Vidas Secas: Análise do livro de Graciliano Ramos

Oscar D'Ambrosio, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

Entre a excelente produção de Graciliano Ramos (1892 -1953), torna-se difícil escolher qual é o romance mais significativo. Eles se equivalem na economia de recursos, na denúncia social e na maneira de abordar dilemas existenciais a partir de situações cotidianas retratadas sem grandiloquência. Muito mais que denunciar o sistema opressor que humilha os nordestinos, o escritor alagoano é um mestre da palavra.

Boa parte da crítica, porém, quando questionada sobre a obra-prima de Graciliano, escolhe "Vidas Secas". Publicada em 1938, é considerada por muitos como o principal texto do autor por dois fatores essenciais: o retrato da sacrificada luta pela sobrevivência daqueles que sofrem com a seca no nordeste e a forma como essa história é contada, com capítulos que podem ser lidos fora de ordem com economia total de adjetivos.



Enredo

Fabiano e sua família, formada pela esposa Sinhá Vitória, pelos filhos não nomeados, chamados apenas de Menino mais Velho e Menino mais Novo, a cachorra (esta sim, batizada ironicamente de Baleia, ou seja aquela que anda livremente pelo mar) e o papagaio, têm a sua saga de migrantes narrada em terceira pessoa.



Ausência de comunicação

A estiagem que corrói a terra, levando à fome e à necessidade de migrar também domina a alma de cada um dos personagens. Eles não passam de marionetes de um grande sistema econômico do qual não conseguem escapulir e que os massacra sob diversos aspectos, da falta de dinheiro ao da carência total de perspectivas.

A ausência de comunicação entre os personagens é o grande tema do livro. Se a baleia, enquanto cetáceo, domina o mar, a Baleia do livro, adoentada, é vencida pela seca, sendo sacrificada por Fabiano, numa das principais cenas do livro, levada para a tela com extrema sensibilidade na versão cinematográfica de Nelson Pereira dos Santos, em 1963.

Mesmo na tarefa de matar Baleia, Fabiano fracassa. Apenas fere o animal, que vem a morrer no dia seguinte. O talento de Graciliano está em estruturar a narrativa de modo que, perante pessoas sem sonhos, apenas Baleia tem o poder de imaginar. Pouco antes de morrer, ela vê a si mesma num campo repleto de preás, onde poderia saciar a sua fome.



Recursos verbais

Resta à família de migrantes ter como ideal o paradigma idealizado de Tomás da bolandeira, com sua cama de couro e seu amplo vocabulário, que se tornam objetos de desejo da família de Fabiano. Sem educação, a família não tem sequer recursos verbais para discutir qualquer tipo de ofensa ou humilhação pela qual passa.

A representação do poder instituído está na personagem do Soldado Amarelo. Surge como um policial arbitrário que, após uma discussão num jogo de cartas, é responsável pela prisão e humilhação do chefe da família sertaneja, que se sente impotente perante o mundo, sem possibilidade de alterar nada.

O dono da fazenda abandonada em que Fabiano trabalha como vaqueiro também pode ser considerado uma representação da mediocridade, injustiça e opressão. Sua busca pela produtividade o deixa cego para qualquer valor humano. Em contrapartida, a família caminha num triste movimento cíclico de solidão, abandono das autoridades e desesperança. A única alternativa é a melancólica fuga, tanto de si mesmos como do sertão abrasador.

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Oscar D'Ambrosio, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação é jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp), crítico de arte e integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica - Seção Brasil).



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