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Estética - Arte traduz o espírito de renovação contínua

Josué Cândido da Silva, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

Se existe algo de permanente na moda é o seu caráter efêmero, fugaz, transitório. Uma pessoa determinada a acompanhar a moda sabe que, inevitavelmente, por mais bela que uma roupa seja, ela "durará", no máximo, até o fim da estação.

Quanto mais fielmente um traje corresponder à última tendência da moda, mais ridículo ele parecerá aos olhos das novas gerações com o distanciar do tempo. É por isso que a moda talvez seja a representação mais fiel do espírito dos tempos modernos, caracterizados pela necessidade de renovação contínua, com os olhos sempre voltados para o futuro, para tudo o que é novidade.


 

Consumo

Karl Marx (1818-1883) viu nesse impulso permanente de inovação uma necessidade da nova sociedade burguesa em sua busca de ampliar ao máximo o consumo de mercadorias.

Diz Marx no "Manifesto Comunista": "A burguesia só pode existir com a condição de revolucionar incessantemente os instrumentos de produção, por conseguinte, as relações de produção e, com isso, todas as relações sociais. (...) Essa revolução contínua da produção, esse abalo constante de todo sistema social, essa agitação permanente e essa falta de segurança distinguem a época burguesa de todas as precedentes (...). Tudo o que era sólido se desmancha no ar...".



Modernidade

Se tudo que é sólido se desmancha no ar, a modernidade não pode remeter-se a um passado que já não mais existe como fonte para os critérios que a orientam. Tampouco pode buscá-los na tradição que a precedeu e contra a qual se rebelou, não lhe restando alternativa senão extrair tais critérios de si própria.

O problema de uma fundamentação da modernidade a partir de si própria não passou despercebido pela crítica estética. Era preciso que a modernidade abandonasse qualquer referência à tradição que aprisionara a arte em padrões rígidos, como se os cânones do que caracteriza uma obra de arte fossem absolutos e impermeáveis às mudanças históricas.



Baudelaire

O poeta e crítico de arte Charles Baudelaire (1821-1867) propôs que a arte, em cada época, deve buscar sua própria forma, ao invés de imitar os padrões de épocas precedentes. A arte situa-se entre o eterno e o atual e pode ser considerada como filha legítima dos tempos atuais, pois "a modernidade é o transitório, o efêmero, o contingente, é a metade da arte, sendo a outra metade o eterno e o imutável".

O talento do artista revela-se ao extrair o eterno do transitório, pois, de outra forma, o eterno não poderia ser apreendido, pelo seu caráter intangível. Como observa Baudelaire: "O belo é constituído por um elemento eterno, invariável, cuja qualidade é excessivamente difícil de determinar, e de um elemento relativo, circunstancial (...) sem esse segundo elemento, que é como a cobertura brilhante e atraente que abre o apetite para o divino manjar, o primeiro elemento seria indigerível, (...) para a natureza humana".

A beleza eterna desvela-se apenas no traje da época, daí a afinidade da arte com a moda, ambas buscam algo de eterno no atual e momentâneo, mesmo reconhecendo a impossibilidade de retê-lo. Toda arte, assim como toda moda, é inevitavelmente datada como o retrato de uma época.



Novas formas

O artista precisa mergulhar em seu tempo; não pode ficar preso às formas do passado sob o risco de ser considerado um mero imitador. Ele precisa experimentar novas formas que melhor traduzam a sensibilidade de seu tempo, o que o dispõe a correr o risco de não ser compreendido por seus contemporâneos.

As pessoas são educadas e compreendem mais facilmente o que já foi digerido pela crítica e consagrado pelos acadêmicos. Por isso, é mais fácil repetir fórmulas consagradas e se arriscar menos se quiser ter o sucesso garantido. Os filmes, as músicas, a literatura e a moda, voltadas para o grande público, preferem repetir fórmulas consagradas a promoverem uma revolução na estética.



Eternizar o belo do efêmero

O artista que não se conforma com repetir receitas de sucesso, que procura traduzir o eterno no atual, corre o risco de ser incompreendido, de ser considerado produtor de uma arte "marginal". Esse artista pode não encontrar o devido reconhecimento em seu próprio tempo.

Isso não quer dizer que a arte está destinada a ser incompreendida ou que se dirige a uma minoria. Mesmo a arte erudita pode ser uma repetição de fórmulas de sucesso diferenciando-se apenas pelo poder aquisitivo de seus consumidores. Nisso a arte diferencia-se da moda, já que no caso da moda, o sucesso não pode servir como critério para definir se uma obra é realmente boa ou não.

O artista pode se sentir inseguro por não ter parâmetros claros capazes de avaliar sua obra, já que toda obra de arte é justamente a reinvenção dos parâmetros tradicionais e o rompimento com as formas cristalizadas. Mas a insegurança, a falta de referências e o esfumaçar de tudo que é sólido são justamente características da modernidade. Cabe ao artista a tentativa de construir uma obra capaz de eternizar o belo volátil do efêmero que, como a moda, passa.

Josué Cândido da Silva, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação é professor de filosofia da Universidade Estadual de Santa Cruz em Ilhéus (BA).

Filosofia