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Caramujo gigante - Molusco de origem africana transmite doenças

Mariana Aprile, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

Vinícius e Ana são namorados e resolveram passar o Ano Novo em uma casa de praia, em Mongaguá, litoral sul de São Paulo. Após se instalarem, foram até o quintal e notaram um caramujo gigante rastejando pelo chão.

Impressionada com o tamanho do bicho e até com a beleza da concha, Ana tentou tocar no caramujo. Vinícius soltou um grito: "Não toque nisso!". E contou que, quando criança, tinha ouvido de um senhor da região que o tal caramujo era um transmissor de doenças.

Ao sair para uma caminhada, o casal notou pelo caminho uma coisa espantosa - uma quantidade enorme de caramujos iguais àquele que encontraram no quintal da casa.

Em locais próximos a terrenos baldios, o número desses moluscos era tão grande que chegavam a ocupar um trecho inteiro da calçada, o que fazia com que as pessoas andassem pela rua. Ana tirou uma foto de um dos caramujos para mostrar à família.

Passada a comemoração da chegada de 2007, o casal retornou a São Paulo. Vinícius mostrou a foto do caramujo ao irmão, que é estudante de biologia. O futuro biólogo pesquisou sobre o molusco e descobriu coisas muito importantes.

 

Caramujo gigante ou africano

O caramujo gigante, também conhecido como caramujo africano ou acatina, é nativo das regiões leste e nordeste da África e o nome de sua espécie é Achatina fulica. Esse animal é um molusco que faz jus ao seu nome. A concha desse bicho adulto pode chegar a 20 cm de comprimento e seu peso total, que inclui a concha e mais o animal em seu interior, chega a passar da marca dos 200 gramas!

Os filhotes do caramujo gigante são menores, mas possuem as mesmas características dos mais velhos. Sua concha tem a forma de uma espiral cônica (ao se olhar a concha de lado, a forma dela lembra a de um cone) e é de cor marrom escura com faixas de tons mais claros. As bordas da abertura da concha são bem fininhas. Pode parecer que todos os caramujos são iguais, mas a melhor forma de diferenciá-los é através da observação de suas "casas" - lembre-se de que a concha do caramujo é a casa dele.

 

Chegada do caramujo gigante ao Brasil

O caramujo gigante foi trazido para o Brasil pelos criadores de escargot, um caramujo comestível muito apreciado pelo ser humano. Esses comerciantes viram no acatina uma "mina de ouro" pois esse animal, além de atingir um tamanho formidável, se reproduz numa velocidade incrível. Segundo Fabio André Faraco, analista ambiental do Núcleo de Fauna do IBAMA, no Rio Grande do Sul, "se você colocar dois deles em um quintal, em alguns meses haverá milhares deles".

Mas o que parecia ser uma grande vantagem comercial revelou-se um terrível pesadelo, pois ninguém apreciou o sabor do caramujo africano. Então os criadores resolveram se livrar dos bichos, simplesmente jogando-os em terrenos baldios e em matas - o correto seria contatar as autoridades ambientais.

Assim, os supercaramujos espalharam-se rapidamente pelo território brasileiro. Em pouco tempo, muitos agricultores foram prejudicados pelo acatina, que se alimenta de toda a sorte de legumes e vegetais.

Além disso, a fauna brasileira também "sentiu na pele" os males trazidos pelo molusco invasor, pois esse compete com os animais nativos, que ficam em desvantagem e podem deixar de existir. Entretanto, a destruição não pára por aí - o acatina também se alimenta de muitas espécies da flora nativa, inclusive as que são ameaçadas de extinção, como é o caso de algumas orquídeas.

 

Ameaça à saúde pública

O caramujo gigante é também um problema sério em relação à saúde pública, pois transmite vermes causadores da meningite eosinofílica, o Angiostrongylus costaricencis, e da angiostrongilíase abdominal, o Angiostrongylus cantonensis - as duas doenças podem matar!

Até o momento, não foram registrados casos de meningite eosinofílica no Brasil, mas sim no Japão, na Tailândia, em Cuba e em várias ilhas do Oceano Pacífico. O verme responsável por essa doença, entra no sistema nervoso central da pessoa e causa a inflamação das meninges (que são as membranas, ou peles bem finas, que envolvem o cérebro). O doente costuma sentir dores de cabeça muito fortes e dificuldade em mover o pescoço. A meningite eosinofílica pode causar cegueira, paralisia e até mesmo a morte.

A angiostrongilíase adbominal, entretanto, já atormenta os brasileiros. Os médicos encontram muita dificuldade em identificar essa doença, pois seus sintomas são muito semelhantes aos da apendicite - febre, dores abdominais, falta de apetite e vômitos. Muitas vezes o intestino é perfurado, o que resulta em hemorragia interna, infecção e termina por matar a vítima.

Uma pessoa pode ser contaminada através da ingestão de verduras, legumes e frutas mal lavadas, ou mesmo pela ingestão do próprio caramujo. Entretanto, o mais incrível é que se podem contrair essas terríveis verminoses apenas tocando na concha do animal ou pisando descalço em locais onde vive o caramujo gigante. Isso por causa do muco produzido pelo molusco, que recobre a concha e que fica no caminho por onde ele passa.

Portanto, se você encontrar um caramujo gigante parecido com o acatina - daí a importância de se observar a concha do bicho - entre em contato com o IBAMA de sua cidade, e jamais toque nesse animal. Esse caramujo é muito resistente e há maneiras especiais para matá-lo - jogar sal, por exemplo, não adianta, pois os ovos não morrem. No site do IBAMA há mais informações sobre o caramujo gigante da África.

Mariana Aprile, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação é estudante de biologia na Universidade presbiteriana Mackenzie e bolsista de Iniciação Científica do Mackpesquisa (PIBICK).

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