Quadrinhos e 2ª Guerra Mundial: Capitão América e os roteiristas judeus

Túlio Vilela

Sete de dezembro de 1941 foi a data em que ocorreu o ataque japonês a Pearl Harbour, base militar norte-americana localizada no Havaí. Após esse ataque, os Estados Unidos entraram oficialmente na Segunda Guerra Mundial. Na vida real foi assim, mas nos quadrinhos norte-americanos, os super-heróis já estavam lutando contra as potências do Eixo (a aliança formada pela Alemanha nazista, a Itália fascista e o Japão) meses antes do ataque.

Capitão América

O primeiro gibi do Capitão América, por exemplo, foi publicado em março de 1941. O Capitão América não foi o primeiro super-herói dos gibis norte-americanos (o Super-Homem já havia aparecido em 1938), mas ele foi um dos primeiros a trazer histórias mais engajadas na luta contra o nazismo e inspirou inúmeras imitações. Foi quando se tornaram comuns gibis que traziam capas com os heróis socando ou ridicularizando os ditadores do Eixo: Hitler e seus aliados, Mussolini, ditador italiano, Tojo, primeiro-ministro japonês na época do ataque a Pearl Harbor, e o então imperador japonês Hiroíto.

O Caveira Vermelha, um supervilão nazista

Criado pela dupla de desenhistas Jack Kirby e Joe Simon, o Capitão América tinha como seu principal inimigo o Caveira Vermelha, um supervilão nazista. No entanto, na aparência, o Capitão América era muito mais parecido com o ideal de "raça pura" dos nazistas do que o Caveira Vermelha: era alto, forte, tinha olhos azuis e, por debaixo da máscara, o seus cabelos eram loiros, ou seja, o padrão de beleza nórdica que Hitler tanto admirava.

Na vida real, os nazistas jamais teriam como símbolo um soldado que usasse uma máscara em forma de caveira, até porque em suas peças de propaganda, os nazistas gostavam de retratar a si mesmos como belos e simpáticos, enquanto que os judeus eram retratados com aparência monstruosa.

Quando foram lançados os primeiros gibis mostrando o Capitão América e outros super-heróis lutando contra o Eixo, uma boa parte da população norte-americana ainda defendia a ideia de que os Estados Unidos deveriam ficar afastados do conflito. Isso apesar do fato de que antes mesmo do ataque a Pearl Harbour, o governo norte-americano já apoiava indiretamente a Inglaterra, que estava em guerra com a Alemanha desde 1939.

Roteiristas e desenhistas judeus

Por que os criadores desses gibis tomaram partido e assumiram sua simpatia por um dos lados num momento em que muitos de seus compatriotas preferiam manter a neutralidade? Em primeiro lugar, porque os nazistas davam ótimos vilões para as histórias. Afinal, o que seria dos gibis de super-heróis sem os vilões? Em segundo, mas não menos importante, estava o fato de que boa parte dos criadores desses gibis tinha razões pessoais para fazer propaganda contra o nazismo: boa parte deles eram judeus, que eram as principais vítimas do ódio dos nazistas.

Muitos desses roteiristas e desenhistas eram filhos ou netos de imigrantes judeus pobres que, para fugir de perseguições na Europa, resolveram migrar para os Estados Unidos. Eles estavam preocupados com a situação dos familiares que viviam na Europa. Entre os roteiristas e desenhistas judeus estavam: Jerry Siegel e Joe Shuster, criadores do Super-Homem, Bob Kane, o criador de Batman, Jack Kirby, co-criador do Capitão América e de vários outros personagens, e Will Eisner, o criador do Spirit, detetive mascarado do qual algumas aventuras figuram, segundo vários críticos, entre as maiores obras-primas dos quadrinhos.

Discriminação racial

Para fugir da discriminação que os judeus também enfrentavam nos Estados Unidos, alguns desses criadores mudaram seus nomes ou adotaram pseudônimos que escondiam sua origem judaica, dentre eles, Bob Kane, cujo nome verdadeiro era Robert Kahn, e Jack Kirby, cujo nome verdadeiro era Jacob Kurtzberg.

Duas boas dicas de leitura que retratam tanto a indústria dos gibis quanto a vida da comunidade judaica nos Estados Unidos daquela época são "No coração da tempestade", autobiografia em quadrinhos de Will Eisner, que chegou a ser publicada no Brasil pela Abril Jovem, e "As aventuras de Kavalier e Klay", romance do escritor norte-americano Michael Chabon, publicado no Brasil pela Editora Record, que conta a história de uma dupla de primos judeus, que juntos criam um super-herói.

