas além da importância na pesca comercial em larga escala, os crustáceos são a base econômica de muitas pessoas, conhecidas como “marisqueiras” e “catadoras de caranguejo”. Essa população, que pega manualmente esses animais um a um, nos manguezais, tem recebido atenção especial de algumas entidades, ONGs e instituições, para melhorarem sua qualidade de vida.

No VI Congresso Brasileiro de Crustáceos, por exemplo, realizado em Ilhéus, as marisqueiras participaram do mini-curso “Biologia e Ecologia de Crustáceos”, onde aprenderam a conciliar a ecologia desses animais com a economia. Segundo a marisqueira e aluna desse curso, Marise Brito Nunes, “se a gente tratar a natureza com respeito, ela nos retribui com fartura”.

 

Mariana Aprile é bacharel em biologia e educadora ambiental.

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