Poluição das águas: Esgoto, petróleo e metais pesados ameaçam águas

Alice Dantas Brites

Segundo convenções internacionais, a poluição dos oceanos é a introdução, pelo homem, de substâncias que provoquem, direta ou indiretamente, danos à vida marinha, ameacem a saúde humana ou comprometam a atividade pesqueira. Os principais poluentes do meio marinho são o esgoto doméstico, petróleo e seus derivados, metais pesados, substâncias organocloradas e o lixo.

O termo poluição é utilizado para designar a introdução de qualquer substância que normalmente não existe no ecossistema e à qual os organismos não estão adaptados. Essas substâncias, chamadas de poluentes, provocam a degradação física e química do ambiente.

Esgoto doméstico

O despejo de esgoto não tratado no mar provoca o aumento da matéria orgânica presente na água, levando a uma elevação na quantidade de nutrientes disponíveis. Esse processo é conhecido como eutrofização. O aumento na concentração de nutrientes permite o crescimento rápido e intenso de microalgas marinhas. Após certo tempo, essas algas morrem e são degradadas por bactérias decompositoras.

O processo de decomposição das algas consome o oxigênio dissolvido na água, reduzindo sua disponibilidade para os organismos marinhos. Além disso, a grande quantidade de algas torna a água do mar turva, prejudicando a fotossíntese e reduzindo ainda mais o teor de oxigênio na água.

Outro problema gerado pelo despejo de esgoto é a possibilidade de contaminação da água do mar por microrganismos patogênicos, muitas vezes presentes nas fezes humanas, que podem causar doenças como a hepatite e a cólera. A fim de evitar esses problemas, medidas de saneamento básico, como a fiscalização dos emissores e o tratamento do esgoto doméstico, devem ser adotadas.

Derramamentos de petróleo

O petróleo pode ser liberado no mar de diversas formas: devido a acidentes durante o percurso dos navios transportadores, durante a lavagem dos tanques dos navios, devido a acidentes nos dutos que o conduzem às usinas de refinamento ou por causa de vazamentos nas estações de extração.

Após um derramamento de petróleo, as primeiras horas são as mais críticas, pois é o período de ação da fração volátil do petróleo, que é composta por substâncias extremamente tóxicas. As substâncias voláteis formam uma espécie de bolha letal na atmosfera, que intoxica e mata todos os organismos que respirarem esse ar contaminado.

Musse tóxica

Por outro lado, a fração solúvel do petróleo se alastra pelo mar, atingindo as praias e costões rochosos e também descendo pela coluna d'água. A ação das ondas transforma o petróleo numa espécie de espuma tóxica, chamada de "ponto de musse", que se espalha ainda mais facilmente pelo ambiente.

A fração solúvel do petróleo causa sérios danos à biota marinha. Intoxica e mata os microrganismos presentes no plâncton, gruda nos organismos marinhos, dificultando ou até mesmo impedindo suas funções vitais, recobre os habitantes dos costões rochosos, como os crustáceos e os moluscos, impedindo que eles se alimentem e realizem suas trocas gasosas.

As aves marinhas também podem ser afetadas, pois o petróleo pode grudar em suas penas, impedindo-as de impermeabilizá-las e, às vezes, até mesmo de voar.

Existem algumas bactérias capazes de degradar o petróleo. A eficiência do uso de tais microrganismos para a limpeza de áreas atingidas por derramamentos vem sendo estudada. No entanto, é muito melhor tomar atitudes que evitem ou minimizem as ocorrências de acidentes durante o transporte e a produção do petróleo, evitando ao máximo que esses desastres ecológicos ocorram.

Metais pesados

Certos processos industriais, entre as quais a produção de celulose e de tecidos e a fabricação de tintas e solventes, geram metais pesados, tais como o mercúrio, o chumbo e o cádmio, como resíduos. Caso a indústria não realize o tratamento adequado de seu esgoto, esses metais serão lançados em rios, que acabam por desaguar no mar, contaminando-o.

Os metais pesados se acumulam no organismo e podem causar sérios problemas, como disfunções do sistema nervoso e aumento na incidência de câncer, em animais marinhos e também no homem. Assim, o esgoto industrial deve ser tratado antes de ser despejado em rios. Além disso, os emissários industriais devem ser fiscalizados e monitorados para detectar possíveis descargas de metais pesados.

Contaminação por organoclorados

Os organoclorados, também conhecidos como "poluentes orgânicos persistentes", ou simplesmente POPs, pois não se degradam facilmente na natureza, são substâncias que se originam, principalmente, na produção de pesticidas e plásticos.

Os POPs não são solúveis em água. No entanto, são extremamente solúveis em lipídios. Por isso, se acumulam na gordura dos animais, afetando toda a cadeia alimentar. Essas substâncias podem causar sérios danos aos organismos, afetando seu sistema nervoso, circulatório, imunológico e reprodutor.

Um exemplo de organoclorado é o pesticida chamado de DDT. Nos anos 70, quando seus efeitos nocivos ainda não eram conhecidos, ele foi amplamente utilizado no combate a pragas agrícolas, chegando aos oceanos através da água das chuvas, carregado pelo ar e pelo acúmulo na cadeia alimentar. Atualmente seu uso é proibido, porém, devido ao seu acúmulo nos organismos, ainda podemos encontrá-lo nos oceanos e nos organismos marinhos.

Lixo

Todos os anos, centenas de toneladas de lixo chegam às praias de todo o mundo trazidas pelo mar. Uma das principais fontes do lixo nos oceanos são as embarcações, tais como veleiros, cargueiros ou navios turísticos, que despejam seu lixo diretamente no mar. Outra fonte de dejetos é a descarga em rios próximos à zona costeira ou diretamente nas praias; a ação das correntes e das ondas acaba por espalhar esse lixo pelo oceano.

O lixo jogado no mar representa uma séria ameaça aos organismos marinhos. Muitos animais, como as tartarugas marinhas e os golfinhos, confundem pedaços de plástico ou vidro com os seus alimentos, engolindo-os e morrendo sufocados. No Brasil, existe o registro do caso de um filhote de baleia jubarte que morreu de inanição, após ingerir tampinhas de garrafas plásticas que ficaram presas em sua garganta, impedindo a passagem do leite materno.

Medidas de proteção aos oceanos

Para evitar as agressões ao meio marinho, convenções internacionais determinam que todas as embarcações devem manter os resíduos produzidos a bordo em recipientes, sendo proibido e passível de multa o seu descarte no mar. No entanto, uma vez que não se pode identificar precisamente a origem dos dejetos, a fiscalização dessas ações é extremamente difícil.

Como pudemos ver, existem diversas e perigosas fontes de poluição que ameaçam o ambiente marinho. Para continuarmos a usufruir da enorme fonte de biodiversidade e recursos naturais que o mar representa, precisamos repensar nossas atitudes. Assim, além de desenvolver técnicas de recuperação de áreas degradadas, é fundamental a adoção de medidas de proteção que evitem novas contaminações e danos ao ecossistema marinho.

 

 

 

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Alice Dantas Brites é professora de biologia.



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