Quadrinhos e neocolonialismo: Jim das Selvas, a concorrência de Tarzan

Túlio Vilela

Os quadrinhos de Jim das Selvas deixariam horrorizados os ambientalistas de hoje: numa das primeiras aventuras, o herói mata vários animais selvagens, dentre os quais um tigre, contribuindo para a extinção de várias espécies da fauna local. Além de animais selvagens, Jim das Selvas costumava enfrentar contrabandistas, piratas, mercadores de escravos e, durante a guerra, soldados japoneses.

Naquele momento, o herói lutava contra o imperialismo japonês (responsável por uma série de atrocidades no Oriente, comparáveis às cometidas pela Alemanha nazista na Europa), mas ideologicamente era defensor da continuidade dos imperialismos britânico e norte-americano na Ásia e no Pacífico.

Para competir com os quadrinhos de Tarzan, o King Features Syndicate, agência distribuidora de tiras para jornais, encomendou a criação de uma nova série de aventuras ambientadas na selva. Um concurso interno foi realizado para escolher o desenhista que seria responsável pela arte da série que seria publicada nos jornais aos domingos.

O vencedor foi Alex Raymond (1909-1956), considerado pela beleza de seu traço um dos melhores desenhistas da época. A série criada para concorrer com Tarzan era Jim das Selvas (no original, Jungle Jim), que estreou nos jornais em 1934, junto com outra série também desenhada por Raymond: Flash Gordon, herói cujas aventuras se passam em outros planetas.

Apesar de a assinatura de Raymond ser a única a aparecer nas tiras, as aventuras eram escritas por outro profissional, o roteirista Don Moore, que jamais foi recebeu crédito pelo seu trabalho, permanecendo no anonimato. Moore era também o responsável pelos roteiros de Flash Gordon. Alex Raymond era um desenhista excepcional, que inspirou legiões de imitadores, mas Don Moore estava longe de ser um roteirista acima da média.

Os textos de Moore pareciam mais apropriados para legendas de filmes do cinema mudo que para histórias em quadrinhos. Mesmo assim, graças principalmente aos desenhos de Raymond e de vários assistentes não creditados, Jim das Selvas foi um sucesso. Tanto sucesso que até gerou um seriado de televisão que estreou nos Estados Unidos em 1954.

Johnny Weismuller

No seriado de televisão, que durou vinte e seis episódios, Jim das Selvas foi interpretado por Johnny Weismuller, o mesmo ator (e ex-nadador olímpico) que ficou famoso no papel de Tarzan numa série de filmes feitos para o cinema durante a década de 1940. Weismuller foi escolhido para o papel de Jim das Selvas justamente por causa de sua experiência no papel de Tarzan. Interessante ironia: a adaptação para tv de um herói dos quadrinhos criado para competir com Tarzan teve como astro o mesmo ator que havia interpretado o “homem-macaco”.

Embora criado para competir com Tarzan, Jim das Selvas estava longe de ser um plágio do “rei das selvas”. Outra inegável fonte de inspiração para o filme foi um documentário lançado em 1932 sobre os feitos do caçador Frank Buck na Malásia. Diferentemente de Tarzan, cujas aventuras são ambientadas na África, as aventuras de Jim das Selvas ocorrem em sua maioria na Ásia e na Oceania, em lugares como Sumatra, Malásia, Bornéu e em diversas ilhas do oceano Pacífico.

Jim das Selvas é o apelido de Jim Bradley, um famoso caçador, especialista em armadilhas. Ele também tinha um ajudante que era a representação estereotipada do “outro”, no caso de um asiático: seu nome era Kolu e usava um turbante. Também havia Lilli deVrille, uma criminosa que se regenerou e se tornou a principal namorada de Jim e também “uma das melhores agentes secretas na China”. Constantemente, Jim das Selvas salvava as mocinhas dos perigos, mas quem costumava salvar o próprio Jim era Kolu.

Durante a Segunda Guerra Mundial, os quadrinhos de Jim das Selvas mostraram o herói se alistando no exército norte-americano e enfrentando os japoneses. Na mesma época, o desenhista de Jim das Selvas, Alex Raymond, também lutou na guerra: alistou-se nos fuzileiros navais dos Estados Unidos. Desde então a tira passou a ser desenhada por outros artistas até ser cancelada em meados da década de 1950.

Após voltar da guerra, Raymond não retornou a nenhuma das tiras em que trabalhava e passou a se dedicar a uma nova tira, Nick Holmes, que ele desenhou até morrer em um acidente de carro (Raymond adorava dirigir carros esportivos).

Túlio Vilela formado em História pela USP, é professor da rede pública do Estado de São Paulo e um dos autores de Como Usar as Histórias em Quadrinhos na Sala de Aula (Editora Contexto).



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