O Príncipe Submarino e o Tocha Humana

O Tocha Humana e Namor, o Príncipe Submarino, ambos criados em 1939, estão entre os heróis cujas aventuras mais refletiram o clima político da época. Apesar de água e fogo não se combinarem, esses dois heróis se aliaram várias vezes em aventuras que tinham os nazistas e os japoneses como vilões. Inicialmente, Namor estava mais para vilão do que para herói, pois, por onde passava, espalhava destruição e pânico (para defender seu reino submerso da Atlântida, ele havia declarado guerra a todos os povos da superfície).

No entanto, com a guerra, Namor decidiu ficar do lado dos Aliados, porque julgava o Eixo uma ameaça maior para a Atlântida. Nestas aventuras, também era comum a participação do Capitão América e de Buck, seu ajudante (da mesma forma como o Robin é o ajudante do Batman). Numa dessas histórias, os heróis impediram que soldados alemães e japoneses invadissem a América por meio de um "túnel subterrâneo" (!) construído no Estreito de Bering.

Essa história merece atenção por dois detalhes. Em primeiro lugar, porque apesar de o Japão e a Alemanha nazista terem sido aliados durante a Segunda Guerra Mundial, na vida real essa aliança foi bem menos "entrosada" do que a mostrada no gibi, pois, as forças armadas dos dois países jamais participaram de uma operação militar conjunta. Na vida real, Japão e a Alemanha nazista lutaram contra os Estados Unidos em fronts separados.

O segundo detalhe é que a aventura dos heróis reflete um medo comum entre parte da população norte-americana depois do ataque a Pearl Harbor: o medo de uma invasão alemã ou japonesa nos Estados Unidos, embora isso fosse bastante improvável, pois nem a Alemanha e nem o Japão dispunham de recursos para enviar aviões que pudessem bombardear as cidades norte-americanas.

Blecaute no Brasil

Vale lembrar que esse medo existiu também no Brasil, após submarinos alemães terem torpedeado navios mercantes brasileiros, mas assim como no caso dos Estados Unidos, era bastante improvável, para não falar impossível, que aviões alemães conseguissem viajar da Europa para a América do Sul com o objetivo de bombardear alguma grande cidade brasileira (apesar disso, após a entrada do Brasil na guerra, as autoridades brasileiras ordenaram blecaute em várias cidades litorâneas, para evitar que se transformassem em alvos de ataques aéreos noturnos).

  • O Tocha Humana enfrenta os japoneses

Outro aspecto da Segunda Guerra Mundial que é possível perceber nos gibis da época é que o racismo não foi exclusivo do Eixo, também existia no lado adversário, o dos Aliados. Nos gibis norte-americanos, os japoneses costumavam ser quase sempre retratados como anões monstruosos, dentuços e com óculos fundo de garrafa. Na verdade, muito antes de Pearl Harbor, vilões com traços asiáticos já eram comuns nos quadrinhos norte-americanos.

Entre esses vilões, podemos destacar, Ming, o Impiedoso, o principal inimigo do herói espacial Flash Gordon, que apareceu pela primeira vez nos jornais em 1934, e os Singh, piratas chineses que tinham como inimigo o Fantasma, herói mascarado que estreou nas tiras dos jornais em 1936. A diferença é que antes de Pearl Harbour, os heróis asiáticos eram, em sua maioria, chineses. Depois, passaram a ser japoneses. Os chineses como eram inimigos dos japoneses, portanto aliados dos norte-americanos, deixaram, por algum tempo, de ser vilões nos quadrinhos da terra do Tio Sam.

Raridade e reciclagem

Curiosamente, poucos exemplares dos gibis norte-americanos dessa época chegaram aos nossos dias. A principal razão é que para ajudar no esforço de guerra, o governo dos Estados Unidos pedia para as pessoas jogarem fora as revistas para que o papel fosse reciclado. Afinal, em tempos de guerra, tudo é racionado, inclusive o papel. Por isso, quem tiver em mãos um gibi daquela época (não vale fac-símile) em bom estado de conservação, pode vendê-lo por um bom preço ou mesmo por uma fortuna. Alguns chegam a ser vendidos por quantias superiores a 25 mil dólares!

Praticamente todos os gibis da época trouxeram aventuras mostrando os heróis engajados no esforço de guerra. O que obrigava os roteiristas a bolarem as desculpas mais absurdas para explicar porque a Segunda Guerra só terminou em 1945 e não em cinco segundos. Afinal, se os super-heróis existissem mesmo, teria sido bem mais fácil pra derrotar o Eixo. Com Super-Homem e companhia do seu lado, quem precisa de bombas atômicas?

Túlio Vilela formado em história pela USP, é professor da rede pública do estado de São Paulo e um dos autores do livro "Como Usar as Histórias em Quadrinhos na Sala de Aula" (Editora Contexto).



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