Ciências

Tardigradas: Animais capazes de sobreviver a condições extremas

Alice Dantas Brites, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

Os tardigradas são pequenos invertebrados também conhecidos como ursos-d'água, pois sua forma se assemelha à de um ursinho. Esses animais estão reunidos em um grupo próprio chamado filo Tardigrada, que possui cerca de 900 espécies já descritas.

O seu grau de parentesco com os outros invertebrados ainda é incerto. Alguns cientistas acreditam que eles sejam parentes dos artrópodes (divisão que inclui os insetos, as aranhas e os crustáceos), enquanto outros os consideram mais próximos aos asquelmintos (grupo que inclui algumas espécies de vermes e pequenos animais aquáticos).

Esses animais medem de 0,05 a 1,5 mm de comprimento e possuem um corpo segmentado com quatro pares de pernas. Nas extremidades de cada perna existem de quatro a oito garras ou discos adesivos. Os três primeiros pares de pernas são utilizados para impulsionar o corpo para frente durante a locomoção e o último par é utilizado para a fixação.

Reprodução sexuada e assexuada
O sistema nervoso fica na região ventral e é formado por gânglios nervosos, um cérebro e um par de olhos primitivos. Os tardigradas não possuem sistema respiratório. A respiração é realizada através da troca de gases entre a parede do corpo e o meio ambiente. Na maioria das espécies os sexos são separados e a reprodução ocorre de forma sexuada. Existem algumas poucas espécies hermafroditas nas quais a reprodução pode ser assexuada.

Os tardigradas se alimentam de fluidos de plantas, células animais, bactérias, fungos e até mesmo de outros tardigradas. Possuem, no interior da boca, um par de estruturas semelhantes a pequenos estiletes capazes de perfurar o tecido de sua vítima e sugar seus fluidos.

Podemos encontrá-los nos mais diversos ambientes aquáticos ou úmidos desde o topo de montanhas, a mais de 5.000 metros de altura, até no fundo do mar a cerca de 3.000 metros de profundidade. Podem habitar pequenos musgos e liquens, algas de água doce ou salgada, solos úmidos ou, até mesmo, o espaço entre os grãos de areia de uma praia. No entanto, são considerados animais aquáticos, pois dependem da água para realizar algumas das suas funções vitais, como a respiração e, em algumas espécies, a reprodução.

Onde e como vivem
Mas se estes pequenos invertebrados dependem da água, como eles conseguem sobreviver quando o ambiente se torna desfavorável? Como eles resistem quando, por exemplo, a água do solo úmido evapora ou o musgo no qual vivem morre?

É aí que entra uma das características mais impressionantes destes animais, a capacidade de entrar numa espécie de hibernação chamada de criptobiose. Para entrar em criptobiose, eles vão lentamente perdendo a água do corpo e, ao mesmo tempo, vão se enrolando até formar uma pequena bolinha desidratada, também chamada de cisto. Nesse estado, o metabolismo do animal fica extremamente baixo, cerca de 0,01% do normal, e o teor de água do corpo cai para cerca de 1%.

A criptobiose também é conhecida como animação suspensa, já que o metabolismo do animal cai a níveis tão baixos que, às vezes, nem podem ser detectados.

Animação suspensa
Durante o estado de animação suspensa, os tardigradas podem enfrentar condições extremas, tais como: temperaturas superiores a 150 ºC (por poucos minutos), temperaturas inferiores a 200º C negativos (por dias), falta de oxigênio, falta de água, exposição a altas pressões ou ao vácuo, álcool fervente e aos raios X que seriam mortais para humanos.

Quando as condições ambientais voltam a se tornar favoráveis, eles são capazes de reviver e, em poucas horas, voltar à sua forma original. Tardigradas presentes em amostras de musgo seco guardadas em um museu por mais de 100 anos já foram reanimados.

Essa capacidade de entrar em criptobiose confere uma grande vantagem adaptativa aos animais que vivem em ambientes transitórios, tais como lagoas temporárias e solos úmidos, e é encontrada em alguns outros invertebrados assim como em algumas espécies de vermes. Mas, com certeza, são os tardigradas, com esta aparência de simpáticos ursinhos de pelúcia, aqueles capazes de sobreviver às condições mais extremas que possamos imaginar.

Alice Dantas Brites, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação é graduada em ciências biológicas pela Universidade de São Paulo.

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