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Biografias


Boécio Filósofo e estadista romano

480, Roma (Itália)

524/525, Pavia (Itália)

Da Página 3 Pedagogia & Comunicação

28/05/2009 20h20

Anício Mânlio Torquato Severino Boécio (em latim, Anitius Manlius Torquatus Severinus Boethius) ocupou altos cargos na Itália, durante o reinado do ostrogodo Teodorico, o Grande. Em 510 tornou-se cônsul e membro do senado, mas em 522, acusado de trair o rei em benefício de Justino 1º, imperador do Oriente, assim como de ser o autor de cartas subversivas e de se dar a práticas de magia, foi preso e torturado até a morte.

Admirado por muitos de seus contemporâneos (entre os quais o gramático Prisciano e o escritor Cassiodoro) como homem honesto de rara sabedoria, em 725 teve seu corpo colocado, por ordem do rei Luitprand, na igreja de San Pietro em Pádua, onde passou a ser alvo de verdadeiro culto.
 

Influências na Idade Média

Entre uma ética inspirada nos antigos, procedendo com argumentos aristotélicos e estóicos, e uma formação de espírito enciclopédico e já medieval, menos pagão do que grego, mas muito mais romano do que cristão, Boécio exerce forte influência na Idade Média, que adotará seus tratados sobre música e geometria nos centros de ensino superior e debaterá a questão escolástica dos "universais" tomando como guia seus estudos filosóficos de base neoplatônica.

A contribuição de Boécio representa, portanto, uma das mais valiosas mediações entre o mundo filosófico da Grécia antiga e a cultura medieval latina, estendendo-se sua influência até o século 15, entre os humanistas.

Tendo-se preocupado em difundir Platão e especialmente Aristóteles, de que traduziu e comentou várias obras, Boécio é uma presença importante no trabalho do próprio Tomás de Aquino, que se fundamenta em sua obra teológica Sobre a Trindade para distinguir o gênero da espécie e firmar o conceito de "pessoa" - "a substância individual de uma natureza racional" -, produto da reflexão de Boécio.

Boécio nos deixou dois pequenos tratados a respeito dos silogismos categórico e hipotético, dedicados ao ensino da lógica. De uso indispensável nos currículos medievais foram os seus De institutione arithmetica e De institutione musica, reelaborados a partir dos manuais gregos de Nicômaco de Gérasa, assim como um livro de astronomia baseado em Ptolomeu, infelizmente perdido, como vários outros de seus trabalhos.
 

Estoicismo e graça divina

A obra principal de Boécio é Sobre a consolação da filosofia, escrita nos seus anos de cárcere e suplício. Abrangendo a filosofia propriamente dita, a moral, a teodicéia, a metafísica e a psicologia, é toda marcada, ainda que estoicamente, pela expectativa da morte próxima: "é uma musa de luta que me inspira estes cantos", ele escreve.

Sabendo que o arianismo de Teodorico não transigiria, Boécio tem certeza de que está condenado. Ora em prosa, ora em verso, Boécio recorre mais à sabedoria - no seu sentido humano e neoplatônico - do que à doutrina cristã.

Representa, assim, a sabedoria como uma mulher venerável e de olhos luminosos, em diálogo com ele. Individualista, Boécio encaminha esse diálogo para uma noção de "felicidade em Deus", que não exclui, mas antes impõe o conhecimento prévio de si mesmo.

Na tentativa de explicar com serenidade a injustiça e o mal num mundo governado pela mão de Deus, Boécio se reparte entre a Antiguidade estóica e o "dom da graça divina". Dessa forma, sua Sobre a consolação da filosofia será imitada por místicos do século 14 e compreendida de um ponto de vista laico pelos hereges provençais.
 

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