Filosofia

Guilherme de Ockham: Causa e efeito

Renato Cancian, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

O teólogo escolástico inglês Guilherme de Ockham (1285-1347), ou William de Ockham, é considerado o precursor do racionalismo, do cartesianismo e do empirismo moderno. Em suas obras, Ockham separou razão e fé, filosofia e teologia, e desenvolveu uma doutrina científica a partir do princípio de que só a experiência (proporcionada pelos sentidos humanos) permite conhecer a causa das coisas.

Ockham elaborou e fundamentou seus estudos lógico-empíricos com base em silogismos, uma forma de raciocínio dedutivo. Um silogismo é constituído por três proposições: duas premissas e uma conclusão. O uso do silogismo não tem por objetivo descobrir nada de novo, mas apenas demonstrar a validade de algo que já se conhece.

A origem do silogismo como forma de análise e dedução lógica remonta à Grécia Antiga, com o pensamento de Aristóteles.


 

Conceitos básicos

Nas obras de Ockham é muito recorrente o emprego do termo Deus. O autor se refere a Deus para estabelecer uma causa principal e única, responsável pelas demais. Sem esse recurso, teríamos de aceitar o pressuposto de causas infinitas para a compreensão da realidade. Assim, segundo Ockham: "Uma coisa é uma causa de outra se, quando inexiste essa primeira coisa, esta segunda coisa também inexiste".

Causalidade é uma relação em que o conhecimento, através da experiência, reconhece uma coisa como causa e, consequentemente, uma coisa como efeito. A prova se apoia na verificação da presença ou ausência do agente causador. O autor aceita o pressuposto de que não pode haver uma série infinita e ininterrupta de causas e efeitos; portanto, tem de existir uma primeira causa, que é responsável pelas demais.

A obra de Ockham é filosófica e não teológica. Ele impõe muitos limites ao nosso conhecimento natural de Deus e é um crítico das provas tradicionais a favor da existência de Deus - mas ele exerce sua crítica assumindo o papel de um lógico. Para Ockham, o fato de Deus existir e ser único é uma questão do âmbito da fé. Pressupor uma causa "eficiente" e "perfeita" não é o mesmo que provar a existência de um ser superior como Deus - é apenas estabelecer um ponto de referência para apoiar o raciocínio.



Os silogismos

  • Silogismo 1: Nas causas essencialmente ordenadas, a causa segunda depende da primeira.

    Segundo a concordância do autor, a resposta é "sim". De acordo com a proposição, aceitamos o fato de que a causa segunda é proveniente da causa primeira. A causa segunda depende de sua geradora para produzir algum efeito. Para estabelecer uma distinção entre causa total e causa parcial, podemos afirmar que a causa superior representa uma causa total se, e somente se, representar uma dependência contínua.
  • Silogismo 2: Nas causas essencialmente ordenadas, a causa superior é mais perfeita.

    Duas definições de perfeição são empregadas pelo autor: "natureza absolutamente perfeita" e "condição ou predicação mais perfeita". Nas causas essencialmente ordenadas, a superior é mais perfeita, mas nesse caso devemos nos valer da distinção entre causa superior total e causa superior parcial. Uma causa superior total é mais perfeita que as causas posteriores, tanto na sua condição como na sua natureza. Esta causa inclui Deus e engloba todas as outras causas. No entanto, uma causa superior parcial não é mais perfeita que seu efeito posterior.
  • Silogismo 3: As causas essencialmente ordenadas precisam agir simultaneamente na produção de um efeito de que são causas essencialmente ordenadas.

    De acordo com Ockham, "há contradição em que todas sejam causas essenciais do mesmo efeito e, contudo, esse efeito possa ser naturalmente produzido com exclusão de alguma dessas causas". Se um efeito pode ser naturalmente produzido sem A, este não é exigido naturalmente para sua produção e, por consequência, não é sua causa essencial.

    Síntese Explorando as proposições elaboradas nos silogismos 1, 2 e 3 nota-se que as conclusões lógicas que permitem ao autor construí-los podem ser resumidas da seguinte maneira: a prova representa o emprego do método lógico baseado em presença/ ausência de um agente considerado causa ou efeito.

    Depois, temos as construções de conceitos: causa total, causa parcial, efeito numericamente uno, efeito específico. Em seguida temos: natureza absolutamente perfeita, condição ou predicação mais perfeita.

Renato Cancian, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação é cientista social, mestre em sociologia-política e doutorando em ciências sociais. Autor do livro Comissão Justiça e Paz de São Paulo: gênese e atuação política -1972-1985 (Edufscar).

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