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Viagens na minha terra: Garrett mescla estilos, gêneros e linguagens em obra inovadora para a literatura portuguesa

Oscar d'Ambrosio*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

Escritor e dramaturgo romântico português, João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (Porto, 1799, – Lisboa, 1854) foi um dos mais importantes nomes do romantismo daquele país. Destaca-se, por exemplo, seu papel como incentivador da dramaturgia lusa, tendo proposto a construção do célebre Teatro Nacional de D. Maria II e a criação do Conservatório de Arte Dramática.

Entre seus livros, Viagens na minha terra é uma obra fundamental por mesclar dois elementos. De um lado, há a narração em torno de uma viagem verdadeira realizada pelo autor entre Lisboa e Santarém. Por outro, é contada uma história de amor envolvendo Carlos, filho do Frei Dinis, que acaba por trair Joaninha, “a menina dos rouxinóis”, que morre louca.

Em 1843, ano em que começou a publicar, na Revista Universal Lisbonense, as Viagens na minha terra, fez no Conservatório Nacional a primeira leitura da peça de teatro Frei Luís de Sousa, uma de suas principais obras, que conta a história de Manuel Coutinho, herói romântico. Após saber que contraíra núpcias com Madalena, cujo primeiro marido retorna após 20 anos desaparecido na Batalha de Alcácer-Quibir, ele toma o hábito religioso e o nome que intitula a célebre obra.

Publicada em 1846, Viagens na minha terra, justamente por proporcionar a mistura de realidade e ficção, é considerada por diversos críticos o marco inicial da moderna prosa portuguesa. A mescla de estilos, gêneros e linguagens, ora tendendo para o jornalístico ora para o popular e oralizante, foi um passo importante para se libertar da tradição clássica e caminhar rumo a autores como Eça de Queirós.

Outro fator fundamental está na análise de Portugal que Almeida Garrett realiza. Frei Dinis representa aspectos do Portugal absolutista e tradicional, enquanto Carlos, em diversos pontos de vista, aponta para um espírito mais liberal e renovador. Nesse aspecto, a infelicidade de Carlos é a de um país ainda partilhado por uma guerra civil entre os partidários de D. Miguel e os liberais.

Há muito de romântico no sofrimento dos personagens. A mãe de Carlos, por exemplo, morre “de desgosto” e Frei Dinis mata o pai de Joaninha, marido de sua amante. Carlos, por sua vez, abandona Joaninha, trocando-a por Georgina, que, ao ser largada por ele, torna-se abadessa.

Cabe lembrar que Garrett, até meados do século XX, era considerado pela crítica portuguesa o segundo principal escritor local, abaixo apenas de Camões. O intelectual João Gaspar Simões teve um papel fundamental em questionar essa avaliação, trazendo à tona escritores como Fernando Pessoa, entre muitos outros.

De qualquer modo, não se pode negar a Garrett a importância como artista da palavra que não se limitou a um gênero num mesmo texto. O cruzamento realizado entre a história da viagem e a narrativa de amor dá-lhe um local de destaque não só como principal voz romântica portuguesa, mas como alguém em busca de novos paradigmas de escrita em sua época.

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Oscar d'Ambrosio*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação *Oscar D'Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp), é crítico de arte e integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica - Seção Brasil).

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